«Saúde para todos» em São Tomé e Príncipe: histórias de voluntariado e muita dedicação

O livro Saúde Para Todos: 25 anos ao serviço de São Tomé e Príncipe não é apenas a história de um programa de desenvolvimento na área da Saúde, premiado e reconhecido internacionalmente. São várias histórias, feitas de voluntariado e muita dedicação. Paulo Freitas, médico internista e presidente do Instituto Marquês de Valle Flôr, percorre 25 anos de memórias de coopera ção com São Tomé e Príncipe.

São Tomé e Príncipe tem hoje o melhor indicador de Saúde da África Subsariana, mas nem sempre foi assim. Há um quarto de século havia apenas uma mão cheia de boa vontade. O Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF), uma organização não governamental para o desenvolvimento que realiza ações de ajuda humanitária e cooperação em diversas áreas nos países de expressão portuguesa, deu o impulso que faltava. A aventura está agora retratada em livro, ao longo de mais de 200 páginas.

Paulo Freitas, médico internista e presidente do IMVF, é o pivô do programa de Saúde e do livro. É ele que conta a história e enquadra as dezenas de depoimentos de quem ajudou a transformar um modelo falido de Saúde numa referência. “Este é um livro diferente sobre Cooperação em Saúde, desde logo porque não tem um autor, mas centenas, que foram os obreiros de um dos melhores programas de cooperação em saúde, reconhecido nacional e internacionalmente”, sublinha o médico.

Mas esta é também uma obra inacabada, como são todas as que o IMVF empreende. “É um novelo onde se vai sempre puxando o fio”, diz. E, ao puxar o fio, puxa também gente. A proximidade com que o trabalho é feito no terreno faz com que sejam as pessoas
a procurar o projeto. Cada vez há mais braços para puxar este e outros novelos, garante.



A aventura começou há precisamente 28 anos, tantos quantos tinha na altura o jovem médico Paulo Freitas quando desembarcou em São Tomé. Chegou sem objetivos traçados, mas resolvido a dar rumo à instituição fundada pela sua bisavó, a marquesa de Valle Flôr. Rumou a Mé-Zochi, onde estava implantado o único hospital que funcionava na ilha, o Hospital Monte Café. E encontrou o rumo que procurava.

“Era um hospital falido. O modelo de Saúde do país também estava falido. Primeiro, foi preciso encontrar financiamento; depois, atuar na prevenção e recuperar os centros de saúde do distrito”, explica, acrescentando que, atualmente, a rede já cobre todo o território nacional.

Mas Paulo Freitas não embarcou sozinho nesta epopeia. Contou com o espírito empreendedor de outro médico que chegara um ano antes, Ahmed Zaky, de nacionalidade egípcia. “Juntos, iniciámos o projeto de Saúde Mé-Zochi”, conta. Estávamos em 1988. Ahmed Zaky continua ainda hoje no Instituto Marquês de Valle Flôr como diretor de projetos.

Segundo Paulo Freitas, permanecem em constante rotatividade médicos, enfermeiros e técnicos portugueses de 22 especialidades. As missões envolvem 15 hospitais portugueses no apoio à melhoria da prestação de cuidados de saúde em São Tomé, bem como a todas as políticas de saúde pública (vacinação, saúde escolar, saúde materna e infantil).

Um dos momentos mais marcantes do projeto prendeu-se com a inauguração da primeira plataforma de telemedicina, em 2010. “Foi um dia com muita emoção e ansiedade”. Recorda que tudo era instável e impossível de controlar, desde a rede de energia às comunicações por satélite, passando por um software novo, que agora era digital em vez de analógico.

Pela primeira vez, foram quebradas as barreiras da distância entre Portugal e São Tomé e Príncipe. “Foi muito especial naquela altura e também pelas possibilidades que abriu em termos de diagnóstico e tratamento”, destaca. Só entre 2011 e 2012, houve uma redução de 50% nas evacuações sanitárias de São Tomé para Portugal, quando comparado com 2009 e os anos anteriores. Para o Estado português, significou uma poupança em tratamentos de quase 82%. O orçamento para a Saúde na ilha também teve impactos positivos: menos 20% de verba afetada.

Mas os ganhos estendem-se em todas as frentes. O programa de reforço no setor da Saúde em São Tomé do IMVF conta com o apoio da União Europeia, da Cooperação Portuguesa, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Direção-Geral da Saúde e do Governo da ilha.




Artigo (pode ser lida na íntegra AQUI) publicado na edição de abril de LIVE Medicina Interna. 

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