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Opinião

Sequelas e futuro do Hospital Público


Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



A pandemia do coronavírus poderia ter devastado o Hospital Público.

A dedicação extraordinária, cuidado e capacidade das pessoas que nele trabalham tem sido inabalável. Em condições extremamente difíceis e em total abnegação, os profissionais de saúde continuam a dar o seu melhor. 

Sabemos que demasiados sacrifícios foram exigidos, mas que esta pandemia está longe de estar ultrapassada. Teremos que, finalmente, montar um sistema eficaz de rastreio de contactos, testagem e isolamento, cumprir o processo de vacinação e definir metas e regras partilhadas por todos.

Muitos irão relativizar o que se passou no último ano, particularmente os resultados do último mês de janeiro. Irão desvalorizar todas as dificuldades. Mesmo negar a falta de liderança, planeamento e coordenação de meios. Como se ninguém tivesse chamado ajuda internacional ou gritado em desespero:

“Por favor, ajudem-nos todos.” Irão falar do Rt, dos portugueses, das variantes, das razões extrínsecas, que muito ainda existe por compreender num fenómeno tão complexo. Como se tudo tivesse corrido como previsto e que, afinal, nada aconteceu.

Podemos ficar chocados com tanto cinismo. Mas o seu único propósito é branquear todos os erros e, principalmente, o sofrimento evitável de tantos profissionais de saúde, de tantas famílias e de tantos doentes. Os resultados atingidos pelo nosso País não foram maus, foram os piores do mundo. Este é o dado objetivo.


Alexandre Lourenço

Dentro deste cenário tremendo, sabemos que muitas das consequências da ação do último ano estão ainda por acontecer. Quando comparamos 2020 com 2019, verificamos uma redução de 170 mil mulheres com rastreio atualizado de cancro da mama, 140 mil para o cancro do colo do útero e 125 mil cidadãos para o cancro do cólon e reto.

Os portugueses perderam milhões de consultas hospitalares e nos centros de saúde, e mais de cento e vinte mil perderam a sua cirurgia. Por paradoxo, corremos o risco de ter o menor número de doentes inscritos para cirurgia por quebra do acesso. Mais uma vez, irão procurar desvalorizar como se esta fosse uma fatalidade. Como se nada pudesse ter sido feito.

Os dados conhecidos sobre mortalidade excessiva para além da covid-19 são assustadores. Os primeiros estudos reportam a abril de 2020. Em junho, várias autoridades alertaram para este problema, que tem sido uma constante mês após mês. Primeiro foi o calor de maio, depois o calor do verão e mais tarde o frio do inverno. Quais são as causas desta mortalidade excessiva? Quais são as medidas para a contrariar? São perguntas que se mantêm sem resposta.

O futuro do Hospital Público ganha-se com um futuro alicerçado na verdade, no reconhecimento de todos que nele trabalham e atendendo às pessoas que dele necessitam. Neste momento, importa priorizar os cuidados a todos aqueles que não cuidámos em tempo útil. Por outro lado, a dedicação extraordinária e a capacidade dos profissionais de saúde merecem a resolução da maioria das questões laborais que se arrastam há anos.

O tempo e os desafios que enfrentamos não são comuns e não podem ser apenas as mesmas soluções do passado que nos preparam para o futuro. Mesmo antes da pandemia, já pedíamos demasiado aos doentes e às suas famílias. 

Iniciemos a discussão partilhada sobre o novo Hospital Público, sem esquecer que a ameaça por covid-19 ainda não está ultrapassada.



O artigo pode ser lido na edição de janeiro/fevereiro do Hospital Público.

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