Opinião

Suicídio e comportamentos autolesivos

Jorge Costa Santos

Professor da FMUL. Presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia

Jorge Costa Santos
Professor da FMUL. Presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia

O XIII Simpósio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), subordinado ao tema “Suicídio e comportamentos autolesivos: da investigação à prevenção”, realizou-se nos dias 11 e 12 de abril p.p., no Campus Universitário do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, no Monte de Caparica, e contou com a colaboração dos Departamentos de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Garcia de Orta (Almada), do Centro Hospitalar de Setúbal, EPE e do Centro Hospitalar do Barreiro-Montijo.

Cabe aqui assinalar que a SPS é uma sociedade científica sem fins lucrativos, que tem por objetivo promover a investigação, a formação, a intervenção e a prevenção de atos suicidas e outros comportamentos autolesivos, pelo que, à semelhança das edições anteriores, não poderia deixar de envolver as forças vivas da região, em particular os profissionais ligados à saúde mental, à Medicina Geral e Familiar e ao serviço social, que aí desenvolvem a sua atividade e, por isso, melhor conhecem a realidade local.

O objetivo desta e de outras iniciativas da SPS é o de contribuir para prevenir o suicídio, que é a principal causa evitável de mortes prematuras, e os comportamentos autolesivos, que constituem fatores de risco destas mortes. Procurámos que o programa fosse diversificado e apelativo, explorando questões que vão do custo do suicídio, em termos sociais e económicos, passando pela investigação nas áreas da Neurobiologia e da Genética e pela diversidade dos comportamentos autodestrutivos em tempos de crise, até à prevenção, com especial enfoque nas populações de maior risco e nos jovens.

Segundo a OMS, suicidam-se diariamente cerca de 3000 pessoas – uma a cada 40 segundos – e, por cada pessoa que se suicida, 20 ou mais cometem tentativas de suicídio (1). O número anual de suicídios ronda, atualmente, o milhão, ou seja, cerca de metade de todas as mortes violentas registadas no mundo, estimando-se que, em 2020, esse número atinja 1,5 milhões (2).

O número de vidas perdidas, anualmente, por suicídio é superior ao conjunto das mortes provocadas pela guerra e pelos homicídios. E estes números não incluem as tentativas de suicídio, que, como atrás se disse, são muito mais frequentes do que o suicídio. Os custos económicos associados ao suicídio são da ordem dos biliões de euros. Eis alguns dos indicadores que justificam amplamente a inclusão do suicídio no leque dos flagelos sociais e dos mais importantes problemas de saúde pública.

À escala mundial, o suicídio apresenta uma taxa de mortalidade global de 16 por 100.000 habitantes, constituindo a 13.ª causa de morte, a 3.ª no grupo etário dos 15 aos 34 anos e a 2.ª nos jovens dos 15 aos 19 anos, enquanto as tentativas de suicídio representam a 6.ª causa de défice funcional permanente. Os dados da OMS indicam que as taxas de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento (3).

Na maioria dos países da Europa, o número anual de suicídios supera o das vítimas de acidentes de viação. Nos 28 países da União Europeia, a taxa média de suicídio por 100.000 habitantes foi, em 2010, de 9,4, enquanto o número de mortes por acidentes de viação foi de 6,5 por 100.000 habitantes, variando as taxas de suicídio entre o máximo de 28,5, na Lituânia, e 2,9, na Grécia.

Em Portugal, o número de suicídios consumados nos últimos cinco anos tem sido sempre superior a 1000 por ano, ou seja, mais do que o conjunto das vítimas mortais de acidentes de viação e de acidentes de trabalho.

Estes dados, assaz preocupantes, ficam, porém, muito aquém da realidade, porquanto o suicídio constitui um fenómeno reconhecidamente subnotificado.

E isto porque, ao contrário das demais, a morte por suicídio é uma morte fortemente estigmatizada, por razões de ordem religiosa, sociocultural e política. Mas também porque a atribuição da etiologia suicida nem sempre é evidente, uma vez que existem muitas mortes de etiologia equívoca, cujo diagnóstico diferencial exige recursos e dispositivos nem sempre disponíveis, o que explica a diversidade dos procedimentos médicos, médico-legais e administrativos adotados em vários países.

Ora, se as estatísticas oficiais não refletem a realidade, há que reconhecer que a verdadeira dimensão do fenómeno é desconhecida. Este é um problema com que, embora em graus diversos, se debate a generalidade dos países, justificando uma especial atenção em qualquer plano nacional de prevenção do suicídio, pois, não é possível prevenir eficazmente aquilo que não se conhece, ou se conhece mal.

Como é sabido, a maioria das pessoas que se suicidam sofre de uma perturbação mental. Estimativas recentes sugerem que o peso das doenças causadas por perturbações mentais será responsável por 25% do peso total das doenças no mundo nas próximas duas décadas, tornando-se a categoria patológica mais importante (mais importante do que o cancro ou as doenças cardiovasculares).

Sabe-se que um número considerável de pessoas com perturbações mentais que se suicidam não procura os serviços de saúde ou os serviços sociais nas semanas que precedem a passagem ao ato suicida, mas a maioria fá-lo. Estes dados sugerem, por um lado, a insuficiência de serviços disponíveis para assegurar a assistência a pessoas em situação de crise e, por outro, alguma dificuldade por parte dos profissionais dos cuidados de saúde primários, sobretudo dos especialistas em Medicina Geral e Familiar, em lidar com doentes deprimidos e avaliar o risco de passagem ao ato suicida.

Daí o facto de o programa do simpósio incluir um workshop sobre “Comportamentos suicidários: abordagem em Medicina Geral e Familiar”, especialmente concebido para estes especialistas. Um workshop dinamizado por psiquiatras experientes, que acabaria por não se realizar por falta de médicos inscritos, ainda que estes tivessem participado no simpósio.

A concluir, resta-nos assinalar que esta edição registou dois eventos de especial significado para a SPS e para a comunidade em geral:
– A atribuição do “Prémio Científico Sociedade Portuguesa de Suicidologia”, um prémio bienal destinado a galardoar o melhor trabalho de investigação científica na área da suicidologia;
– O lançamento do livro Suicídio e Comportamentos Autolesivos: Dos conceitos à prática clínica, escrito e coordenado por associados da SPS e que – estamos certos – irá constituir uma referência bibliográfica incontornável para todos quantos se interessam por esta temática.

Referências:
1. http://www.who.int/mediacentre/events/annual/world_suicide_ prevention_day/en/index.html
2. http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2004/pr61/es/index.html
3. http://www.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevention/en/


Imprimir