Opinião

Terapia larvar nas feridas complexas: «Um método seguro, simples e eficaz»


Ana Almeida

Enfermeira em funções de gestão. Especialista em Enfermagem de Reabilitação. Membro do Grupo de Viabilidade Tecidular da APTFeridas



O Serviço de Cirurgia Vascular (SCV) do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) – Internamento e Hospital de Dia – baseia o tratamento diferenciado a doentes portadores de feridas complexas em terapias convencionais e inovadoras.

Além dos cuidados padrão, são aplicadas técnicas avançadas no tratamento de feridas, tais como: terapia de feridas por pressão negativa (convencional, incisional, ultraportátil e de irrigação), utilização de plasma rico em plaquetas e terapia de desbridamento larvar (LDT).

Atendendo a que o SCV tem ao seu dispor várias terapias, defende que o tratamento de feridas complexas deve ter por base a formação e o treino das equipas; que a abordagem para o tratamento de feridas complexas deve ser multidisciplinar; e que a aplicação de critérios nestas terapias deve ser rigorosa (pelo rigor técnico e pelo seu elevado custo).



Tendo por objetivo a cicatrização da ferida e sendo conhecida a importância do desbridamento na preparação do leito da ferida e no controlo/eliminação das barreiras à cicatrização, torna-se fundamental selecionar o(s) método(s) de desbridamento adequado(s) aos locais de prestação de cuidados.

Globalmente, esta seleção é realizada de acordo com a situação clínica do doente e a avaliação das características da ferida, bem como a experiência da equipa que presta cuidados e do contexto.

Serviço pioneiro em Portugal

O SCV do CHULN iniciou a sua atividade na aplicação do LDT em setembro de 2016, tendo-se tornado o serviço pioneiro em Portugal a utilizar este método de desbridamento. Atualmente, conta com mais de meia centena de doentes que foram submetidos a desbridamento biocirúrgico.

Esta terapia avançada permite o desbridamento seletivo de tecido necrótico e a cicatrização mais rápida de feridas complexas. O LDT no SCV utiliza larvas em 1.º e 2.º estádio de desenvolvimento da mosca Lucilia sericata que se aplicam no leito da ferida em BioBag®, sendo os processos de aplicação e remoção pouco complexos.

A possibilidade de seleção do tamanho do Bio-Bag® permite adequar o número de larvas a usar para cada tratamento.

As enzimas existentes na secreção larvar quebram o tecido necrosado, sem danificar o tecido viável presente no leito da ferida, ingerindo o tecido não viável, liquefeito pela ação das enzimas libertadas.



Esta ação permite a rápida degradação de coágulos, quebra de ligações de fibrina e tecido necrótico. Apesar das propriedades da terapia larvar mais conhecidas serem as capacidades de desbridamento e antimicrobianas, recentemente, foi documentado, nomeadamente, que a secreção larvar apresenta substâncias anti-inflamatórias, atua em sinergia com os antibióticos, tem capacidades imunomodeladoras, pró-angiogénicas e facilita o crescimento dos fibroblastos.

É, portanto, possível afirmar que a terapia larvar atua diretamente sobre as diversas etapas do acrónimo TIME(RS) (T - Tecido não viável; I – Inflamação/Infeção; M – Desequilíbrio do meio húmido; E – Bordos; R – Reparação/Regeneração; S – Social).

A atuação da secreção larvar exclusivamente no tecido inviável torna o risco hemorrágico reduzido. No entanto, existem situações em que é necessária precaução especial, como o caso de feridas tendencialmente hemorrágicas, feridas próximas a vasos sanguíneos e doentes sob anticoagulação. Os doentes têm referido que esta técnica é indolor.


Ana Almeida com duas colegas do Serviço: Sofia Santos e Dalila Coimbra

Reduzir o tempo de cicatrização e o risco de grande amputação

A duração de cada ciclo de terapia larvar é de 3 a 5 dias e a monitorização e o tratamento da ferida devem ser realizados diariamente, para avaliar a viabilidade das larvas e manter o ambiente húmido necessário à sua atividade.

No desbridamento cirúrgico, tratamento standard anteriormente realizado, há um risco acrescido de hemorragia e de descompensação clínica dos doentes, frequentemente com necessidade de suporte transfusional, requerendo a realização deste procedimento no bloco operatório.

Em síntese, o uso de terapia larvar foi determinante na qualidade dos cuidados prestados aos doentes com necessidade de desbridamento. A terapia larvar tem revelado ser um método simples, seguro e eficaz para o tratamento de feridas complexas, podendo evitar o desbridamento cirúrgico e reduzir o tempo de cicatrização; os riscos clínicos associados ao desbridamento cirúrgico; o risco de grande amputação, a necessidade de utilização do bloco operatório; e longos períodos de hospitalização.


Rute Reis (administradora do Departamento Coração e Vasos), Ana Almeida e o diretor do Serviço de Cirurgia Vascular, Luís Mendes Pedro

Terapia com excelente relação custo-efetividade

No SCV do CHULN, o LDT tem demonstrado ser um tratamento adjuvante muito útil em doentes portadores de feridas complexas, associado a procedimentos de revascularização (quando necessário). Esta terapia tem revelado excelente relação custo-efetividade.

O estabelecimento de boas práticas na prevenção e tratamento de feridas demonstra resultados altamente positivos, nomeadamente, redução do número de erros, melhoria dos resultados (nomeadamente, boas taxas de cicatrização), bem como maior previsibilidade dos custos associados.



Artigo publicado na revista Coração e Vasos de janeiro.


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