Verão sem acesso: novas políticas do SNS ameaçam atirar os mais vulneráveis para a exclusão na Saúde
Silvana Ferreira Marques
Enfermeira gestora no SNS (Serviço Nacional de Saúde)
Entrar no período estival com os serviços públicos de saúde sob forte pressão já se tornou, infelizmente, uma rotina nos últimos anos. Contudo, no verão de 2026, a preocupação ganha contornos bastante mais graves. À já habitual redução de equipas motivada pelas férias dos profissionais junta-se um enquadramento legislativo e operacional que, na prática, está a erguer novas barreiras no acesso dos cidadãos aos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e às urgências.
O recente Despacho n.º 3118/2026, de 4 de março, cujos efeitos práticos começaram a sentir-se em pleno mês de junho (decorridos os 90 dias após a sua entrada em vigor), traduz uma orientação política que arrisca estrangular ainda mais a acessibilidade dos utentes.
Num momento em que os centros de saúde deviam reforçar a sua capacidade de resposta para evitar o colapso dos hospitais, assistimos a medidas que dificultam a marcação de consultas, limitam os atos assistenciais e sobrecarregam as equipas de enfermagem e de medicina geral e familiar.
O alerta do relatório da pobreza: a saúde não pode ser um privilégio
Esta perda de acessibilidade aos serviços públicos surge no momento em que os dados sociais do país exigem exatamente o oposto. Segundo o relatório "Pobreza e Exclusão Social em Portugal (Relatório 2025)", publicado pelo Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza, as despesas com a saúde continuam a representar uma fatia pesada no orçamento das famílias de baixos rendimentos, sendo a incapacidade de aceder a cuidados a tempo uma das causas diretas do agravamento das desigualdades sociais.
Quando o SNS falha na resposta atempada, quem tem recursos financeiros recorre ao setor privado. Quem não tem, a maioria dos idosos, doentes crónicos e famílias em situação de vulnerabilidade do nosso país, fica simplesmente desprotegido. Reduzir ou dificultar a acessibilidade pública é, em termos práticos, empurrar milhares de cidadãos para a exclusão na saúde.
O diagnóstico da ERS às Unidades Locais de Saúde
A perceção de quem gere equipas no terreno é inteiramente confirmada pelos dados da Entidade Reguladora da Saúde (ERS). O "Estudo sobre as Unidades Locais de Saúde - 2025" da ERS veio demonstrar a existência de assimetrias profundas no funcionamento das ULS a nível nacional. O relatório evidencia que o volume de consultas realizadas nos CSP e o tempo de espera para atendimento médico e de enfermagem continuam longe de garantir a equidade territorial e a continuidade de cuidados prometidas pelas sucessivas reformas do sistema.
A integração de cuidados nas ULS, que deveria simplificar a vida ao utente, tem servido, por vezes, de pretexto para centralizar serviços e reduzir pontos de contacto nos centros de saúde locais, deixando as populações fora dos grandes centros urbanos desprovidas do acompanhamento básico a que têm direito.
Um apelo em defesa da população
Enquanto enfermeira gestora, o meu compromisso diário é com a qualidade dos cuidados e com a dignidade de quem nos procura. Não podemos aceitar com resignação políticas que tratam a saúde pública com base em critérios estritamente economicistas ou de mera contenção de fluxos, ignorando os determinantes sociais da saúde.
Exige-se uma revisão urgente destas orientações, o reforço efetivo dos recursos humanos nos CSP e uma garantia real de que, neste e nos próximos verões, as portas do SNS continuam abertas para todos sem exceções e sem barreiras injustificadas.
Quando o Estado fecha a porta da saúde pública a quem não pode pagar não está apenas a gerir recursos: está a decretar quem tem e quem não tem direito à vida e aos seus direitos fundamentais.
Fontes consultadas:
- Diário da República (2026). Despacho n.º 3118/2026, de 4 de março. Lisboa: Ministério da Saúde. (Entrada em vigor a 5 de março de 2026 e produção de efeitos a 3 de junho de 2026).
- Entidade Reguladora da Saúde - ERS (2025). Estudo sobre as Unidades Locais de Saúde - 2025: Acesso e Consultas nos Cuidados de Saúde Primários. Porto: ERS.
- Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza (2025). Pobreza e Exclusão Social em Portugal — Relatório 2025. Lisboa: Rede Europeia de Luta Contra a Pobreza (EAPN Portugal) / Observatório Nacional de Luta contra a Pobreza.

O artigo pode ser lido na edição de julho do Jornal Médico.


