“A abordagem paliativa faz parte da boa prática da especialidade de MGF”

Convidado a participar como palestrante nas IX Jornadas Multidisciplinares de MGF, em março de 2027, Manuel Barbosa irá focar-se numa temática que conhece bem, a dos Cuidados Paliativos (CP). Nesta entrevista, o médico de família da ULS de São José realça o papel que os seus colegas de MGF têm nesta matéria.


“O médico de família acompanha a pessoa ao longo do tempo, da pré-conceção ao luto, conhece a sua história, a família, o contexto e aquilo que para ela é importante. Essa visão longitudinal e global torna-se especialmente valiosa quando surge uma doença grave, progressiva ou ameaçadora da vida”, começa por contextualizar Manuel Barbosa, para logo afirmar que “a abordagem paliativa faz parte da boa prática da especialidade de MGF”.

“A linguagem importa!”, exclama o coordenador da Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) Maia/Valongo, sublinhando que as pessoas não “vão para paliativos” nem “passam a ser dos paliativos”. O que acontece é que “têm necessidades paliativas, que variam ao longo da trajetória da doença e apresentam diferentes graus de complexidade. Algumas podem ser respondidas através de uma abordagem paliativa básica ou generalista nos CSP, enquanto outras exigem a intervenção de equipas especializadas em Cuidados Paliativos”.

“O essencial é reconhecer essa variação e construir verdadeiros cuidados partilhados entre as equipas de saúde familiar e de CP”, conclui.

Manuel Barbosa usa a imagem da pirâmide para deixar claro que a três níveis de prestação correspondem outros tantos de formação:

“A abordagem básica deveria integrar todos os cursos pré-graduados da área da saúde, enquanto os profissionais mais expostos a doentes com necessidades paliativas precisam de formação intermédia, se possível prática, nomeadamente nos internatos de MGF, Medicina Interna e Oncologia Médica. As equipas específicas de CP devem ter formação avançada.”

No entanto, “não adianta termos um topo excelente, o que, infelizmente, é cada vez menos o caso de Portugal, se a base for frágil, sendo aqui que reside grande parte do potencial da MGF para aliviar sofrimento”.

A resposta às necessidades paliativas, porém, “não se esgota nesta pirâmide clínica”, alerta Manuel Barbosa, destacando, nomeadamente, a figura do cuidador informal, mas não se esquecendo de referir a comunidade e a sociedade em geral. Adverte, contudo, que “sem literacia e sem uma conversa mais natural sobre doença grave, dependência, morte e luto continuaremos a perpetuar mitos e a procurar respostas demasiado tarde”.


Manuel Barbosa
 

A intervenção fulcral da MGF

 

Manuel Barbosa deixa um apelo: “Precisamos de mudar a forma como falamos de Cuidados Paliativos. Continuam demasiado associados aos últimos dias de vida, à doença oncológica, à desistência ou à morfina.” Defende que sejam vistos “pela positiva, como cuidados ativos, globais e coordenados, orientados para o alívio do sofrimento e para a qualidade de vida da pessoa e da família, começando cedo e coexistindo com tratamentos dirigidos à doença”.

A intervenção da MGF é fulcral: “Em vez de esperar pelo momento em que alguém possa ser considerado ‘terminal’, importa perceber que necessidades existem, que sofrimento está presente, o que é previsível acontecer nas semanas ou meses seguintes e que decisões vale a pena preparar. As trajetórias de doença e os instrumentos de identificação precoce ajudam, mas nenhum destes substitui o conhecimento clínico e longitudinal que o médico de família tem daquela pessoa.”

Há algo que o nosso entrevistado considera central: “Referenciar não é entregar o doente, é alargar a equipa que cuida dele.” Por isso, “quando surgem sintomas de difícil controlo, sofrimento psicológico, social ou espiritual complexo, instabilidade clínica, conflitos na tomada de decisão ou grande sobrecarga do cuidador, a equipa especializada deve conseguir intervir atempadamente, tendo o médico de família um papel importante, precisamente pela continuidade da relação e pelo conhecimento da pessoa e da família”.

Para Manuel Barbosa, muito do que os CP exigem está no núcleo da especialidade de MGF: “Cuidar da pessoa inteira, comunicar, acompanhar a família, trabalhar com incerteza, antecipar e decidir em função dos objetivos daquela pessoa. Há depois necessidade de formação, tempo, condições e acesso célere a apoio especializado quando a complexidade aumenta”.

“Em CP, criar pontes é mais importante do que criar territórios. A qualidade depende menos de discutir a quem ‘pertence’ o doente e mais de garantir continuidade e resposta adequada em cada momento”, observa.


A entrevista completa a Manuel Barbosa pode ser lida no Jornal Médico de outubro 2026.

 

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