Aterosclerose: cardiologista investiga na Suécia como «distinguir doentes com placas vulneráveis»

Para Isabel Gonçalves, professora e cardiologista do Hospital Universitário de Skåne, na Suécia, não há qualquer dúvida que a aterosclerose “é uma doença mais frequente do que se pensa e uma das maiores causas de mortalidade e morbilidade no mundo, que pode levar a complicações como o AVC e o enfarte”. É sobre esta patologia que vai incidir a sua apresentação no XII Congresso Novas Fronteiras em Medicina Cardiovascular, que irá realizar-se entre os dias 11 e 13 de fevereiro.

Apesar de evidenciar não existirem ainda muitos estudos realizados em pessoas que não apresentam manifestação da doença, Isabel Gonçalves refere, a título de exemplo, o interesse do estudo Swedish CArdioPulmonary bioImage Study (SCAPIS). Esta investigação, realizada por seis universidades suecas, recrutou aleatoriamente 30 mil pessoas de meia-idade, entre os 50 e os 64 anos, e demonstrou, recorrendo à tomografia axial computorizada do coração, que “quatro em cada dez apresentavam aterosclerose nas suas coronárias”.

Além de ser uma doença “mais frequente do que se pensa”, na sua ótica, esta realidade é tanto mais preocupante na medida em que “está, muitas vezes, associada a pessoas que têm a doença várias décadas antes de chegarem às unidades de saúde com eventos isquémicos, onde são diagnosticadas, ou morrerem subitamente.

“Este cenário está de acordo com o que nós mostrámos num estudo em que quantificámos o átomo carbono 14 em placas de aterosclerose humanas já há 10 anos”, refere, considerando que “de futuro, é preciso agir mais cedo e rapidamente”.

Admitindo que, apesar de muitos terem a doença, só alguns vão sofrer enfartes, AVC’s ou doenças isquémicas, a cardiologista do Hospital Universitário de Skåne, na Suécia, destaca que, “além do maior investimento que tem de ser feito em estratégias de prevenção, é preciso encontrar métodos que possibilitem distinguir doentes com placas vulneráveis, que apresentam um grande risco de sofrer erosões ou ruturas, daqueles cujas placas vão estar em silêncio toda a vida”.

Desta forma, “conseguiríamos prever quem necessitaria de monitorização ou suporte terapêutico, antes de sofrer o evento clínico”.


Isabel Gonçalves

No biobanco que fundou, Isabel Gonçalves realça estar a ser feita investigação em duas perspetivas: “Por um lado, procurando identificar novos biomarcadores da doença e, por outro, adotando novos métodos de imagem, recorrendo à tomografia axial computorizada e à ecografia.”

Além deste esforço colocado no diagnóstico, a equipa de investigação deste biobanco tem investido nos mecanismos da doença, como a inflamação e a apoptose, pois “se conseguirmos identificar que o funcionamento de determinada enzima está condicionado, podemos introduzir moléculas específicas que afetem toda a cadeia de reações químicas, modulando a evolução da doença”. Desta forma, os mecanismos seriam usados “quer como biomarcadores, quer como alvos terapêuticos”.

A professora de Cardiologia nota que, recentemente, a importância da inflamação como alvo terapêutico na aterosclerose foi reconhecida, entre outros, com o estudo CANTOS. No entanto, alerta que “estes mecanismos não são lineares”.

Neste âmbito, a clínica e investigadora alerta para o facto de a inibição da inflamação gerar múltiplas infeções como efeito secundário, sendo prioritário “garantir este processo de inibição sem prejudicar a imunidade”. É precisamente sobre este tópico específico que recairá parte da sua apresentação, dado ter realizado alguns estudos que mostram ser “promissores” neste sentido.

A ligação da ciência básica com a componente clínica

Tendo partido para a Suécia em 2002, quando terminou o internato de formação geral, com o objetivo de realizar o doutoramento nesta área da aterosclerose, a verdade é que já se contam duas décadas de trabalho de clínica, docência e investigação de Isabel Gonçalves em Malmö e Lund.

Enquanto se especializava em Cardiologia no Hospital Universitário de Skåne, fundou, em 2005, um dos maiores laboratórios translacionais que recorrem a material biológico humano. “Neste biobanco, nós acompanhamos os doentes ao longo da sua vida e conseguimos extrair as células das suas placas, recorrendo a tecnologias muito avançadas, de genética, sequenciamento de nova geração ou célula única, acompanhando o estado da arte”, sublinha.

Para si, esta experiência é verdadeiramente “exótica, porque coloca de lado os modelos animais, recorrendo, sim, a material de humanos, podendo ainda acompanhá-los clinicamente!”.

Também “verdadeiramente entusiasmante” é, do seu ponto de vista, a “ligação da ciência básica com a componente clínica, bem como o crescimento do grupo de investigação, que hoje reúne 15 pessoas de todo o mundo, com os mais diversos backgrounds, que procuram estudar minuciosamente esta patologia tão complexa e prevalente”.



Revisitar grandes temas e trocar experiências

A sessão apresentada por Isabel Gonçalves, “Novas perspetivas em aterosclerose”, será apenas uma das que preencherá o programa da 12.ª edição do Congresso Novas Fronteiras em Medicina Cardiovascular, que debaterá temas como a imagem na gestão da doença valvular cardíaca, os cuidados paliativos na insuficiência cardíaca, a hipertensão pulmonar, o programa STOP-HF-CLINIC ou o estudo Coroprevention. A liderança, a vacinação covid, a dissecção aórtica ou o tratamento endovascular da aorta torácica serão outros dos temas tratados.

Fausto Pinto, presidente desta reunião e diretor do Departamento de Coração e Vasos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, realça que o objetivo deste encontro é, simultaneamente, “fazer uma revisão sobre os principais temas da área cardiovascular, apresentar projetos desenvolvidos no âmbito do departamento que dirige, e trocar experiências entre colegas”.


Fausto Pinto

A entrega dos prémios AIDFM-CETERA, que já vem marcando as últimas edições, será um dos momentos altos desta reunião. Prosseguindo a senda da anterior edição, também esta será realizada de forma digital, prevendo-se uma afluência de 1000 participantes.

 

 

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