«A falta de dermatologistas no SNS começa a pôr em causa a formação de novos especialistas»

“Existem cerca de 450 dermatologistas em Portugal, embora só cerca de 1/3 destes exerça a especialidade no Sistema Nacional de Saúde (SNS)”. As palavras de Manuela Selores, presidente do Colégio da Especialidade de Dermatologia e Venereologia da Ordem dos Médicos, surgem no âmbito do XXIX Fórum de Dermatologia.



O evento, que decorreu nos dias 25 e 26 de novembro, no Porto, suscitou, como é tradição, um grande interesse e adesão de participantes. A organização desta reunião está a cargo do Serviço de Dermatologia do Centro Hospitalar e Universitário do Porto (CHUP), dirigido por Manuela Selores.


Numa entrevista publicada no jornal que foi distribuído no evento, a professora associada convidada de Dermatologia do Mestrado Integrado de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), que coordena a Rede de Referenciação Hospitalar de Dermatologia, afirmou que “a falta de dermatologistas no SNS começa a pôr em causa a formação de novos especialistas”.



Na perspetiva de Manuela Selores, “o SNS é uma Escola e se os recentes especialistas decidem exercer exclusivamente no setor privado nas condições atuais, perdem, a médio prazo, o contacto com os meios académico e hospitalar e, consequentemente, também com o trabalho em equipa e a interdisciplinaridade, características necessárias de uma atividade assistencial de qualidade”.

Questionada sobre as consequências desta realidade, a médica referiu que “torna cada vez mais difícil o acesso da população a esta especialidade em tempo útil (marcação de consultas de Dermatologia e referenciação de patologia dermatológica aguda urgente) e também começa a pôr em causa a formação de novos especialistas”.



De acordo com Manuela Selores, esses efeitos já se começam a sentir nalguns serviços. “Ao ficarem desfalcados de especialistas seniores e perdendo-se a diferenciação entre os especialistas, a formação vai ressentir-se”, acrescentou.

Relativamente à distribuição dos especialistas pelo país, a presidente do Colégio da Especialidade de Dermatologia e Venereologia da OM, apontou que “existe uma assimetria muito grande entre o Litoral e o Interior”.

Segundo a médica, a modalidade encontrada para colmatar esta desigualdade - “a abertura de vagas avulsa em que os médicos trabalham sozinhos e muitas vezes sem condições técnicas de desenvolver uma atividade adequada às necessidades das populações leva a que os jovens especialistas não optem por ocupá-las” - não tem sortido efeito.



Na sua opinião, para combater esta situação, em primeiro lugar, é necessário conhecer rigorosamente as condições atuais do exercício da Dermatologia, quer quanto a recursos humanos, quer relativamente à capacidade técnica instalada. Este trabalho está a ser elaborado pelo grupo da Rede de Referenciação Hospitalar de Dermatologia e “é fundamental para poder planear a forma como a Dermatologia se deve organizar no futuro”.

Além da oncologia cutânea, no XXIX Fórum de Dermatologia discutiu-se o envelhecimento cutâneo, o eritema facial e alopecia areata, os nevos, os eczemas, a acne em idade pediátrica e a hidradenite supurativa.

De destacar que, como tem ocorrido nas edições anteriores, realizou-se uma sessão interativa com os internos do CHUP e os internos de uma unidade de saúde familiar (USF) em representação dos Cuidados de Saúde Primários. Este ano, a convidada foi a USF Garcia de Orta, do Porto, com a qual o Serviço tem estabelecido contacto nos últimos anos, que foi reforçado com as consultas de teledermatologia, que se realizam desde 2014.


Inês Lobo, Manuela Selores e Susana Machado.

O evento, que contou com cerca de 600 inscritos, foi presidido por Manuela Selores e contou com o especial apoio das dermatologistas Susana Machado e Inês Lobo, elementos do Serviço de Dermatologia do CHUP.

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