“A Medicina Interna e a Geriatria têm uma complementaridade real”

A poucos dias da realização da 9.ª Reunião do NEGERMI, que acontece a 30 e 31 de outubro, a sua coordenadora, Rafaela Veríssimo, diz querer “aproximar mais os internistas da Geriatria”.



Rafaela Veríssimo defende que, “no contexto do envelhecimento populacional a que assistimos, é mesmo preciso que todos os internistas saibam um pouco de Geriatria e utilizem os instrumentos que esta possui para tratar melhor os doentes mais velhos. Mesmo que nunca venham a interessar-se especialmente por esta área”.

A atual coordenadora do NEGERMI - Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que tem a competência em Geriatria desde 2018 e integra a atual Direção do respetivo Colégio da Ordem dos Médicos, considera que “a MI e a Geriatria têm uma complementaridade real”. E justifica:

“A MI aborda o doente agudo mais velho no internamento com a sua capacidade de intervenção rápida e a Geriatria preocupa-se com os outros problemas que aquele tem e que impactam na sua doença. Que têm a ver com a sua fragilidade, com o número de comorbilidades que apresenta, com a própria preservação da sua autonomia e com as síndromes geriátricas que acompanham as doenças do envelhecimento.”

“É esta complementaridade que nós precisamos de promover nos serviços de Medicina Interna, para que também a visão do sistema possa mudar em termos da abordagem prática de ver estes doentes, procurando dar-lhes mais qualidade de vida após o internamento”, sublinha a médica.

O interesse de Rafaela Veríssimo pela Geriatria levou-a a fazer um estágio nesta área no Hospital Universitário Ramón Y Cajal, em Madrid, quando estava no último ano do internato de MI, em 2014. Deu-se a circunstância de logo no ano seguinte ter sido criada no então CH de Vila Nova de Gaia/Espinho a primeira Unidade de Geriatria no país, com a valência de Ortogeriatria, a que se mantém ligada desde então e que passou a coordenar em 2017.

“Tenho tido, assim, a oportunidade de conseguir promover as boas práticas de Geriatria em enfermaria de MI, sendo sempre uma mais-valia poder implementar aquilo que se aprendeu fazendo parte de uma equipa formada por elementos que estão predispostos a isso e obtendo resultados bastante bons”, comenta.

A coordenadora do NEGERMI confirma que o número de pessoas com interesse pela Geriatria tem vindo a aumentar, adiantando: “O que queremos agora no Núcleo de Geriatria é criar pontos de ligação com colegas de diferentes ULS que já têm a competência pela Ordem dos Médicos ou alguma formação na área e, dessa forma, conseguir que as boas práticas em Geriatria sejam aplicadas nos diferentes serviços de MI.”


Rafaela Veríssimo


“A evolução tem sido lenta” no que respeita ao número de internistas interessados pela Geriatria

 
Rafaela Veríssimo reconhece que “a evolução tem sido lenta” no que respeita ao número de internistas interessados pela Geriatria: “Não aconteceu como era expectável, na linha do que se vem observando no resto da Europa. Apesar da motivação e da sensibilidade demonstradas por inúmeros colegas para esta área, a par do envelhecimento da população e do surgimento de tantos problemas a ele associados, seria de esperar que houvesse mais médicos de MI a querer fazer formação neste campo.”

Lembrando que Portugal e a Grécia são os únicos dois países da Europa onde a Geriatria não é reconhecida como especialidade, a nossa entrevistada diz haver várias razões para a situação que descreveu, destacando desde logo um motivo forte:

“O problema é que ainda falta formação estruturada e organizada em Geriatria nos serviços de MI, bem como a criação de unidades mais dedicadas. Esta evolução tem sido condicionada por diferentes fatores, entre os quais a necessidade de uma maior sensibilização e de um apoio institucional mais consistente para esta área.”

“Nesta matéria, precisávamos de uma consistência nacional que não temos. Atualmente, há muitos profissionais no norte do país e também na zona de Lisboa dedicados à Geriatria há vários anos, cujo conhecimento e experiência poderiam ser ainda mais valorizados pelas instituições onde trabalham. Nomeadamente através da criação de condições para desenvolver projetos que, em estreita articulação com a MI, possam fazer a diferença na qualidade dos cuidados prestados às pessoas mais velhas”, afirma Rafaela Veríssimo, mostrando-se, apesar de tudo, algo otimista relativamente ao futuro:

“Nos últimos três ou quatro anos, com o avançar das políticas em saúde viradas para o envelhecimento saudável, parece haver agora um maior interesse institucional e político por esta área. Pelo que, enquanto Núcleo de Estudos de Geriatria da SPMI, isso faz-nos refletir que podemos e devemos ter alguma intervenção na redação de propostas técnicas que se enquadrem nessa estratégia.”

“Os colegas de MGF têm sido uns bons aliados”

 
A coordenadora do NEGERMI reconhece o interesse crescente de internos e especialistas de Medicina Geral e Familiar pela área, revelando-se “uns bons aliados na procura de sistemas de organização da Geriatria em Portugal”. E sublinha que “o cuidado ao idoso, desde a prevenção ao tratamento, é transversal a muitas especialidades, sendo que os colegas dos CSP são normalmente os primeiros a confrontarem-se com os problemas das pessoas mais velhas. Muitos deles têm feito formação connosco e acabaram por obter também a competência em Geriatria realizando estágios em unidades da MI com idoneidade para tal”.

Rafaela Veríssimo deixa, no entanto, claro que “a Medicina Interna terá naturalmente um papel particularmente relevante na abordagem hospitalar do doente complexo mais velho, cabendo-nos também uma importante responsabilidade na promoção de modelos organizativos que articulem os diferentes níveis de cuidados e reforcem, por exemplo, as consultas de Geriatria”.

A internista também confirma haver “um interesse crescente da generalidade das especialidades médicas e cirúrgicas hospitalares em tratar bem a pessoa mais velha, frequentemente em ligação com a Medicina Interna e muitas vezes de forma multidisciplinar”.



Esta entrevista foi originalmente publicada no
Jornal Médico de outubro de 2026.


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