«É preciso que as consultas de cessação tabágica estejam disponíveis em horário pós-laboral»

“A DPOC é uma doença subdiagnosticada e sem cura. Afetando maioritariamente os fumadores, os seus sintomas iniciais são desvalorizados pelos próprios doentes e também pelos médicos”, afirma Isabel Saraiva, presidente da RESPIRA – Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas, que defende uma maior aposta no diagnóstico precoce e na prevenção de uma patologia que tem um forte impacto na qualidade de vida.

A responsável da RESPIRA, também ela com DPOC, alerta para a necessidade de não se desvalorizarem determinados sintomas: “Há quem esteja anos a queixar-se de tosse e de cansaço sem ter acesso a uma espirometria. Note-se que um diagnóstico precoce permite que o doente possa iniciar o tratamento adequado o quanto antes, de modo a que o impacto nas tarefas do dia-a-dia seja minimizado.”

Após o diagnóstico, além da medicação, é preciso investir em programas de reabilitação respiratória. “São escassos, apesar de serem essenciais. Portugal tem de olhar para esta área com mais atenção, porque a reabilitação faz toda a diferença na vida das pessoas com DPOC”, sublinha Isabel Saraiva.

Existindo poucos centros com programas de reabilitação respiratória, quem tem acesso aos mesmos enfrenta, nomeadamente, o obstáculo da distância: “Não é fácil para um doente de DPOC fazer grandes deslocações 2 ou 3 vezes por semana. Há mesmo quem não complete os programas, com todas as consequências para a sua qualidade de vida que daí advêm.” 


Isabel Saraiva

Portugal deve, assim, apostar em programas em unidades de proximidade, formando para tal mais profissionais ligados à área da saúde respiratória – médicos, enfermeiros e técnicos. “Infelizmente, ainda não se dá a devida relevância à saúde respiratória. Portugal, mesmo tendo um Programa Nacional para as Doenças Respiratórias, precisa de fazer muito mais”, sublinha.

Isabel Saraiva considera que “a área respiratória em geral é pouco tratada, pouco reconhecida”. Um problema que não é exclusivo de Portugal: “Tenho debatido esta matéria em vários fóruns e reuniões, a nível nacional e internacional, e não se encontra uma razão para esta falta de interesse em todos os países europeus.”

Cessação tabágica em horário pós-laboral

Outro ponto que considera essencial, “e um dos mais importantes”, é a prevenção e para isso muito conta a cessação tabágica, ou não fosse o tabagismo o principal fator de risco da DPOC: “É preciso que os cuidados de saúde primários se organizem para que as consultas de cessação tabágica estejam disponíveis em horários compatíveis com as vidas profissionais das pessoas. As consultas em horário póslaboral são muito importantes.”

Continuando: “Não podem ser ao meio-dia ou às 14h... As pessoas não têm possibilidade de se ausentarem do emprego para recorrerem a este tipo de apoio Se não se adequarem os horários obviamente que ninguém vai procurar ajuda para deixar de fumar e a sua capacidade respiratória vai diminuindo, com todas as consequências daí decorrentes e que não se cingem apenas à DPOC...”

O problema agudiza-se ainda mais quando a qualidade do ar, interior e exterior, não é a mais adequada: “A RESPIRA tem dado muita atenção a este problema ambiental porque a DPOC e outras doenças respiratórias não são consequência apenas do tabagismo. Aliás, até quem não fuma pode vir a ter problemas graves por causa da qualidade do ar no ambiente de trabalho: cabeleireiros, trabalho com metais, construção civil... E existe, inevitavelmente, a questão da poluição atmosférica, sobretudo nas grandes cidades.”

 Movimento Doentes Pela Vacinação “Não vamos parar"

Ainda no âmbito da prevenção, a RESPIRA tem alertado para a importância da vacinação, através do MOVA – Movimento Doentes Pela Vacinação, fundado há pouco mais de dois anos pela RESPIRA, com o apoio da Fundação Portuguesa do Pulmão e do GRESP – Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias da APMGF.

“O principal objetivo é a sensibilização da população, dos profissionais de saúde e dos decisores políticos para a importância da vacinação na idade adulta, quer na gripe como na pneumonia”, esclarece Isabel Saraiva.



O acesso à informação é o primeiro passo para uma boa prevenção. “As pessoas estão pouco informadas porque mesmo com a vacina gratuita (em determinadas condições) para a pneumonia e a gripe – esta última apenas desde este ano –, nem todos têm consciência da necessidade da vacinação”, explica.

Na sua opinião, cabe assim “aos profissionais de saúde a tarefa de informar e de perguntar se os seus utentes estão vacinados, relembrando as vantagens da imunização, nomeadamente em grupos de risco”.

Prevenção e diagnóstico precoce têm sido assim duas pedras angulares para a RESPIRA ao longo dos seus 13 anos de existência. Fazendo um balanço da atividade da associação, Isabel Saraiva garante que “muito tem sido feito”: “A situação atual, não sendo excelente, é francamente melhor do que quando se fundou a RESPIRA.

Estamos convictos, e temos, de facto, provas disso, de que o nosso trabalho e esforço tem contribuído para que se dê mais atenção às doenças respiratórias.” E garante: “Não vamos parar.”




A entrevista completa pode ser lida na edição de junho do Jornal Médico dos cuidados de saúde primáriosPublicação distribuída todos os meses a profissionais de todas as unidades de cuidados de saúde primários do SNS.

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