Acesso à prática rigorosa dos cuidados paliativos é assimétrico em todo o mundo

“A filosofia dos cuidados paliativos está largamente difundida e considera-se um direito da Humanidade. Contudo, o acesso à prática rigorosa dos mesmos é ainda bastante assimétrico em todo o mundo, incluindo Portugal.” O alerta é de Elga René Freire, internista do Hospital de Santo António (CHP).

“O aumento da esperança de vida associa-se a um número progressivamente maior de doentes que não se curam”, menciona, acrescentando que “o movimento moderno dos cuidados paliativos, iniciado em Inglaterra, na década de 60, por Cicely Saunders, alerta para o sofrimento dos doentes incuráveis, a falta de respostas dos serviços de saúde e a necessidade de cuidados específicos”.

De acordo com a internista, em 2002, a OMS definiu os cuidados paliativos como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida dos doentes que enfrentam problemas decorrentes de uma doença incurável, com prognóstico limitado, e/ou doença grave que ameaça a vida, e suas famílias, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce, avaliação adequada e tratamento rigoroso dos problemas físicos, como a dor, e dos psicossociais e espirituais.

A especialista adianta que estes cuidados associam-se, habitualmente, ao cancro avançado, mas também se destinam aos outros doentes crónicos com SIDA terminal, insuficiências avançadas de órgão (cardíaca, respiratória, hepática e renal), doenças neurológicas degenerativas e demências em estádio avançado.

“Não são uma intervenção apenas em fim de vida, mas uma intervenção estruturada e rigorosa, nas doenças crónicas, sempre que associadas a grande sofrimento, podendo estar presentes desde o diagnóstico, adquirindo uma importância cada vez maior, conforme a evolução e as necessidades dos doentes”, observa.

“Dada a progressiva complexidade dos cuidados e a menor disponibilidade das famílias, cada vez mais se morre em ambiente hospitalar.”

Segundo refere, no ano de 2010, 62% das mortes em Portugal ocorreram em hospitais/clínicas e 30% em casa/lar. “Estes dados contrastam com o estudo de Bárbara Gomes e colaboradores, que concluiu que 87% dos portugueses preferem morrer em casa própria ou de familiar/amigo ou numa unidade de cuidados paliativos.”

“A Rede Nacional de Cuidados Paliativos (Lei n.º 52/2012) abrange desde o domicílio a unidades de internamento (específicas e em hospitais de agudos) e instituições de longa duração. A sua implementação está ainda longe de cobrir as necessidades“, comenta.

Para Elga René Freire, “é urgente melhorar a resposta intra-hospitalar e a articulação com a comunidade, mas é prioritário o desenvolvimento dos cuidados paliativos domiciliários, sem os quais não será possível melhorar a qualidade do final de vida, de acordo com as preferências dos cidadãos”.


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