«Arte Bruta Inclusiva» ajuda na reabilitação de pessoas com doença mental grave

Pintura, costura ou restauração de móveis são algumas das atividades do novo espaço OficINa – Arte Bruta Inclusiva do Hospital Distrital de Santarém (HDS), inaugurado há dias.

O objetivo é apostar na reabilitação de pessoas com doença mental grave, através das suas capacidades artísticas, sendo também “a oportunidade de saírem de casa e de interagirem uns com os outros”, explicou Carla Ferreira, enfermeira especialista em Saúde Mental e coordenadora do projeto.


Carla Ferreira

A ideia começou por surgir em 2016 com o projeto INcluir, que consistia em reunir utentes e artistas da comunidade em oficinas de arte, que decorriam no Convento de S. Francisco ou noutros locais de Santarém. Mas, sendo importante ter um local fixo, foi criada a Associação r.INseRIR, que envolve profissionais do Serviço de Psiquiatria do HDS, que pôde candidatar-se a programas de financiamento.

Foi assim que surgiu o novo espaço com o apoio do Prémio Fidelidade Comunidade e do Prémio BPI “la Caixa” Capacitar.“ O objetivo é reintegrar os utentes na comunidade e combater o estigma que ainda existe em torno da doença mental”, indica Carla Ferreira, em declarações à Just News.



"Criar com total liberdade”

Na nova oficina é possível disponibilizar aos doentes e aos artistas da região um espaço de “arte bruta inclusiva, onde podem criar com total liberdade”, como explicou Carla Ferreira. “Vão poder trabalhar de uma forma autónoma e de um modo descontraído, mostrando o seu talento.”

Continuando: “Estas iniciativas são fundamentais, principalmente por ajudarem a melhorar a qualidade de vida, diminuindo sintomas como a ansiedade, que se pode manifestar concomitantemente em patologias graves.”



Outra vertente não menos relevante é a socioprofissional, estando disponível um subsídio para cinco pessoas, além de 60% das vendas reverterem a favor dos autores.

Ainda na sequência do financiamento recebido, no espaço vai investir-se também no projeto RehaCom, um programa de reabilitação cognitiva, reconhecido a nível europeu e que ajuda a diminuir o impacto da doença a nível da memória e da concentração. No total poderão participar 35 utentes em duas a três sessões semanais que decorrem, pelo menos, num período de 6 meses.

"É possível ser-se feliz, apesar das dificuldades"

Na oficina inaugurada, ontem, já se podiam admirar várias obras de arte, tais como quadros, aguarelas, antigos móveis do HDS que foram restaurados ou trabalhos de costura. Num ambiente cheio de cor, onde não falta a luz natural vinda das janelas, tudo tem o cunho pessoal de algum utente artista, não tendo sido sequer esquecida a casa-de-banho.


O orgulho é bem visível nos olhos dos vários profissionais, sobretudo de Paula Pinheiro, que além de estar à frente da Associação r.INseRIR, é a diretora do Serviço de Psiquiatria.


Paula Pinheiro

“O tratamento, sobretudo na patologia mental grave, não se pode cingir apenas à farmacologia, consulta e internamento. É essencial que haja espaços e equipamentos que permitam a reabilitação e a reintegração na comunidade”, disse a responsável.

“Procuramos que a patologia mental não seja demasiado limitativa, mostrando com estas iniciativas que é possível ser-se feliz, apesar das dificuldades inerentes à sua condição de saúde”, acrescenta Paula Pinheiro.



A arte: uma "ferramenta terapêutica" contra o estigma

O mesmo pensa Nazaré Matos, diretora do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do HDS, que integra os serviços de Psiquiatria e de Psiquiatria da Infância e Adolescência. Como pedopsiquiatra, espera que também, no futuro, se possa investir em iniciativas deste tipo com os mais pequenos.

Segundo a especialista, “a medicação é importante, mas não podemos esquecer o convívio, as relações interpares, como forma de favorecer a reinserção social.”


Nazare Matos, Ana infante, Carla Ferreira, Paula Pinheiro

A nova oficina apenas foi possível por a r.INseRIR ter recebido o Prémio Fidelidade Comunidade no valor de 47500 euros e a dinamização dos projetos de reabilitação psicossocial contam com 28670 euros do Prémio BPI “la Caixa” Capacitar.

Agradecendo o apoio, Ana Infante, presidente do Conselho de Administração do HDS, salientou que a dinamização destas iniciativas envolve “a arte como ferramenta terapêutica”, o que é um contributo importante na luta contra o estigma. “A criatividade e o empenho vai permitir olhar o futuro com real esperança.”

Concluindo: “A libertação da mente, do saber-fazer, da aprendizagem e da partilha serão momentos de vida vivida.”



Presentes na inauguração estiveram ainda a decoradora Ana Carvalho, que falou da sua experiência e de como “aprendeu muito” com os utentes, o presidente da Câmara Municipal de Santarém, Ricardo Gonçalves, e representantes da Fidelidade, do BPI, além de alguns profissionais do Hospital.




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