Doenças respiratórias: ACES Porto Oriental reduz idas às urgências e «liberta o cidadão doente»

Para a diretora executiva do ACES Porto Oriental, não há qualquer dúvida: "A chave do sucesso do projeto CAI _VENT é conseguir, realmente, uma integração plena e total, trabalhando em equipa, discutindo as dificuldades em conjunto."

Em declarações à Just News, Dulce Pinto destaca que “tem sido determinante a extraordinária colaboração dos profissionais de saúde do Hospital de São João, que se constituíram, de facto, como nossos parceiros”.

A responsável recorda que o envolvimento do seu ACES no Centro de Apoio Integrado ao Doente com Ventilação Mecânica Prolongada (CAI_VENT) surge ao abrigo de uma estratégia de governação integrada do Porto Oriental lançada em 2014 e que abrange essencialmente processos de integração de cuidados com o Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ).


Dulce Pinto

“O desafio foi lançado às equipas das nossas duas unidades de cuidados na comunidade - UCC (Paranhos e Campanhã), que o encararam inicialmente com algumas reservas, por se tratar de uma área muito específica em termos técnicos e relacionalmente exigente, pelo próprio perfil dos utentes. Na sua grande maioria, são altamente dependentes e com muitas necessidades por satisfazer”, refere a responsável, acrescentando:

“Nós não estamos preparados para prestar cuidados intensivos em regime domiciliário. Temos uma estrutura muitíssimo flexível, um conjunto de profissionais altamente competentes, mas sem capacidade para cuidar 24 sobre 24 horas. Era este o receio das equipas.”

No entanto, “sabíamos que, se fossemos rigorosos na aplicação dos critérios de inclusão dos doentes neste programa e se tivéssemos uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, poderíamos alcançar resultados em saúde, diminuir os dias de internamento evitáveis e melhorar as condições de vida destes utentes”.


Os enfermeiros Carlos Ferreira e Ana Isabel Pereira com Dulce Pinto, Miguel Azevedo, Cândida Maciel e Cecília Mota Abreu

Dulce Pinto é clara ao afirmar que “num processo de integração de cuidados não há portas” e que “em cada momento, para cada doente, é definido um percurso, o qual pode implicar mais incremento dos CSP ou dos cuidados hospitalares”.

Com uma garantia: “A qualquer momento do contínuo de prestação de cuidados, todos estão presentes.” “Não há aqui níveis distintos”, frisa a diretora executiva do ACES Porto Oriental. “Não há aquela velha perceção de que o hospital despeja os casos complicados para os CSP e depois os CSP são uma espécie de porta dos fundos do sistema.”

Desenvolvido pelos enfermeiros das UCC Paranhos e Campanhã em trabalho extraordinário, “para não prejudicar os outros projetos que já temos”, o CAI_VENT está prestes a terminar, um ano depois, a sua fase de piloto. Será então a altura de se fazer a avaliação do mesmo, lembrando Dulce Pinto que “um doente destes, ocupando uma cama de uma unidade de cuidados intensivos, custa dez vezes mais e com muito menos resultados”.


Dulce Pinto, Miguel Azevedo e Cândida Maciel

O presidente do Conselho Clínico e de Saúde do ACES Porto Oriental, que acompanhou, com a presidente da Direção de Enfermagem, Cândida Maciel, as declarações de Dulce Pinto à Just News, confirma “a preocupação com a mensuração daquilo que fazemos”. Mas sublinha que, “embora sendo aspetos valiosíssimos, a utilidade desta intervenção não se esgota na redução dos internamentos ou das idas às urgências”.

“Estamos a falar da libertação do cidadão doente, que passa a ser um cidadão funcional, com uma maior capacidade de interação. Isso também leva a uma certa liberdade do seu cuidador, devolvendo-o à sociedade e, nalguns casos, podendo até regressar ao mundo do trabalho. Temos aqui um ciclo completo de ganhos que extravasam muito para além da saúde”, afirma Miguel Azevedo.

“Transmite muita confiança tanto aos cuidadores como aos utentes”

Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Cecília Mota Abreu, 46 anos, considera ser “uma mais-valia este trabalho de equipa” que envolve os profissionais dos CSP e do hospital e as próprias empresas que dão apoio aos utentes que necessitam de ventilação mecânica prolongada.

Embora a grande maioria dos doentes venha encaminhada do CHUSJ, a verdade é que alguns casos são referenciados pela comunidade e por aquelas empresas. Mas também o podem ser pelos médicos e pelos enfermeiros de família.

“São utentes que fazem mais de 12 horas de ventilação não invasiva, ou que têm muitas recidivas, bastantes agudizações, que vão frequentemente ao hospital, que não têm os sintomas controlados”, esclarece Cecília Mota Abreu.


Cecília Mota Abreu

“Nós fazemos visitas em conjunto e mensalmente reunimos para falar sobre cada um dos casos e ver quais as necessidades que existem”, diz a enfermeira. A situação mais frequente é “não haver uma boa adaptação” dos doentes ao facto de deixarem de ter assistência 24 horas por dia: “Quando vêm para casa, sentem-se um pouco perdidos, ansiosos...”

“Temos o cuidado de fazer visitas consoante as necessidades. Procuramos ver se estão bem adaptados, se cumprem as horas necessárias de ventilação, se lidam bem com a máscara, se há uma boa gestão da medicação, se há necessidade de a ajustar, se precisam de câmara expansiva ou não”, explica a enfermeira, acrescentando: “Estamos sempre em contacto com os utentes.”

Aliás, como sublinha, “este conceito de equipa multidisciplinar transmite muita confiança, tanto aos cuidadores como aos utentes”.

Cecília Mota Abreu, que integra o ACES Porto Oriental desde 2008 e que pouco depois participaria na abertura da Unidade de Cuidados na Comunidade Campanhã, em 2010, garante que os utentes do CAI VENT “estão sempre apoiados 24 horas por dia”.



A reportagem completa pode ser lida no Jornal Médico dos cuidados de saúde primários de novembro, que inclui entrevistas com profissionais do ACES Maia/Valongo e do Hospital de São João.

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