Cancro da mama: Medicina Familiar «é fundamental no apoio psíquico da mulher e da família»

“O médico de família consegue contactar com as várias especialidades e ser um apoio psíquico da mulher com cancro da mama e dos seus familiares.” As palavras são de José Belo Vieira, médico de família na USF Colina de Odivelas e um dos fundadores da Sempre Mulher, associação que ajuda mulheres com cancro da mama, em Odivelas.

O responsável falou à Just News na sequência do XIII Encontro organizado pela Associação, que assinalou 20 anos no passado dia 19 de maio, precisamente o Dia Mundial do Médico de Família.



Além de José Belo Vieira, a decisão de criar a Associação partiu também de outra médica de família, Exaltina Sobral – já falecida -, e ainda da psicóloga Cristina Pinto e algumas mulheres com cancro da mama. “Ainda médico jovem, passei pela equipa do cancro da mama do Hospital de Santa Maria e quando vim para o então Centro de Saúde de Odivelas não descansei enquanto não consegui dar esta ajuda”, relembra.

O médico de família, que assume o cargo de presidente da Assembleia Geral da Associação, afirma que “na altura não havia associações como hoje em dia, excetuando no IPO de Lisboa, daí a necessidade de criar este projeto que pudesse dar resposta às dúvidas e medos destas mulheres”.

José Belo Vieira é o único homem da Sempre Mulher desde o início e, atualmente, o único médico de família na Associação. Na sua opinião, não há qualquer dúvida: a intervenção dos profissionais nos cuidados de saúde primários "é fundamental a vários níveis":

"Começando pela prevenção – mudança de estilos de vida, rastreios, ensino da apalpação -, prosseguindo com o acompanhamento para o resto da vida destas mulheres e das suas famílias, independentemente do seguimento no hospital”.



Continuando, José Belo Vieira salienta que não é apenas a mulher que precisa de ajuda. “Os maridos, os filhos também se queixam de ansiedade, de problemas em dormir, e aí o médico de família, conhecendo o ambiente familiar, pode dar uma ajuda muito importante.”

Ao longo destas duas décadas muitas foram as histórias que o marcaram pessoalmente, como a mulher que desconhecia que podia colocar uma prótese e que usava lenços para esconder a mastectomia ou as que escondiam o corpo dos próprios maridos. “São situações muito difíceis, lembro dessas histórias e de muitas outras; ainda hoje recordo os rostos e as frases de mulheres que já partiram.”

Para homenagear estas e as que sobreviveram, no encontro foram lançados vários balões. Os rosa simbolizam as sobreviventes e os brancos as que faleceram.



"Um médico de família transmite confiança e segurança"

O evento, que contou com a participação de várias pessoas, teve ainda uma palestra de Guida da Ponte, médica psiquiátrica do Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, que trabalha com doentes oncológicos. No seu entender, “ estas associações locais são fundamentais e a presença de um médico de família transmite confiança e segurança, além de ser o profissional de saúde que está na linha da frente e mais próximo à doente e à sua família”.

Guida da Ponte falou ainda da necessidade de todas as mulheres poderem ter apoio emocional. “É uma doença que provoca um enorme sofrimento e todas passam pela fase do chamado distress, daí ser essencial dar-se apoio psiquiátrico e psicológico”, defendeu.

“Uma associação destas não sobrevive sem um médico de família”

Quem também está na associação Sempre Mulher há 20 anos é Maria da Conceição Marmelo, presidente da Direção. “Foi uma forma de ajudar outras mulheres e também de agradecer à minha médica de família de então, que foi a Dra Exaltina Sobral, a primeira presidente.”


Maria da Conceição Marmelo

Satisfeita com o evoluir da associação ao longo destas duas décadas, Maria da Conceição Marmelo sublinhou a importância deste tipo de apoio a nível local, recordando a sua própria história pessoal. “Tive cancro da mama com 36 anos, tinha 2 crianças pequenas e foi um enorme choque, quem se dirige à Sempre Mulher encontra outras pessoas que sabem o que é a quimioterapia, a radioterapia, a dor…”


Guida da Ponte, Helena Pereira, Marina Antunes e José Belo Vieira

“Além de bons clínicos, sejam humanos"

Contudo, como fez questão de dizer, “a nossa mensagem é de esperança e de alegria, tanto que nos nossos encontros temos sempre música”. Quanto à presença de um médico de família, não tem dúvidas. “É muito importante, uma associação destas não sobrevive sem um médico de família, ajudando-nos a esclarecer as mulheres sobre esta doença, que não é fácil.”



No final, Maria da Conceição Marmelo deixou uma mensagem a todos os profissionais de saúde: “Além de bons clínicos, sejam humanos; nunca mais me esqueço da força que me deu uma simples mão no ombro do Prof. Luís Costa no Hospital de Santa Maria, quando soube que ia fazer quimioterapia…”

O evento contou com o testemunho de Helena Pereira, que foi diagnosticada com cancro da mama aos 40 anos, e de Marina Antunes, que teve um linfoma com 13 anos e que escreveu, recentemente, o livro “Cancro com humor 2 – É possível ser feliz no caos”.


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