Carência de internistas nos hospitais do SNS pode colocar em risco «a qualidade da assistência aos doentes»

Após ter sido anunciado há dias, em Diário da República, que existe uma carência de 129 internistas nos hospitais no SNS, o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), Luís Campos, adianta que esta realidade suscita uma grande preocupação, mas que "não nos espanta, porque é algo que sentimos diariamente nos nossos hospitais, e está, mesmo assim, muito aquém das necessidades". 

Na sua opinião, "apesar das sucessivas equipas ministeriais sempre terem apostado na Medicina Interna e terem aberto um número generoso de vagas para a especialidade, a realidade é que corremos atrás do prejuízo: a necessidade de internistas nos hospitais tem crescido de uma forma mais rápida do que o número de internistas admitidos pelos hospitais do SNS".



Doentes com multipatologias

"Temos doentes cada vez mais idosos, com múltiplas doenças, que são abordados preferencialmente pela Medicina Interna", refere Luís Campos. O especialista recorda que os internistas tratam estes doentes nas urgências, nos serviços de Medicina, nas unidades de cuidados intermédios e especiais, nos cuidados intensivos, nos hospitais de dia, nas consultas "e são os internistas a quem é solicitado o apoio quando estes doentes são internados nos outros serviços médicos ou cirúrgicos".

Por outro lado, sublinha que são também os internistas "que estão a criar alternativas ao internamento, como a hospitalização domiciliária, e que gostariam de se empenhar numa gestão integrada destes doentes com os cuidados primários".

Refere ainda que os serviços de Medicina Interna "estão transformados em centros de resolução dos problemas sociais dos doentes, porque é o internamento que desencadeia, a maior parte das vezes, a necessidade de apoio social".



Internistas com mais trabalho, mas "sem incentivo de qualquer espécie"

O presidente da SPMI afirma que existe "uma incapacidade de contratarmos os internos que formamos e a quem damos formação para responder a necessidades específicas dos nossos hospitais, vendo-os sistematicamente fugir para os grupos privados de saúde ou hospitais PPP, que têm mais facilidade de contratação e escolha, oferecendo-lhes melhores salários e condições". Enquanto isso, "os nossos assistentes e internos resistem a fazer horas extraordinárias, porque são mal remuneradas".

O responsável salienta também o facto dos internistas "terem que cuidar do dobro dos doentes espalhados por todo o hospital, sem incentivo de qualquer espécie" e de existirem "muitas equipas envelhecidas, com muitos especialistas que já ultrapassaram a idade para fazerem urgências, sem que haja renovação dos quadros".

Luís Campos não hesita em considerar que se tratam de "graves rupturas que podem fazem perigar a qualidade da assistência aos doentes têm sido evitadas até agora, pela dedicação, abnegação, competência, solidariedade e sentido ético dos internistas e das internistas portugueses, à custa da vida pessoal, com elevado preço em burn-out e com ameaças importantes à qualidade da formação dos internos". Esta é, no entanto, "uma situação que não é sustentável".

Medicina Interna: uma especialidade "cada vez mais necessária"


Consideramos por isso importante o reconhecimento da carência de internistas nos hospitais do SNS, a necessidade da sua contratação, mas gostaríamos também que houvesse maior flexibilidade e autonomia dos hospitais na escolha das pessoas, mantendo o respeito pela equidade, e que se encontrem formas de compensação económica e outras que tornem mais satisfatória e atrativa a atividade desta especialidade. Uma especialidade, sublinha o presidente da SPMI, "que é fascinante, e cada vez mais necessária para cuidar dos nossos doentes".



Serviços e estabelecimentos de saúde "carenciados"

Para o secretário de Estado adjunto e da Saúde, Fernando Manuel Ferreira Araújo, "sendo inquestionável que o Serviço Nacional de Saúde é a grande conquista do Estado Social no nosso País, o XXI Governo, como decorre do seu programa, considera que há, no entanto, um conjunto de medidas que urge adotar, no sentido de se minimizarem as desigualdades entre cidadãos no acesso à saúde que ainda se verificam, em particular, no âmbito de serviços e estabelecimento de saúde situados em regiões mais de interior".

 
Nesse sentido, no Diário da República do dia 11 de julho, são identificados, "como carenciados, nas áreas profissionais hospitalar e de saúde pública, serviços e estabelecimentos de saúde", a que corresponde um total de 736 vagas, "cujo preenchimento se apresenta como mais premente". Destas, 129 estão associadas à Medicina Interna, sendo claramente a especialidade identificada como a mais "carenciada". O despacho pode ser lido, na íntegra, aqui.

A publicação de um despacho com esta finalidade "deve ocorrer duas vezes por ano, no mês de janeiro e no mês de julho, aquando da realização das épocas de avaliação final, respetivamente, normal e especial, do internato médico".





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