CHLeiria disponibiliza internamento em cuidados paliativos e dá apoio aos familiares

Faz agora a 22 de março um ano que o Centro Hospitalar de Leiria (CHL) inaugurou a sua Unidade de internamento para doentes a necessitar de cuidados paliativos, instalada no Hospital Bernardino Lopes de Oliveira (HBLO), em Alcobaça.

Foi o concretizar de um sonho para a Equipa Intra-Hospitalar de Suporte de Cuidados Paliativos. Quem ficou a ganhar foram, desde logo, os utentes servidos pelo Hospital de Santo André e pelas outras duas unidades que constituem o centro hospitalar, em Alcobaça e Óbidos.



"Não me foco apenas na doença, mas também na pessoa em si"

Inaugurada em março de 2021, esta Unidade de Internamento permitiu à Equipa Intra-hospitalar de Suporte de Cuidados Paliativos (EIHSCP) do CHL, criada em 2018, evoluir para Serviço de Cuidados Paliativos, um dos poucos existentes em Portugal.


Foi preciso esperar mais do que o desejável, mas o sonho concretizou-se: a população da área de influência do CHL (Leiria, Alcobaça e Pombal) que precise de internamento para alívio de sintomas de uma doença grave e/ou incurável já o pode fazer próximo da sua casa e dos seus familiares.


Ana João Carvalho


Com 34 anos e especialista de Medicina Interna desde 2019, Ana João Carvalho afirma olhar para a Medicina de uma forma “mais humanista e não tanto mecanicista”. E acrescenta: “Como internista e paliativista, não me foco apenas na doença, mas também na pessoa em si. Tenho uma visão holística, não olhando meramente para o diagnóstico.”

Natural do Porto, a médica chegou ao CHL em 2014 e foi com naturalidade que se envolveu neste projeto. Mas faz questão de deixar claro que prestar cuidados paliativos “não se limita a proporcionar somente alívio sintomático, ou sequer a ‘dar a mãozinha’ a estes utentes, é muito mais do que isso! Significa tratar a pessoa no seu todo, dando atenção à dor física, mas também ao sofrimento psicológico e espiritual, tanto individual como familiar”.

Ana João Carvalho salienta que, para se conseguir proporcionar este apoio aos doentes que necessitam de cuidados paliativos, “é fundamental ter uma equipa multidisciplinar, em
que cada um põe em prática os seus conhecimentos”.



“Alguém tem alta?”

Uma das questões que se pode colocar relativamente a quem dá entrada na Unidade de Internamento do Serviço de CP do CHL é: “Alguém tem alta?”

Obviamente, a resposta não podia deixar de ser positiva, porque “a prestação de CP não se destina apenas a quem se encontra numa situação de final de vida”. Veja-se o caso de uma jovem com cancro que ali foi acompanhada para controlar as náuseas provocadas pela quimioterapia.


Elementos do Serviço de Cuidados Paliativos - Unidade de Leiria

A angústia existencial do doente e da família

Aceitar a referenciação para CP nem sempre é fácil por causa da ideia de que “não há nada a fazer”, ideia essa que está ainda muito impregnada na mentalidade da população portuguesa e, segundo Catarina Faria, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do CHL, “também interpares, apesar de algumas mudanças nos últimos anos”.



A internista apercebeu-se da necessidade dos CP ainda durante a sua formação, por sentir que nem no internamento, nem na alta hospitalar se conseguiria minimizar o sofrimento, sobretudo o psicológico e espiritual, decorrente de uma patologia grave e incurável.

Incentivada pelo seu orientador, o internista José Leite – que, entretanto, se reformou –, aceitou criar a Equipa Intra-hospitalar de Suporte de Cuidados Paliativos em 2018. À época, eram apenas dois médicos, três enfermeiros e uma assistente social. “Acabámos por crescer naturalmente, face às necessidades que iam surgindo”, conta.


Elementos do Serviço de Cuidados Paliativos - Unidade de Alcobaça

"Não tratamos apenas de quem vai morrer. Trazemos vida"

No âmbito da EIHSCP, passou a estar disponível, no piso 2 do Hospital de Santo André, em Leiria, a Consulta Externa e o Hospital de Dia para os muitos doentes e familiares que pedem apoio. É o caso da mãe de Isabel Sobreira, de Monte Real, que aos 85 anos foi diagnosticada com um cancro metastático. A filha, de 60 anos, admite que é “angustiante” ver que a mãe nunca tem fome. “O pior é mesmo isso, não sei o que fazer...”, lamenta.


É no Serviço de CP que encontra quem a oriente: “São incríveis! Seja presencialmente, por telefone ou por e-mail, posso esclarecer as minhas dúvidas e, claro, vejo que a minha mãe está a sofrer menos.”



O espaço é limitado para quem aguarda consulta ou para quem faz controlo de sintomas em hospital de dia, mas em todos os olhares é visível uma mistura do sentimento de dor, pela situação em si, mas também de alívio, por haver uma resposta.

“Há sempre algo a fazer. E aqui não tratamos apenas de quem vai morrer. Trazemos vida, incentivando os doentes, sempre que possível, a manterem alguma atividade, nem
que seja fazendo uma curta caminhada. Quem está em fase terminal consegue, ainda assim, um fim mais tranquilo e sereno”, afirma Catarina Faria.

E acrescenta: “Nós, médicos, somos formados para nos focarmos na cura e a finitude surge como um fracasso. Mas não é bem assim. A morte faz parte da vida e os CP permitem torná-la muito mais digna.”


Catarina Faria

A responsável diz mesmo que, “após a fase da revolta, a pessoa consegue aceitar a sua condição e, com os sintomas controlados, ganha outro gosto pela vida, apesar da sua condição, encontrando mais facilmente um sentido para a mesma”.

Conta, para tal, com o empenho de todos os profissionais, quer dos médicos e enfermeiros como da psicóloga e do capelão do Hospital de Alcobaça, com experiência nesta área.

A ajuda não se cinge aos doentes, quer por a família fazer parte da visão holística e biopsicossocial dos CP, mas também por o estado de exaustão dos familiares ser habitual.

“Dois terços dos que vêm à primeira consulta estão mesmo muito cansados, porque não sabem muito bem como reagir perante, por exemplo, a falta de apetite do doente, o que é normal... Vêm exaustos física e psicologicamente, porque não é fácil estar 24h a assistir ao sofrimento de quem se ama”, refere Catarina Faria.



Enfermagem: “Cuidar da vida até ao último dia”


Isabel Semeão, 47 anos, é a enfermeira responsável da EIHSCP e uma grande defensora dos CP. Recorda que inicialmente não foi fácil avançar com o projeto da EIHSCP sobretudo por duas razões: escassez de profissionais especializados na área e falta de recursos humanos, o que tornava complicada a decisão de se ter médicos e enfermeiros a tempo inteiro nesta valência.


Isabel Semeão

Mas, garante, “não deixámos de ser proativos e, hoje em dia, clínicos de diferentes especialidades já referenciam numa fase mais precoce”. Esta proximidade tem sido possível por a equipa se ter dado a conhecer, presencialmente, a todos os serviços do centro hospitalar, mostrando de que forma podiam ajudar, além de logo nos primeiros tempos terem sido visíveis os bons resultados.

Há mais de 26 anos no CHL, para Isabel Semeão, há um antes e um depois na sua carreira, marcada pela experiência de ter sido cuidadora de familiares com doença terminal.

“Olhavam muito para mim como sendo a enfermeira e não se lembravam que era a filha... E isso marcou-me bastante, achei que nunca mais iria exercer a minha profissão da mesma maneira”, recorda.

Os CP tornaram-se, assim, o seu “3.º filho”, como dizem as colegas, sendo hoje “uma missão e uma filosofia de vida”.



A reportagem completa, com entrevistas a vários outros profissionais, pode ser lida na edição de janeiro/fevereiro do Hospital Público.

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