CHS tem 116 gestores de risco local com o foco na «qualidade clínica e na segurança do doente»

Quando o Grupo de Indicadores, Auditoria e Risco Clínicos (GIARC) foi criado já o Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) tinha quase 4 anos de existência, ou seja, os hospitais de São Bernardo e Ortopédico Sant’Iago do Outão já estavam agregados. 

Ermelinda Pedroso, atual diretora do Serviço de Medicina Interna do CHS, coordenava na altura a Unidade de Cuidados Intermédios do São Bernardo e integrava a Comissão de Qualidade e Segurança do Doente daquele hospital. A médica, que está à frente do GIARC desde o primeiro momento, admite ter “um gosto pessoal” por estas matérias. 

A propósito do 10.º aniversário do GIARC, celebrado oficialmente em outubro, a médica destaca, em entrevista à Just News, o papel do enfermeiro Fernando Barroso no desenvolvimento deste grupo de trabalho, esclarecendo que “sempre assumiu o papel de nosso gestor de risco clínico aqui no hospital”.

Especialista em Enfermagem Comunitária, Fernando Barroso é enfermeiro-chefe e está neste momento nas Consultas Externas, mas desde muito cedo na sua carreira que está ligado ao controlo da infeção e à saúde ocupacional. Há 27 anos no Hospital de São Bernardo, colaborou igualmente bastante com a Direção-Geral da Saúde, tendo integrado o Departamento da Qualidade em Saúde.


Ermelinda Pedroso e Fernando Barroso 

A criação do GIARC em Setúbal e de outros grupos do género noutros locais teve muito que ver, recorda Ermelinda Pedroso, “com o interesse dos hospitais em aderir a programas de acreditação”. Consequentemente, “começou a surgir a necessidade de fazer alguma coisa em termos de promoção da gestão de risco e da segurança”.

“Nesta matéria, existiam algumas atividades, mas não estavam agrupadas nem uniformizadas. Achámos importante que houvesse aqui um grupo facilitador da centralização da informação em relação ao risco e à segurança no hospital nas várias áreas”, explica a médica, deixando claro que a realidade era semelhante na generalidade das unidades hospitalares do país.

Fernando Barroso adianta que foi então decidido incluir no Grupo dois colegas do Hospital Sant’Iago do Outão, o ortopedista José Lima (que, entretanto, saiu) e a enfermeira Teresa Lopes, sendo que esta última faz, assim, parte do trio de profissionais que se mantêm no GIARC desde o seu início.

Trabalhar em rede com mais de cem “elos de ligação”

Ermelinda Pedroso salienta que, nos primeiros tempos de funcionamento do GIARC, se apostou muito em formação, não só dos próprios elementos do Grupo mas também dos profissionais do CHS de uma forma geral.

Contudo, salienta: “Rapidamente chegámos à conclusão de que precisávamos de ter pessoas nos serviços que fossem o que nós chamamos de gestores de risco locais. São os nossos elos de ligação. Gerem os relatos de incidente, fazem o levantamento de risco, aplicam grelhas de segurança do doente…”



“São os dinamizadores, os nossos braços armados”, reforça Fernando Barroso, que frisa: “O levantamento do risco, por exemplo, uma ferramenta pró-ativa de avaliação de segurança do doente, é assegurado em muitos hospitais por um grupo específico que vai aos serviços. Nós fazemos ao contrário. Entendemos que têm que ser os profissionais de cada um dos serviços a fazer esse levantamento, para o sentirem como seu.”

Também porque são em maior número do que os médicos, constata-se que os enfermeiros são mais participativos do que os médicos. A coordenadora do GIARC justifica: 

“Tem que ver com a atividade de enfermagem, que reside muito nos serviços, conhecem às vezes melhor as suas particularidades, e depois têm uma relação muito direta com o doente...”

Diversos aspetos relacionados com o projeto foram sendo ajustados ao longo dos anos. “Começámos com relatórios extensíssimos de 200 ou 300 páginas e, no entanto, o que entregámos ao Conselho de Administração no final de 2018 tinha apenas duas ou três páginas. Concentrámonos naqueles que eram os riscos com um nível mais elevado e que o CA tinha mesmo que resolver e isso é uma mais-valia para os serviços”, refere Fernando Barroso.

Camas dos doentes: "Um exemplo gritante"

Procurando demonstrar que as coisas funcionam realmente, o enfermeiro apresenta o “exemplo gritante” – que os serviços, ao longo dos anos, iam identificando como fonte de risco e um perigo associado de queda – das camas dos doentes, que estavam degradadas, não baixavam em altura ou não tinham grades. 

“Neste momento, já temos um parque de camas praticamente todo renovado e isso é uma conquista dos serviços”, reforça.

No seu entender, “o grande salto terá sido dado quando o sistema de notificação de incidentes passou a ser online, uma ferramenta desenvolvida internamente”.

“Uma cultura de resolução efetiva dos problemas"

O enfermeiro reforça o facto de haver agora “uma cultura de resolução efetiva dos problemas, respondendo a quem notifica e aos próprios serviços”, considerando mesmo que “a transformação é abismal”.

“A identificação de um dispositivo médico que não está a funcionar pode parecer uma coisa pontual, mas tem um grande impacto no doente. Igualmente, o funcionamento de todos os serviços de apoio, como a Farmácia e a Informática, tem uma influência enorme naquilo que é o cuidado direto ao doente”, garante.



Ermelinda Pedroso intervém para deixar claro que “o risco existirá sempre dentro do hospital, nós não o conseguimos anular, podemos é minimizá-lo”. E mais: “O risco está cá, é preciso perceber que ele existe. As instituições de grande qualidade a nível internacional trabalham exatamente nesta base, porque só assim é que se consegue progredir.”

Se a gestão dos relatos de incidente clínico constitui um dos pilares de atuação do GIARC, obter indicadores clínicos que permitam ter uma perspetiva da qualidade praticada não é menos importante, sendo para tal essencial o empenho dos inúmeros grupos e serviços do hospital.

“O terceiro pilar é a auditoria clínica, que nos permite perceber não só o que estamos a fazer mas também se o fazemos em conformidade com aquilo que é a boa prática”, refere Fernando Barroso.

“A auditoria clínica incide sobre aspetos tão variados como verificar se os doentes estão corretamente identificados, se é feita a avaliação da prevenção do risco de quedas, ou, por exemplo, constatar qual o tempo de resposta da equipa de emergência interna no hospital”, explica a coordenadora do GIARC.

Para Ermelinda Pedroso, “é necessário melhorar ainda mais no campo da auditoria clínica, até porque os próprios serviços deviam desenvolver indicadores próprios, tendo em conta as características de cada um”. Até porque “a Cardiologia não é uma Neurologia, a Neurologia não é o Serviço de Cirurgia e a Cirurgia não é uma Pediatria”.


Alguns dos profissionais envolvidos no GIARC

Elementos do GIARC:

Médicos: Ermelinda Pedroso, Bárbara Lobão, João Mangualde, Lúcia Parreira e Rita Ricardo
Enfermeiros: Fernando Barroso, Diana Sousa, Luís Caldas, Maria de Jesus Bernardo, Pedro Contreiras e Teresa Lopes
Gestora: Cristina Lourenço



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