«Desmistificar a doença mental é ainda mais importante. Nem todas as feridas são visíveis»

"Face à situação em que a população vive há meses, que obriga à imposição de regras de confinamento, é imprescindível facilitar o pedido de ajuda de quem sofre com doença mental, "adverte Joaquina Castelão, presidente da FamiliarMente - Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental.

Desmistificação da doença mental

De acordo com a responsável, uma das medidas necessárias, "sempre importante, mas crítica neste momento", passa pelo "esbatimento do estigma e desmistificação da doença mental que, à semelhança da doença orgânica ou funcional, é importante ser diagnosticada atempadamente e ter tratamento adequado".


Joaquina Castelão

Na sua opinião, este é um passo importante para que mais pessoas deem o primeiro passo e solicitem ajuda. "É certo que se tem vindo a falar mais em saúde mental nos últimos meses, mas apenas uma pequena percentagem das pessoas que estão em sofrimento psicológico procuram de facto ajuda profissional. A doença mental é ainda um tabu para muitos".  

"Nem todas as feridas são visíveis"

Em declarações à Just News, Joaquina Castelão recorda ainda que o isolamento social e todas as incertezas e convulsões sociais "contribuiram para o agravamento da saúde e bem estar das pessoas, com graves repercussões ao nível da saúde mental, quer junto de quem já sofria de uma doença, mas também de novas situações resultantes dos efeitos da pandemia".

É neste contexto que sublinha a importância de campanhas sobre saúde mental como a que decorreu recentemente, organizada pela LisbonPH, uma Júnior Empresa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (FFUL).



Esta ação, coordenada por Beatriz Adão e Nádia Dias, decorreu ao longo de todo o mês de novembro, tendo contado com o envolvimento ativo da FamiliarMente.

A campanha reforça a mensagem de que "nem todas as feridas são visíveis". E, para Beatriz Adão, o facto da doença mental não ser visível continua precisamente "a ser um grande obstáculo na compreensão da doença, mas também em pedir ajuda". É o caso concreto dos estudantes universitários que, a par da já habitual pressão e ansiedade, "vivenciaram alterações constantes e imprevisíveis ao seu estilo de vida e própria rotina diária".


Beatriz Adão

Na sua opinião, ações como esta campanha "podem ajudar colegas nossos a identificarem melhor certos sinais e sintomas e a perder o receio de pedirem ajuda psicológica, até porque esta é, no fundo, uma iniciativa que surge entre pares".

E acrescenta: "É muito importante combater e desmistificar o estigma associado a este tema, que ainda é visto como um tabu, principalmente entre a juventude."

Testemunhos reais de quem sofre com doença mental


Para passar a mensagem da forma mais efetiva possível, a LisbonPH contou com o "inestimável apoio da FamiliarMente". Tal permitiu, nomeadamente, a divulgação de vídeos com testemunhos, "revelando-se pertinente e com bastante impacto nas camadas mais jovens", adianta Beatriz Adão.

"A partilha de testemunhos reais de pessoas que sofrem de doença mental e dos seus familiares é realmente uma poderosa ferramenta de sensibilização", reconhece Joaquina Castelão, fazendo questão de enaltecer a disponibilidade dos familiares e doentes.


Podem ser consultadas mais informações sobre a campanha aqui.

"Potenciar o alcance da nossa campanha"

Contudo, e apesar da LisbonPH ser constituída exclusivamente por estudantes da FFUL, "queriamos chegar à sociedade, com um particular foco nos profissionais de saúde e decisores da área", conforme explica Nádia Dias:

"De forma a potenciar o alcance da nossa campanha, acabámos por estabelecer bastantes parcerias. Algumas das entidades com as quais trabalhámos foram a Apifarma, a APAH, a Associação Nacional para a Saúde Mental - Alertamente, a Manifestamente, FARPA, ENCONTRAR+SE, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e é claro, a nossa principal parceira e que co-organizou a Campanha connosco, a FamiliarMente."

Divulgada maioritariamente através das páginas de facebook, linkedin e instagram, a campanha permitiu obter "um feedback e um impacto excelente".


Nádia Dias

"It`s ok not to be ok"

"Tens de ser positivo" é uma expressão muito utilizada mas que, apesar das boas intenções, pode por vezes ter um efeito perverso, adverte Nádia Dias, reforçando o receio ou vergonha de pedir ajuda. Foi com o propósito de procurar alertar que "é natural que alguém não esteja bem", que foi escolhido o lema "It`s ok not to be ok":

"Esta mensagem foi a forma mais impactante com que conseguimos efetivamente transmitir de uma forma mais imediata aquele que era o nosso principal mote de toda a campanha. Acima de tudo, o nosso objetivo era transmitir ao nosso público que cada vez mais devemos ter em atenção a Saúde Mental e não descredibilizar a importância da mesma."

Nádia Dias considera mesmo que "ainda persiste um certo estigma de que ´quem vai aos psicólogos/psiquiatras são os malucos`. Isto é uma frase que se ouvia muito há uns anos e que começou a fazer com que as pessoas deixassem de procurar auxílio de profissionais especializados. Desmistificar isto era o nosso principal foco." E sublinha: "It`s ok not to be ok".

Beatriz Adão e Nádia Dias com a presidente da LisbonPH, Margarida Reis (ao centro)

"Somos a transformação que queremos ver no mundo"

Para Margarida Reis, que está prestes a terminar funções como presidente da LisbonPH, esta campanha de sensibilização é um bom exemplo do que são as linhas orientadores desta Júnior Empresa, desde logo, pelo "empenho e facilidade em criar sinergias com entidades foras da comunidade académica".

A responsável destaca também "o nosso grande projeto de Sustentabilidade e Responsabilidade Social, enquadrado na própria cultura organizacional da nossa Júnior Empresa e numa das motivações pelas quais fundamos a LisbonPH".



E fica também evidente a preocupação em promover uma constante proatividade: 

"Enquanto futuros Profissionais de Saúde sentimos que temos uma responsabilidade acrescida na promoção da saúde enquanto agentes de transmissão de conhecimento junto da sociedade, aconselhando-a para as melhores práticas e comportamentos a adotar em saúde, combatendo a iliteracia e promovendo estilos de vida mais saudáveis."

E acrescenta: "Acreditamos também no poder da mudança e transformação de mindset que as gerações mais novas têm e podem cada vez mais ter na sociedade. E, por isso, pautamos as nossas ações segundo o mote ´somos a transformação que queremos ver no mundo`. Procuramos, diariamente, estabelecer uma ponte de ligação entre o seio acadêmico e o mercado empresarial, numa sinergia potenciadora e disruptiva através equipas multidisciplinares, criando maior impacto nas suas intervenções junto da comunidade."

Pode ser solicitada ajuda psicológica gratuita (24h/dia) através do SNS 24 – 808 24 24 24. Depois deve ser selecionada a opção 4 (aconselhamento psicológico).


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