Criação da Consulta de Cardio-Oncologia do CHLN permite «maior simbiose entre as duas especialidades»

O Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), dirigido por Fausto Pinto, criou, há cerca de quatro meses, uma consulta de Cardio-Oncologia pioneira em Portugal, que se destina aos doentes oncológicos com patologia cardíaca ou que estão em risco de desenvolvê-la por terem sido sujeitos a terapêuticas cardiotóxicas utilizadas no tratamento da doença oncológica.

Em entrevista à Just News, a propósito do VI Congresso Novas Fronteiras em Cardiologia, evento que se realizou recentemente, presidido por Fausto Pinto, o responsável explica que a Cardio-Oncologia é uma área de intervenção relativamente recente, tendo sido "desenvolvida tendo em conta que uma grande parte da mortalidade dos doentes oncológicos se deve à patologia cardíaca".



O atual presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia sublinha que esta inovação permite que haja "uma maior simbiose entre as duas especialidades e que o doente oncológico possa ser tratado de uma forma mais abrangente, de acordo com uma intervenção cardiológica mais específica e direcionada para os problemas que, hoje em dia, sabemos que podem estar mais frequentemente associados à patologia oncológica, por um lado, e, por outro, às intervenções oncológicas (farmacológicas e de radioterapia) que possam potenciar o aparecimento de patologia cardiovascular."

Acrescenta ainda que "com o apoio da Administração, decidimos criar a Consulta de Cardio-Oncologia, que conta com uma colaboração muito estreita da Oncologia na identificação dos doentes avaliados por nós e que permite uma intervenção mais precoce, por exemplo, na deteção de alterações a nível da função ventricular esquerda nos doentes que estão a fazer citostáticos, que são cardiotóxicos, o que possibilita uma melhor monitorização deste tipo de terapêutica."

Fausto Pinto afirma que se trata de uma área que tem "muitos elementos em aberto, sobretudo no campo da investigação, e estamos a trabalhar no sentido de procurar identificar novas ´avenidas` e áreas de intervenção".



Manuela Fiuza foi a grande impulsionadora da criação da Consulta de Cardio-Oncologia do CHLN, cuja coordenação está a seu cargo. Em entrevista à Just News, a cardiologista conta que começou a interessar-se por esta área há cerca de oito anos, aquando da introdução de um fármaco biológico para o tratamento da neoplasia da mama, que “revolucionou o tratamento desta patologia”, sendo que os doentes passaram a viver mais tempo e com mais qualidade de vida. No entanto, verificou-se que a este benefício se associavam alterações cardíacas. A partir daí, começaram a introduzir-se estudos cardíacos e a ecocardiografia em todos os ensaios clínicos.


Segundo refere, há já alguns anos que se comprovou que algumas terapêuticas clássicas utilizadas no tratamento dos doentes oncológicos são cardiotóxicas. No entanto, geralmente, os doentes não sobreviviam o tempo suficiente para as cardiotoxicidades surgirem.

“Hoje em dia, os doentes vivem mais tempo, dando oportunidade para as elas se manifestarem”, indica, acrescentando que, muitas vezes, estas são silenciosas, sendo detetadas apenas com recurso a exames, como, por exemplo, a ecocardiografia. A longo prazo, a radioterapia também pode revelar-se responsável pelo desenvolvimento de problemas cardíacos, que se manifestam muitas vezes 10-20 anos depois.

Outro aspeto que Manuela Fiuza salienta é o facto de os diagnósticos ocorrerem em pessoas cada vez mais idosas, que já têm de base problemas cardíacos que podem limitar o tratamento oncológico.



Os doentes da Consulta de Cardio-Oncologia provêm das consultas de Oncologia, de Radioterapia e de Hematologia. “Alguns são referenciados antes de iniciarem a terapêutica, porque lhe foram detetados problemas cardíacos e são avaliados relativamente à necessidade de fazerem terapêutica cardíaca. Nos que já estão a fazer a terapêutica, o objetivo é otimizá-la”, menciona.

Depois de concluídos os tratamentos oncológicos, os doentes são seguidos na Consulta, ou porque ficaram com sequelas cardíacas, ou por uma questão preventiva, pois, fizeram terapêuticas muito agressivas e devem continuar a fazer anualmente exames, de forma a controlar possíveis efeitos mais tardios das terapêuticas (químicas e radioterapia).

A coordenadora faz questão de realçar a excelente relação com os oncologistas e a ligação “muito estreita” que mantêm. Além de Manuela Fiuza, a Consulta é feita por Andreia Magalhães, cardiologista, e por Miguel Menezes, jovem interno de Cardiologia. Há depois uma técnica cardiopneumologista que colabora na realização dos exames ecocardiográficos.

Após 4 meses de Consulta, o balanço não podia ser mais positivo. “O trabalho tem sido muito, mas muito gratificante”, afirma a sua coordenadora, desenvolvendo que a procura tem vindo a aumentar substancialmente e a tendência será aumentar, porque “cada vez se diagnostica mais”.

Imprimir