Consulta de HTA e Risco Vascular é «ponto de transição entre os grandes centros e os CSP»
Uma das coisas que Pedro Macedo Neves, 49 anos, faz logo questão de sublinhar no início da entrevista é que tanto podem ser os médicos de família a referenciar doentes com HTA para a “sua” consulta hospitalar como o inverso, ou seja, ele próprio a orientá-los para os cuidados de saúde primários.
E adianta que, embora não sendo uma “consulta aberta”, com o significado habitual do termo, é “de abertura facilitada”, isto é, um doente seguido na Consulta de Hipertensão que sinta essa necessidade sabe que pode aparecer no Hospital de São João de Deus, em Vila Nova de Famalicão, a uma quarta-feira à tarde, mesmo sem marcação, e ser atendido.
Pedro Macedo Neves
“Porque nós nunca sabemos quando a sua situação se altera, exigindo um eventual ajuste na terapêutica”, justifica o especialista, que é, desde fevereiro de 2025, o diretor do Serviço de Medicina Interna da ULS do Médio Ave, a que pertence também o Hospital de S. Bento, em Santo Tirso.
Quando, em 2009, Pedro Neves chegou ao Hospital de Vila Nova de Famalicão, do então CH do Médio Ave, para integrar o Serviço de MI como recém-especialista, já sabia que iria ter sob a sua responsabilidade a Consulta de Hipertensão Arterial e Doença Vascular. A anterior coordenadora, Irene Soares, tinha deixado o SNS pouco tempo antes.
A designação “HTA e Doença Vascular”, que podia facilmente induzir em erro – tanto que até aconteceu ser referenciado para a mesma alguém com um problema de varizes! --, manteve-se até há uns 4 anos. Foi então substituída por “HTA e Risco Vascular”. Aliás, no entender do médico, “devia-se procurar uniformizar a nomenclatura destas consultas”.
Ao assumir, há 17 anos, a coordenação da Consulta, Pedro Neves percebeu rapidamente que, “embora não tendo todos os recursos que estão disponíveis num hospital central, havia um grande potencial de abordagem do doente hipertenso num hospital distrital”. E que a aplicação de terapêuticas mais complexas “não tem que existir em todos os locais”.
“Eu penso que servimos aqui como um ponto de transição entre os grandes centros de investigação da HTA e os CSP. Temos um papel cada vez mais importante, porque não nos podemos esquecer que a grande maioria dos doentes com hipertensão é acompanhada pelos médicos de Medicina Geral e Familiar. E a divulgação das guidelines faz com eles estejam progressivamente mais sensibilizados, por exemplo, para a possibilidade de poderem estar perante uma hipertensão secundária, que obriga a uma investigação própria”, afirma Pedro Neves.
No seu entender, “tendo em conta que os hospitais de Braga, de Guimarães e de São João criaram as condições para ali se fazerem determinados exames mais específicos, não fazia sentido que, com a proximidade física que há a Vila Nova de Famalicão e a Santo Tirso, investíssemos nós aqui numa área que obriga a uma precisão de diagnóstico e a uma competência tão específicas”..jpg)
“Temos é que sentir o quão importantes nós somos, pois, em hospitais mais ‘pequenos’ como os nossos, e no que à HTA diz respeito, podemos ter um papel muito relevante em termos de promoção da literacia, na uniformização de critérios e terapêuticas, na formação e na informação”, frisa.
Quando é que determinado doente deve ser referenciado para uma consulta hospitalar de hipertensão é uma questão que se coloca muitas vezes ao médico de família. Daí que o nosso entrevistado valorize a existência de critérios de referenciação atualizados e que devem ser adaptados à realidade de cada ULS:
“Como se compreende, fará toda a diferença se os CSP de uma determinada ULS já tiverem, por exemplo, a capacidade de fazer a monitorização ambulatória da pressão arterial, não sendo, portanto, necessário encaminhar o doente para o hospital para fazer a MAPA. No nosso caso, estamos a preparar agora uma nova versão dos critérios de referenciação.” 
Médicos de família mais capacitados para seguirem o doente hipertenso
A Consulta de HTA e Risco Vascular da ULS do Médio Ave continua a realizar-se à quarta-feira à tarde em Famalicão e à segunda, também à tarde, em Santo Tirso, pelo internista Renato Nogueira, não tendo sido preciso ampliar, entretanto, o horário da mesma.
Pedro Neves afirma que “a capacitação dos colegas de MGF para seguirem o doente hipertenso é hoje muito superior ao que era há vinte anos, pelo que não sentem tanta necessidade de nos referenciarem casos, o que é muito positivo. O grande volume de doentes vem apenas para tirar algumas dúvidas de diagnóstico e de ajuste terapêutico”.
“Trabalhamos os dois em conjunto a área da hipertensão e risco vascular e sem qualquer equipa de enfermagem que nos faça a abordagem inicial do doente. Contudo, podemos referenciar para a nutrição ou envolver colegas de diferentes especialidades, se for indispensável controlar outros fatores de risco”, esclarece o coordenador da Consulta, acrescentando:
“Algo que vamos procurar fazer nos próximos tempos é a criação de uma via de comunicação direta por email com os médicos de MGF e a implementação da teleconsulta de consultadoria. É importante conseguirmos evitar a deslocação dos doentes ao hospital, até porque, nalguns casos, os colegas precisam apenas de esclarecer uma simples dúvida.”.jpg)
A entrevista completa pode ser lida no Jornal Médico de junho.


