Novo Serviço de Doenças Infeciosas do Hospital de Braga desenvolve a área do ambulatório

O Serviço de Doenças Infeciosas do Hospital de Braga foi criado apenas em abril deste ano, mas são vários os projetos já em desenvolvimento. A equipa tem reforçado o apoio a outras especialidades, percorrendo o hospital e apresentando soluções para a melhor utilização do antibiótico em cada caso concreto.

Se é certo que no Hospital de Braga já havia uma Unidade de Doenças Infecciosas, no Serviço de Medicina Interna, “onde alguns colegas internistas se dedicavam mais a esta área”, o desafio passa agora muito pela organização, "fazer um trabalho de novo e, noutros campos, proceder a alguma reestruturação, respeitando o que foi o percurso e a história feita no âmbito da Infeciologia neste hospital até agora”.


O trabalho multidisciplinar e o apoio ao internamento

De acordo com Ana Cláudia Carvalho, o projeto do Grupo das Infeções Osteoarticulares é um bom exemplo de como as Doenças Infeciosas podem dar o seu contributo no âmbito de uma equipa multidisciplinar, que neste caso envolve a Ortopedia, a Microbiologia e os Serviços Farmacêuticos.



Ana Cláudia Carvalho

“É um grupo que acaba por se diferenciar, dedicando-se mais aos casos de infeção que podem ocorrer relacionados com a colocação de próteses. São situações difíceis de tratar e esta abordagem em equipa, com o contributo de diferentes especialidades, traduz-se numa mais-valia para os doentes”, sublinha Ana Cláudia Carvalho, adiantando estar-se a trabalhar no sentido da criação de um grupo semelhante para as infeções endovasculares e do desenvolvimento de um programa de abordagem às infeções da corrente sanguínea.

Para além destes grupos dedicados, o Serviço de Doenças Infeciosas responde a qualquer pedido interno de consulta, seja relacionado com um doente internado na Neurocirurgia, com uma infeção cerebral, ou na Urologia, com uma infeção urinária causada por uma bactéria multirresistente.

“O pedido é feito e nós vamos observar o doente e damos a nossa opinião sobre a antibioterapia, as colheitas e a melhor forma de tratar a infeção. Nós temos corrido o hospital”, diz a nossa interlocutora.

“Aliás, o papel da Infeciologia no âmbito da infeção por bactérias multirresistentes é cada vez mais valorizado. Temos já situações para as quais as opções antibióticas são escassas. O trabalho de identificar esses casos, de os tratar e, sobretudo, de intervir na prevenção é muito importante”, frisa.


Ana Cláudia Carvalho, Joana Alves, Isabel Abreu e Luísa Graça

"O provedor do antibiótico"

À semelhança do que sucede na generalidade dos hospitais, também em Braga a Infeciologia ficou com a responsabilidade de, em colaboração com o Grupo Coordenador Local do Programa de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos (GLC-PPCIRA), implementar o Programa de Apoio à Prescrição de Antibiótico (PAPA), definindo a política global da sua utilização na instituição e, em articulação com a Microbiologia e os Serviços Farmacêuticos, perceber, nomeadamente, quais as bactérias em circulação e como é que os antibióticos estão a ser utilizados.

“No fundo, o nosso papel é ser o provedor do antibiótico, encarando-o como um bem precioso, que não dura para sempre. Repare-se que, por vezes, passa uma década sem que surja uma molécula realmente nova e que faça a diferença, e é uma questão de tempo até que algumas bactérias aprendam a resistir também a esse antibiótico”, observa Ana Cláudia Carvalho, prosseguindo:


“A Infeciologia assume um papel muito importante neste campo porque temos as ferramentas necessárias para poder ajudar os nossos colegas. Não os vamos substituir no tratamento de todas as infeções que existem, mas podemos contribuir, sobretudo nas situações mais complexas, para que se faça o melhor uso possível do antibiótico.”



Consulta de Imunomodelação e Risco de Infeção

“Queremos apostar também na área do Ambulatório”, afirma Ana Cláudia Carvalho, assegurando que a criação de novas consultas, inclusivamente a Consulta do Viajante, é um objetivo a médio prazo. Mas há uma outra que vai concentrar especialmente as suas atenções, “que se relaciona, mais uma vez, com o auxílio e colaboração com outras especialidades, que é uma consulta de Imunomodelação e Risco de Infeção”.

Em causa estão “os doentes crónicos – de áreas como, por exemplo, a Dermatologia, a Oncologia, a Reumatologia ou a Neurologia –, cujo tratamento implica, por vezes, a utilização de uma terapêutica imunossupressora, ou imunomodeladora, que compromete o sistema imunitário.

O intuito dessa consulta e o papel do infeciologista é apostar na prevenção, por exemplo, revendo a vacinação, na identificação de alguma infeção latente e no tratamento precoce”. Ora, a médica especifica que esse doente chega à Infeciologia essencialmente através da referenciação intra-hospitalar.

Independentemente do contributo que a Medicina Interna do Hospital de Braga continuará a dar nesse campo, o Serviço de Doenças Infeciosas irá aumentar a capacidade de resposta em termos da Consulta de Infeciologia Geral, da Consulta de VIH e da Consulta de PReP e IST, assegura a responsável.



Consulta de Antibioterapia em Ambulatório

“A nossa aposta em termos de Ambulatório está focada agora nestas quatro consultas (Infeciologia Geral, Imunodepressão (VIH), PREP/IST e Imunomodelação/Risco de Infeção e, num futuro próximo, também na Consulta do Viajante e na Consulta de Antibioterapia em Ambulatório”, refere, explicando que, relativamente a esta última, já era um projeto que ela própria estava a desenvolver no Hospital de São João.

“Há infeções que precisam de várias semanas de tratamento e nem sempre existe a opção de fazer terapêutica oral, obrigando a que o internamento se prolongue apenas para que o doente faça um antibiótico endovenoso. Ora, é vantajoso que ele possa estar em casa, desde que a administração do tratamento seja articulada com o hospital de dia, o centro de saúde ou a equipa de hospitalização domiciliária. Mesmo o seguimento da antibioterapia prolongada em regime oral faz sentido que seja realizada no âmbito dessa consulta”, diz Ana Cláudia Carvalho.

A ligação à comunidade também tem que ser estimulada. A médica apresenta como exemplo a Consulta de PrEP (profilaxia pré-exposição), que existe no Hospital de Braga, mas ainda com pouca expressão, em grande medida porque “envolve populações que não são fáceis de trazer até ao hospital, obrigando a uma articulação com as estruturas da comunidade para garantir um acesso facilitado aos cuidados de saúde, a identificação precoce e o tratamento das infeções de transmissão sexual, seja preventivo ou curativo”.


Ana Cláudia Carvalho com a enfermeira-chefe Madalena Lopes, que está há 30 anos no Hospital de Braga, sendo responsável pela gestão de três dezenas de enfermeiros e uma dúzia de técnicos auxiliares de saúde que sseguram o funcionamento da Enfermagem 1B, que corresponde ao Serviço de Doenças Infecciosas


A única infeciologista durante dois anos


Durante dois anos, até agosto de 2020, Joana Alves foi a única infeciologista no Hospital de Braga. Não estando integrada em qualquer serviço, o seu “superior hierárquico” era o diretor clínico, mas reportava à responsável do Grupo de Coordenação Local do PPCIRA devido à sua ligação a este Programa, que lhe ocupava a maior parte das horas semanais.


Alguns dos elementos do Serviço

Nesta nova estrutura organizacional do Serviço de Doenças Infeciosas, Joana Alves mantém, com a sua colega Isabel Abreu, o apoio que já dava ao Serviço de Ortopedia, através da criação do Grupo de Infeções Osteoarticulares. “A ideia é proceder à avaliação dos doentes que apresentam uma infeção desse tipo a partir do momento em que são internados, envolvendo a Microbiologia e também os Serviços Farmacêuticos”, explica, prosseguindo:


“Aplicamos o programa de farmacocinética e farmacodinâmica aos vários antibióticos utilizados, essencialmente a vancomicina e os aminoglicosídeos, em que é possível calcular a dose certa a aplicar a um determinado doente. Não queremos apenas confirmar que se trata do medicamento adequado a combater a bactéria isolada pelo laboratório, também é muito importante adequar a dose específica àquele doente em concreto, com base nas suas características.”


Joana Alves

“Com esta equipa multidisciplinar, tem sido possível conseguir melhores resultados na ajuda ao doente, diminuindo os efeitos adversos do antibiótico e conseguindo, com o tratamento adequado, evitar uma situação de multirresistência ou de recidiva de uma infeção”, sublinha a médica.

“Este apoio às outras especialidades é a base da Infeciologia”, conclui Joana Alves.



A reportagem completa, que inclui declarações de outros elementos da equipa, pode ser lida na edição 30 do jornal Hospital Público.

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