Empatia e humanismo na reabilitação dos doentes, «além das competências técnicas»

Criar empatia com os doentes, ouvindo as suas queixas e histórias de vida, é um dos "segredos" da equipa do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Porto. Para a sua diretora, Anabela Marques, "não basta ter competências técnicas".

“Tratamos todos os doentes como se fossem nossos amigos e familiares.” É desta forma que Anabela Marques define o trabalho da equipa. Como gosta de referir, “o carinho e os laços de amizade são muito importantes na sua recuperação”.

Para a médica fisiatra, esta forma de estar e de viver contribui para que quem necessita dos cuidados do Serviço sinta confiança nos vários profissionais que o integram. “As pessoas estão fragilizadas – há situações muito graves – e precisam de quem lhes dê atenção, escutando as suas dúvidas e problemas não basta ser competente em termos técnicos, temos que ser humanos”, reforça.



No seu entender, esta afetividade faz ainda mais sentido quando se trabalha com pacientes que necessitam de tratamentos de longa duração. “Por exemplo, um politraumatizado grave pode estar connosco durante vários meses e é inevitável não se criar esta empatia e esta relação de proximidade”, conta.

E é assim que ficam a conhecer muitas histórias de vida, contadas entre os vários tratamentos. “Muitos necessitam de desabafar e veem em nós profissionais em quem podem confiar assuntos da sua vida pessoal”, especifica Anabela Marques.

Para os médicos e terapeutas também é uma forma de entender melhor o que se passa com cada pessoa. “Frequentemente, existem questões emocionais, sociais e familiares que têm um impacto muito grande na recuperação, podendo, inclusive, atrasar a mesma, e apenas escutando é que acabamos por perceber o que se passa”, continua.

Sem listas de espera, mas trabalho não falta

Diretora desde 2003, foi em 2000 que Anabela Marques integrou a equipa do Serviço de MFR do então Hospital Privado dos Clérigos do Grupo HPP Saúde. Atualmente, a equipa integra, ao todo, duas dezenas de profissionais: 2 médicos (um a tempo parcial), 16 terapeutas (metade dos quais em part-time e que estão no Serviço consoante as necessidades) e 2 auxiliares de ação médica.


Anabela Marques: “Não há um único caso em que não se consiga fazer alguma coisa"

Sendo um hospital privado, não se sente o corrupio próprio de uma unidade pública central, mas o trabalho não é pouco. Com efeito, todos os dias são ali atendidos entre 130 a 150 doentes.

São várias as pessoas que no ginásio vão ouvindo as indicações dos técnicos enquanto, com menor ou maior dificuldade, reaprendem a fazer tarefas que durante anos e anos foram banais. Há quem treine a marcha, outros a motricidade fina, outros, ainda, fazem tratamentos locais, e há quem treine a marcha com prótese após amputação.

Pequenas intervenções podem produzir "grandes diferenças"

O objetivo é sempre o mesmo, como salienta a diretora: “Reabilitar o doente o máximo possível para que atinja o seu potencial de reabilitação, mesmo quando se trata de uma situação irreversível, que consiga ter maior qualidade de vida e bem-estar, ensinando-se estratégias para minimizar a deficiência.”

E acrescenta: “Não há um único caso em que não se consiga fazer alguma coisa. Pequenas intervenções podem contribuir para grandes diferenças, de quem tem que se deparar com limitações que podem ficar para a vida inteira.”


Anabela Marques: "É preciso escutar quem está na equipa para que, juntos, possamos melhorar o que corre menos bem”

"Acabamos por ser, muitas vezes, um ombro amigo"

Há 10 anos que a fisioterapeuta Carla Pereira está no Serviço, tendo começado, em pouco tempo, a coordenar a equipa de terapeutas. “Passei a ter uma maior sobrecarga de trabalho porque a gestão é uma tarefa muito complexa.” O mais exigente, considera, é manter “a harmonia entre todos”. Mas tem encarado o desafio com ânimo. “Ajudamo-nos uns aos outros, o que facilita”, assegura.

Fisioterapeuta há 21 anos, ainda hoje é o gosto pela área que a move. “Sempre quis fazer algo em Saúde e, como acompanhei familiares em Fisioterapia, acabei por escolher esta profissão, apesar de a Enfermagem ainda ter sido uma opção”, conta.


Carla Pereira

Todos os dias há muito trabalho e é preciso dar o seu melhor: “Os utentes têm de sair daqui a sentirem-se melhor e é bom ver a sua evolução, mesmo que isso signifique ‘apenas’ pequenas conquistas. Para a pessoa, o simples gesto de mexer uma mão é ‘um passo de gigante’.”

Tal como os colegas do Serviço, conhece muitas histórias de vida. “Os doentes falam bastante connosco porque passam cá muito tempo e acabamos por ser, muitas vezes, o seu ‘ombro amigo’, pedindo-nos a nossa opinião sobre variadíssimos assuntos”, refere.

“Há quem sofra de depressão e chegue aqui bastante triste e angustiado, mas, depois de fazer o tratamento e de falar connosco, sente-se com outro ânimo e isso é muito gratificante”, reconhece Carla Pereira.

Como técnica, gosta de trabalhar diversas áreas, mas admite que na Pediatria o ambiente é diferente. “Tornamo- nos crianças e isso é bom!”, diz.



"Estamos a ajudar uma pessoa a ser mais autónoma em tarefas tão básicas como vestir-se"

Há 10 anos que Susana Freitas, terapeuta ocupacional, está ligada ao Hospital Lusíadas Porto. Do seu trabalho na equipa, destaca o impacto que a Terapia Ocupacional tem nas atividades de vida diária (AVD). “Na reabilitação física, como estamos muito centrados nas AVD, o objetivo é tentar que o doente consiga voltar a ser o mais possível funcional”, diz.


Susana Freitas

Apesar de nem sempre as lesões o permitirem, acredita que a Terapia Ocupacional ajuda a melhorar a qualidade de vida: “Ao trabalhar as funcionalidades nas AVD estamos a ajudar uma pessoa a ser mais autónoma em tarefas tão básicas como vestir-se, lavar-se, comer, etc.”

Faz-se, assim, treino de coordenação e de destreza e aumento da amplitude articular. “No caso das crianças, temos situações clínicas de hiperatividade que não estão relacionadas com lesões motoras, mas que podem implicar problemas na destreza manual, daí que nos foquemos na motricidade fina, com treino de escrita, sensitivo e cognitivo”, relata.

Para Susana Freitas, quer os mais pequenos como os adultos são um estímulo todos os dias. “Gosto muito de poder trabalhar com todas as idades, com diferentes patologias. Em termos de crescimento profissional e humano, é muito enriquecedor”, assegura.



"É preciso conversar com os utentes, escutá-los, compreendê-los"

A sua paixão é o internamento, principalmente depois de ter conhecido a realidade do Brasil, onde fez uma pós-graduação em “Internamento Hospitalar”. “É nessa fase que se consegue intervir de modo a que as pessoas possam ter alta mais cedo e vejam otimizadas as atividades de vida diária”, afirma Miguel Teixeira, fisioterapeuta.

Há 10 anos que está no Serviço e sente que o seu trabalho faz a diferença. “É muito gratificante ver como ajudamos as pessoas a terem mais qualidade de vida, mesmo que as lesões não permitam uma recuperação total”, aponta.

No seu entender, para que isso aconteça, não bastam as competências técnicas dos terapeutas: “É preciso criar empatia com os doentes, conversar com eles, escutá-los, compreendê-los, porque assim vão sentir-se mais confortáveis e vão confiar mais na equipa.”

E continua: “Conhecemos muitas histórias de vida porque, como os utentes passam muito tempo connosco – por vezes, alguns meses ou até mais do que um ano – acabam por desabafar, criando-se esta relação de maior proximidade e até de amizade.”


Miguel Teixeira

Miguel Teixeira tem mesmo utentes fidelizados. “Alguns já me conhecem de anteriores internamentos ou tratamentos e pedem para ficar comigo e, se houver vaga, ficam.” Apesar desta retribuição de gratidão e de confiança, para si, “ser fisioterapeuta é, no fundo, dar sem estar à espera de receber algo”.

Recorda-se de que optou por esta área quando foi basquetebolista federado: “Por causa das minhas lesões, tive oportunidade de constatar os benefícios desta profissão e foi então que achei que seria uma boa escolha.”

Ajuda dos colegas para "realizarmos pequenos milagres"

Após ter feito formação no Porto, decidiu conhecer a realidade do Brasil. “Estive lá 6 meses para fazer uma pós-graduação, o que me permitiu ter uma visão mais abrangente da Fisioterapia, ou seja, do seu trabalho também em áreas como o Internamento ou os Cuidados Intensivos.”



E sublinha que, “há 15 anos, em Portugal, ainda não se reconhecia o papel dos terapeutas fora do ambulatório”. Miguel Teixeira salienta que aprendeu muito com os brasileiros: “Eles são muito mais próximos, têm um sentido de comunidade muito mais vincado do que os portugueses. Por outro lado, a vida socioeconómica é bem pior que no nosso país.”

Dessa experiência tem muito boas recordações, assim como do trabalho que realiza em Portugal: “É muito cansativo ser fisioterapeuta, mas encaro a minha vida com um sorriso na cara, porque conto sempre com a ajuda dos meus colegas para realizarmos pequenos milagres. É desta forma que se consegue enfrentar os problemas.”



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