Enfermeiros da USF do Minho mantêm ficheiros de utentes organizados por área geográfica
Tendo iniciado atividade a 13 de outubro de 2014 e coordenada há mais de uma década por Francisco Fachado, a USF do Minho localiza-se no 2.º e último piso de um edifício profundamente reestruturado, num espaço onde até existem gabinetes para os internos fazerem as suas consultas. A equipa continua a considerar uma mais-valia a aplicação do modelo de funcionamento em que os enfermeiros têm listas de utentes próprias organizadas por área geográfica, destacando a aposta na formação de futuros profissionais de saúde, acolhendo médicos internos, enfermeiros especialistas e alunos de Medicina e de Enfermagem. Recentemente, a Unidade aderiu ao projeto-piloto do Armazém Avançado em Farmácia, e até existe uma Galeria de Arte e uma Biblioteca ao dispor dos utentes, o que também diferencia e define esta USF. A uma vintena de profissionais ainda se juntam sete internos de MGF.

Francisco Fachado foi um dos três médicos de família que saíram da USF de Gualtar e se mudaram para o conhecido “Edifício do Carandá”, a uns 5 Km de distância, para fundarem a USF do Minho. Os outros dois foram José Rui Caetano e Margarida Lima, que haveria de ser a primeira coordenadora desta Unidade. Acompanharam-nos dois elementos do secretariado clínico.
Aliás, já tinha sido precisamente com esse objetivo que arrancara, nos primeiros dias de abril desse ano, a UCSP com o mesmo nome, antecipando, desde o início, a aplicação de um modelo de funcionamento coincidente com a da futura USF, no âmbito do processo de candidatura à constituição de uma unidade de saúde familiar.
A USF do Minho acabou por ficar instalada no 2.º andar de um edifício que já tinha pelo menos uns 20 anos quando foi tomada a decisão de o reestruturar de raiz, preparando-o para vir a acolher quatro unidades. No piso inferior encontra-se a Sanus Carandá (criada em dezembro de 2012) e no rés-do-chão funcionam a USF Dr. Pelaez Carones (maio de 2009) e a USF Salutis (dezembro de 2016).
Ocupando na altura um espaço “a cheirar a novo”, Francisco Fachado esclarece que aproximadamente 40% do mobiliário que ainda hoje serve profissionais e utentes – móveis, prateleiras, mesas ou marquesas – “estava prestes a ir para o lixo, tendo sido reciclado”. Mas o mais correto será dizer que foi devidamente restaurado.
“Vivia-se a época das restrições, no período pós-troika”, explica o médico, que se empenhou na tarefa de fazer sucessivas visitas a um armazém onde se guardava equipamento descartado por outras unidades e do antigo Hospital de São Marcos, selecionando o que lhe parecia mais apropriado até completar o material necessário para as atividades da Unidade. Contava depois com a colaboração do antigo ACeS, que disponibilizou uma equipa de manutenção, constituída por uma dupla de elementos que se encarregou de recuperar todo o material selecionado, “a quem devemos muito a Unidade que temos atualmente”.
Francisco Fachado assumiu a coordenação da USF do Minho em setembro de 2015, onze meses depois do início de atividade, na sequência da saída de Margarida Lima, convidada para presidir ao Conselho Clínico e de Saúde do ACeS Cávado I – Braga. Já existiam então seis das sete equipas de saúde familiar que há atualmente.
A altura da COVID-19 terá sido, para o coordenador, a fase mais complicada que viveu durante estes anos à frente da Unidade. Aliás, esse foi, sem dúvida, um fator de peso para atrasar o processo de transição para modelo B, que só se concluiu com a entrada em 2022.
“Uma das prioridades em que me foquei no início da pandemia, numa altura de grande incerteza e escassez de informação, foi garantir que esta USF não fechasse e que a equipa trabalhasse protegida, em segurança e sem medo. Nunca pensei que alguma vez fosse viver uma situação destas”, sublinha, apontando, no entanto, uma grande vantagem:
“Como é evidente, eu acompanhava o que se passava em Espanha. Como a epidemia lá tinha sempre duas ou três semanas de avanço, era possível nós anteciparmo-nos aos problemas que já sabíamos que iriam surgir aqui.”
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Francisco Fachado
A mais-valia das listas de utentes organizadas por área geográfica
A trabalhar em Braga desde 2003 e mantendo a ligação, por motivos familiares, com Santiago de Compostela – 180 km para ir e outros tantos para voltar! –, Francisco Fachado considera-se “um afortunado”. E porquê? “Porque a vida me permitiu trabalhar com paixão no que sempre sonhei. Sinto-me privilegiado por ter encontrado uma segunda casa, por ter sido sempre bem acolhido e por ter tido a oportunidade de aprender tanto com os profissionais com quem me fui cruzando ao longo dos anos como com os próprios utentes. Aliás, muitos deles já me acompanham desde que comecei a trabalhar como recém-especialista na antiga Extensão de Saúde de Ruães, há 20 anos!”
“Esta é uma área central de Braga, mas nós temos utentes de todo o concelho, incluindo zonas mais rurais. Eu, por exemplo, tenho 300 que vieram comigo de Ruães, que é semirrural”, refere, adiantando que dois terços do ficheiro que tinha na USF Gualtar também continuam a ser seguidas por si, integrando uma lista que oscila em torno dos 1700 utentes.
Francisco Fachado considera “absolutamente prioritário garantir a acessibilidade dos utentes aos serviços de saúde, permitindo assegurar, em simultâneo, uma atividade assistencial de qualidade e salvaguardar a vida pessoal e familiar dos profissionais, um equilíbrio crucial hoje em dia”. No seu entender, “fala-se muito de humanização, mas sem acessibilidade ela também não existe”.
Falando mais na qualidade de alguém que tem a responsabilidade de gerir uma equipa, está consciente de que “vivemos um período de mudança que exige repensar paradigmas tradicionais. As novas gerações de profissionais redefiniram as suas prioridades, colocando a salvaguarda da sua esfera pessoal numa posição central”.
No entanto, prossegue, “isso tem que ser compatibilizado com uma atividade assistencial de qualidade. Uma prioridade desta equipa passa por garantir a acessibilidade, tanto que os utentes reconhecem sempre isso quando respondem aos nossos inquéritos”.
A circunstância de os enfermeiros da USF do Minho terem os seus ficheiros de utentes organizados por área geográfica é, decididamente, uma característica muito própria desta Unidade, em que um médico tem oportunidade de trabalhar com todos os enfermeiros e vice-versa.
“Como é evidente, para os utentes, o conceito de equipa de família mantém-se na mesma”, frisa Francisco Fachado, reconhecendo que “o que custa é organizar o horário, pois, eu posso ter muitos utentes em comum com um enfermeiro e poucos com outro, sendo que, no final, todos temos que cumprir o mesmo número de horas de trabalho”. Para além disso, exigiu a criação de procedimentos internos de trabalho para garantir que todos os elementos da equipa atuassem da mesma forma e com uma maior articulação.
“Embora este modelo de organização de ficheiros tenha sido, entretanto, abandonado por outras unidades que funcionavam dessa forma, aqui mantém-se porque a equipa de enfermagem lhe reconhece uma enorme mais-valia. Permite-lhes, por exemplo, ter um conhecimento mais profundo da comunidade e articular de forma muito mais eficaz com os recursos da zona geográfica do seu ficheiro, tais como as respostas sociais, as IPSS ou as redes de apoio domiciliário, para além de assegurar uma gestão muito mais eficiente do tempo nas visitas domiciliárias de enfermagem”, explica. 
O sucesso da Galeria de Arte
Há que reconhecer que a existência de uma Galeria de Arte numa unidade de saúde não é algo propriamente normal, seja nos CSP ou noutras instituições do SNS ou mesmo privadas, mas o facto é que se mantém muito ativa, com exposições sucessivas (e não só…) desde fevereiro de 2023, no espaço amplo e aberto da sala de espera.
“Já tinham existido experiências esporádicas prévias noutras unidades, pelo que a minha principal preocupação era garantir que não sofresse interrupções e perdurasse no tempo. Hoje, estamos perante um projeto totalmente consolidado: a cada três meses inauguramos uma nova exposição, com uma planificação feita com quase um ano de antecedência”, refere Francisco Fachado, acrescentando:
“Cria-se uma dinâmica muito interessante dentro da equipa, pois, as inaugurações acontecem habitualmente à sexta-feira, coincidindo com o horário da reunião semanal, que nesse dia é dedicada unicamente a este propósito. Assim, todos os elementos estão presentes num momento de partilha e interação com os artistas.”_Logo.jpg)
O coordenador entente que é uma iniciativa muito positiva, “porque serve para humanizar o serviço que prestamos, aumentando a satisfação dos nossos utentes. Não nos podemos esquecer que uma USF ou um hospital são espaços frequentemente associados a conotações negativas, por exemplo, à ansiedade e à dor. Curiosamente, talvez como reflexo deste ambiente, registamos um número residual de reclamações por parte dos nossos utentes”, conclui.
Com a divulgação do calendário de exposições na agenda cultural do concelho de Braga, “Braga Cultura”, a Galeria da USF do Minho encontra-se também aberta à comunidade em geral, recebendo a visita de pessoas que não são utentes da Unidade.
Para Francisco Fachado, a recém-criada Biblioteca, situada no mesmo espaço físico da Unidade, constitui “um complemento à Galeria” no objetivo de humanizar os nossos serviços..jpg)
A reportagem completa à USF do Minho foi publicada na edição de outubro 2026 do Jornal Médico.
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