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Estomatologia: Cirurgia pioneira devolveu função mastigatória a jovem de 17 anos

Foi a primeira vez, em Portugal, que se colocou uma prótese customizada bilateral em alguém com síndrome de Gardner. Neste caso, uma jovem de 17 anos. A cirurgia realizada contou com o apoio de diferentes especialidades e ainda de um cirurgião espanhol, tendo sido possível devolver a função mastigatória a quem já achava que não havia nada a fazer.

A jovem vivia há alguns anos com as limitações próprias desta patologia rara, que se caracteriza pela formação de pólipos intestinais e osteomas. No seu caso, um destes tumores fazia com que só conseguisse abrir a boca 8 mm.

Na reportagem realizada pela Just News fica bem evidente o orgulho dos elementos da equipa do Serviço de Estomatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Norte (CHULN) que concretizaram esta cirurgia.



Depois de já ter sido vista por especialistas de várias áreas, a rapariga ouviu, finalmente, alguém dizer-lhe que havia uma possível solução.


“Este caso clínico foi extremamente complexo, mas procurámos fazer a diferença. Era uma situação muito penosa e, apesar de nunca termos deixado de referir os riscos associados, propusemo-nos ajudá-la”, conta Francisco Salvado, diretor do Serviço de Estomatologia do CHULN.
 
Começou então um longo caminho para se chegar ao tão esperado dia da intervenção, o que, devido às restrições da pandemia, aconteceu somente quase 2 anos depois da primeira consulta, mais especificamente, em julho deste ano.


Francisco Salvado

Tendo menos de 18 anos, foi necessário envolver, para além da Estomatologia, a Pediatria, mas também a Anestesiologia e a Infeciologia, para adequar a antibioterapia, a Pneumologia, para a entubação nasofibroscópica, e a Otorrinolaringologia, caso fosse necessária uma traqueostomia.

Já na reabilitação pós-operatória e em internamento, foi preciso contar com a equipa de Medicina Física e de Reabilitação, "porque era necessário começar a fazer movimentos o quanto antes". O trabalho em equipa é uma máxima da Medicina, mas, perante uma patologia rara tão específica, mais ainda.

“O seu quadro clínico aumentava o risco de complicações, nomeadamente de infeções, e todo o cuidado era pouco”, explica Miguel Amaral Nunes, coordenador da Unidade ATM (articulação temporomandibular, prosseguindo: “Em qualquer situação, é preciso ter em atenção os procedimentos do pré, intra e pós-operatório.


As próteses fornecidas pela empresa norte-americana  

“Jamais havia visto algo do género”

David Ângelo, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e diretor clínico do Instituto da Face, em Lisboa, foi um dos cirurgiões chamados a participar na intervenção, explicando como o caso desta jovem foi um “autêntico desafio” desde o primeiro momento.

“A colocação de próteses da articulação temporomandibular é uma técnica que se realiza, habitualmente, apenas de um lado. Neste caso, foi bilateral, o que pode aumentar o risco de infeção e de instabilidade biomecânica. Acresce a síndrome rara, com todas as complicações associadas, em termos de variações anatómicas e hemodinâmicas”, esclarece.

A própria fisionomia não era de todo a mais habitual, tanto que a empresa norte-americana que forneceu as próteses “jamais havia visto algo do género”. O risco de infeção, de uma hemorragia grave ou de paralisia da face era também elevado, porque a doente tinha muitas alterações anatómicas.


David Ângelo

Com um grau de imprevisibilidade deste nível, o especialista admite que a primeira sensação após a cirurgia foi de alívio, mesmo que a preocupação não deixasse de pairar no ar: “Podia haver complicações pós-operatórias, como infeções, que poderiam exigir novas próteses. Felizmente, nada disso aconteceu, tendo sido muito gratificante ver que  a jovem começou a abrir a boca, a falar e a sorrir... Ganhou outra autoestima!”

A mesma satisfação sentiu o estomatologista José Ferreira, que começou por ter contacto com este tipo de cirurgia mais complexa em Badajoz, Espanha, com o cirurgião espanhol convidado Florencio Monge Gil. Em Portugal, acabou agora por ter tido o privilégio de poder participar na primeira cirurgia de colocação de prótese bilateral em doente com síndrome de Gardner, sendo que, na altura, era especialista há apenas há 3 semanas.


Os três especialistas explicam à equipa da Just News como se processou a cirurgia, realizada em meados de maio

"Envolvimento de toda a equipa de enfermagem"

A equipa envolvida na cirurgia, que decorreu no Hospital Pulido Valente, não podia deixar de incluir enfermeiros, que, para o diretor do Serviço de Estomatologia do CHULN, são “peça essencial”. Uma delas foi Elisabete Baptista, profissional há 26 anos e que integra a equipa do Bloco Operatório II, onde intervêm várias especialidades cirúrgicas, entre as quais a Estomatologia.

Perante o desafio de ter participado nesta cirurgia pioneira, diz que encarou a situação como “uma aprendizagem e enriquecimento pessoal e profissional”. No seu entender, “esta experiência permitiu dar visibilidade ao papel do enfermeiro no cuidado à pessoa em situação perioperatória, promovendo o envolvimento de toda a equipa de enfermagem, com o intuito de uma melhoria da prática diária de cuidados na especialidade cirúrgica de Estomatologia”.


Isabel Peixoto e Elisabete Baptista

“Promover o cuidar e o conforto físico e espiritual"

Dando apoio no intraoperatório, Elisabete Baptista esteve com a doente desde o acolhimento até à sua transferência para a UCPA – Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos, garantindo que o sucesso se deveu muito ao empenho da equipa multidisciplinar mobilizada para o efeito.

A mesma satisfação sente Isabel Peixoto, enfermeira em funções de chefia no Bloco Operatório: “A equipa de Enfermagem é proativa e das experiências vivenciadas extrai aprendizagens que melhoram a sua prática, promovendo a auto e a heteroformação no grupo, não ficando ninguém excluído da experiência. Tudo isto enriquece os enfermeiros, promovendo-se o seu desenvolvimento pessoal e profissional.”

No final de uma intervenção rodeada de muitos olhares, Isabel Peixoto sentiu que o trabalho em equipa, a coesão e a partilha de informação entre diferentes grupos profissionais fez, mais uma vez, a diferença na vida de uma pessoa.

Viu cumprido assim a premissa que a levou à Enfermagem: “Promover o cuidar e o conforto físico e espiritual da pessoa e da sua família.” Isabel Peixoto reforça que “o suporte e o incentivo” da enfermeira supervisora Catarina Batuca “tem sido fundamental para a promoção e o desenvolvimento da enfermagem perioperatória no serviço”.


Isabel Peixoto e Elisabete Baptista com outras colegas enfermeiras 


Público e privado: “O mais importante é ajudar os doentes”

A jovem submetida a esta intervenção cirúrgica está a recuperar bem e todos os elementos do Serviço de Estomatologia do CHULN não podiam estar mais orgulhosos do que foi feito. Apesar de aguardar há anos obras de ampliação e de melhoramento das suas instalações, o Serviço faz questão de marcar a diferença na prática clínica e cirúrgica.


Miguel Amaral Nunes, Francisco Salvado e José Ferreira 

Para Francisco Salvado, a cirurgia permitiu mostrar como é importante trabalhar em equipa multi e interdisciplinar, envolvendo profissionais de fora do setor público: “Foi preciso ter a mente aberta! O Prof. David Ângelo está ligado à FMUL, mas tem apenas atividade no privado. O mais importante é ajudar os doentes, não interessando se, para o efeito, é preciso chamar alguém de outro setor, que não o público.”

David Ângelo corrobora: “No privado não existe capacidade para dar resposta a todas as situações complexas porque, infelizmente, muitas vezes é difícil envolver equipas multidisciplinares.”

Quanto à jovem – que, entretanto, completou 18 anos –, na altura desta reportagem, 3 meses depois da cirurgia, já conseguia abrir a boca 30 mm, o que corresponde a uma abertura máxima oral praticamente normal.



A entrevista, que inclui também declarações da diretora clínica, Teresa Vaio, e de Artur Carvalhinho, enfermeiro diretor, pode ser lida na edição 30 do jornal Hospital Público.

Dirigida a profissionais de saúde e distribuída em serviços e departamentos de todos os hospitais do SNS, esta publicação da Just News tem como missão a partilha de boas práticas, de boas ideias e de projetos de excelência desenvolvidos no âmbito do SNS, facilitando a sua replicação.

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