Serviço de Medicina Interna de Guimarães: «dar treino com autonomia responsável»

Dirigido por Jorge Cotter desde 2002, o Serviço de Medicina Interna do Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães, tem como objetivos primários, segundo o seu diretor, “tratar os doentes com o máximo de qualidade e eficiência, dentro das regras atuais da legis artis”. A investigação científica clínica e o ensino pré e pós-graduado, nomeadamente, a formação de novos internistas, também fazem parte da sua missão.



Formar internos "com vivência prática"

No âmbito de uma reportagem sobre o Serviço que dirige, que pode ser lida na atual LIVE Medicina Interna, Jorge Cotter adianta que, no que respeita ao ensino pré-graduado, o Serviço dá formação (teórica e prática) aos alunos do 3.º, 4.º, 5.º e 6.º anos do Curso de Medicina da Universidade do Minho. Em termos de acompanhamento prático, são recebidos, anualmente, cerca de 45 alunos correspondentes a cada um dos anos.  


Uma particularidade própria do Serviço é que os internos de especialidade fazem consulta autónoma, embora sob supervisão a partir do 2.º ano de especialidade. A grande mais-valia é, de acordo com Jorge Cotter, “dar treino com autonomia responsável, de modo a serem internos com vivência prática e não só com sabedoria livresca e de ver fazer”.

A capacidade do ensino pré-graduado e da investigação clínica está, segundo o responsável, em “amplo desenvolvimento”, nomeadamente no Centro de Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular. Contudo, e apesar de recentemente o hospital ter cedido um espaço para o Serviço desenvolver atividade nesta área, “as condições em termos físicos ainda não são as melhores”.


Assistentes, assistentes graduados e internos do Serviço de Medicina Interna (cerca de 50% do quadro global).

Na opinião de Jorge Cotter, o maior desafio que se coloca, atualmente, na área da Medicina Interna, é "assegurar que o treino continuará a ser feito de acordo com aquilo que é hoje o plano publicado de formação de internistas em todas as suas vertentes, nomeadamente, no acompanhamento de doentes e na realização e desenvolvimento, cada vez mais, de técnicas necessárias ao bom desempenho e resolução dos problemas concretos”.



Incentivar a investigação e "produção científica"


Em termos de investigação e atividade científica, o Serviço publicou, nos últimos três anos, 16 artigos científicos em revistas indexadas e fez 76 comunicações científicas em congressos nacionais e internacionais.

Aumentar a produção científica em revistas de renome internacional e conseguir publicar resultados a partir da base de dados de Hipertensão e Risco Cardiovascular, que tem cerca de 5 milhões de células, é um dos maiores desafios. “A fase inicial estava em papel. Neste momento, deve faltar cerca de 1 milhão de células para que tudo esteja informatizado”, adianta Jorge Cotter, frisando que esse aspeto já não constitui um problema.

De destacar que, em 2015, houve mais um doutoramento em Medicina Clínica no Serviço, o de Pedro Guimarães Cunha.



Centro de Excelência Europeu em HTA e Risco Cardiovascular

Pedro Guimarães Cunha coordena a Consulta de Hipertensão e Doenças Renais Crónicas do Centro de Investigação e Tratamento em Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular Global do Serviço de Medicina Interna e da Universidade do Minho, que é um Centro de Excelência Europeu em Hipertensão e Risco Cardiovascular.


O internista, que é também vogal da Direção do Grupo de Estudos de Hipertensão e Cérebro da Sociedade Europeia de Hipertensão, coordena ainda o Laboratório de Técnicas Não Invasivas que, segundo o próprio, “congrega a execução de um conjunto de técnicas que são essenciais ao seguimento dos pacientes, não só na estratificação do risco cardiovascular, mas também na correta definição do facto de estarem ou não controlados e de serem ou não hipertensos resistentes”.

“Enviamos colegas para os centros europeus com laboratórios em funcionamento para aprenderem as técnicas que agora colocamos a funcionar para os nossos pacientes”, relata.




Doentes beneficiam de atividade global do Serviço


Cabe ao Serviço de Medicina Interna diagnosticar, tratar e acompanhar todas as patologias do âmbito da especialidade, “excetuando-se doentes agudos coronários e aqueles que necessitam de ventilação invasiva, que são encaminhados para locais próprios, onde são tratados”.

Acrescenta ainda Jorge Cotter que também é o caso de “uma ou outra patologia que, pelas suas especificidades e pelo interesse de algumas subespecialidades, depois de diagnosticada, não é acompanhada pelo Serviço” (como a esclerose múltipla ou a doença de Crohn, em que os doentes são encaminhados para os serviços de Neurologia e de Gastrenterologia, respetivamente).

Para Jorge Cotter, esta globalidade constitui o aspeto mais distintivo em relação a muitos dos serviços de MI do país, que “perdem grande parte das patologias para as subespecialidades”. O Serviço pratica um conjunto de técnicas, como, por exemplo, biópsias hepáticas, ósseas e renais e mielogramas, à semelhança do que acontece noutros serviços. A drenagem de empiemas e a colocação de drenos torácicos também é feita por internistas e internos de especialidade.


Distingue-se por ser o único Serviço de MI do país a realizar biópsias renais e a acompanhar esses doentes, à exceção, obviamente, dos transplantados renais.



Nascido em 1956, em Guimarães, Jorge Cotter licenciou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em 1979, tendo-se especializado em Medicina Interna no Hospital de
São João, no Porto, com 20 valores, e doutorado em Medicina Clínica pela Universidade do Minho, em 2008. É especialista europeu de Hipertensão e Risco Cardiovascular.

A Medicina esteve sempre presente na sua vida. O seu pai era médico, assim como o seu tio-avô, Arnaldo Sampaio (pai de Jorge Sampaio, antigo Presidente da República), que foi o primeiro médico português com assento no Comité Executivo da Organização Mundial da Saúde.

Quando escolheu a Medicina Interna, em 1982, estava em 9.º lugar entre mais de 1500 médicos, tendo, por isso, a oportunidade de escolher a especialidade pela qual sentia “vontade e vocação”. Tal como Hipócrates fez há vários séculos, também Jorge Cotter tem lutado por ser mais uma “correia de transmissão de uma Medicina holística”, em que o doente é tratado como um todo, porque, como defende, “o ser humano é um todo global, físico e psicológico”.



A reportagem completa pode ser lida na última edição de LIVE Medicina Interna.

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