Insuficiência cardíaca: Projeto agrega serviços hospitalares e integra os cuidados primários
Filipa Serra, 43 anos, trabalha no Centro Hospitalar de Setúbal e tem, entre outras tarefas, a responsabilidade de administrar o Departamento de Medicina, que agrega uma lista enorme de serviços, entre os quais o de Cardiologia e o de Medicina Interna.
O desafio do momento chama-se Unidade Integrada de Insuficiência Cardíaca (UNIICA) e boa parte da sua energia é canalizada para este projeto inovador, que arrancou nas últimas semanas e mobiliza cardiologistas, internistas e enfermeiros ligados a essas duas áreas.
As mudanças já começaram a acontecer. Por exemplo, os dois coordenadores da UNIICA, a cardiologista Sara Gonçalves e o assistente hospitalar de Medicina Interna Pedro Carreira, “já não referenciam um para o outro via sistemas de informação, pois, o objetivo é ambos partilharem agendas na marcação do Hospital de Dia ou da Consulta do Dia de IC”, explica Filipa Serra, em declarações à Just News.

Prevenir as hospitalizações
O que se pretende com a criação da Unidade Integrada de Insuficiência Cardíaca, que envolve uma parceria com o Agrupamento de Centros de Saúde Arrábida, faz sentido: "seguir todo o percurso do doente, desde quando é diagnosticada a IC, passando pelo tratamento e após a alta hospitalar".
A descrição do projeto, que é alvo de reportagem na edição de janeiro do Hospital Público, deixa claro que o objetivo é “prevenir as admissões hospitalares e melhorar a sobrevida dos doentes com IC, mediante a deteção precoce dos sintomas para prevenir as hospitalizações, com consequente redução de custos”.
“A integração em rede de diversas estruturas e níveis de cuidados, centrada no doente e com planos de cuidados personalizados, permite rentabilizar recursos, eliminar o desperdício e a duplicação de requisições de exames, melhorando a sobrevida e a qualidade de vida dos doentes com IC”, frisa a administradora hospitalar.
E Filipa Serra não resiste a anunciar que já foi, entretanto, aprovada a candidatura do CHS à implementação de um programa de telemonitorização domiciliária que prevê a integração de 15 doentes com IC.
No seu entender, “garante-se, assim, um efetivo acompanhamento do doente”, mas também é uma forma de “combater as elevadas taxas de internamento/reinternamento, diminuir a mortalidade e, por isso, os elevados custos associados”.

Elementos da UNIICA fotografados no espaço do Hospital de Dia – em pé: Idalina Lima (médica de família da USF Santiago, representa o ACES Arrábida), Dina Ferreira (enf.ª), Filipa Serra, Pedro Carreira e Ermelinda Pedroso; sentadas: Sara Gonçalves, Isabel Marques (enf.ª) e Violante Nunes (enf.ª)
Uma aposta na articulação com os CSP
Filipa Serra diz que é preciso perceber por que razão chegam cada vez mais doentes descompensados à Urgência do Hospital de São Bernardo, adiantando que deverá haver 61 mil utentes sem médico de família na área do ACeS Arrábida -- que abrange os concelhos de Palmela, Sesimbra e Setúbal --, “que tem sofrido com falta de recursos humanos, médicos e de enfermagem”.
“Temos assim, potencialmente, 61 mil doentes que não estão a ter o devido acompanhamento e que, portanto, em fase aguda, recorrem à Urgência, acabando por originar uma maior pressão sobre o internamento. É um ciclo vicioso”, desabafa a nossa interlocutora, para acrescentar:
“Nós consideramos aqui no CHS, nomeadamente no Departamento de Medicina, que se deve investir na articulação com os cuidados de saúde primários. O hospital não se deve substituir aos CSP, penso que não é esse o caminho, apesar de haver, por vezes, essa tentação…”

Projetos como a UNIICA “nascem dos serviços, como é evidente, mas o administrador tem um papel importante de coesão, de pôr as equipas a falar, de colocar o hospital e os CSP em contacto e ajudar a nível da organização, é esse o nosso grande papel diferenciador”, considera Filipa Serra. A realidade dos CSP não é, aliás, estranha para si, pois, trabalhou alguns anos no ACeS Estremoz e na ARS do Alentejo.
Como o encontro de necessidades levou à criação da UNIICA
Sara Gonçalves, 36 anos, é responsável pela Consulta de IC desde janeiro de 2016, uma consulta multidisciplinar, feita com o apoio da equipa de enfermagem e centrada essencialmente no seguimento dos doentes com IC, cuja proveniência pode ser dos cuidados de saúde primários ou referenciados por colegas do próprio hospital ou que tenham de estar internados.
No entanto, “o doente com IC é muito complexo, com multipatologia, com elevado risco de reinternamento e de visitas ao Serviço de Urgência, que requer uma atenção e cuidados de saúde permanentes a todos os níveis, dos CSP e do hospital, nos seus diferentes polos”.
Sara Gonçalves com Rita Rodrigues, da Consulta de IC
A cardiologista conta que se começou, “de uma forma crescente”, a notar a falta de recursos humanos para dar resposta às necessidades que estes doentes implicam. Por outro lado, devido à sua multipatologia, “sentimos a falta da contribuição de outras especialidades e aí a Medicina Interna tem um papel fundamental”, reconhece.
“Estes doentes não estão só nos serviços de Cardiologia, muitas vezes têm internamentos nos serviços de Medicina. Por outro lado, com todas as patologias que estão normalmente
associadas à IC, a MI é, de alguma forma, a especialidade que pode, juntamente com a Cardiologia, dar-lhes um melhor apoio no tratamento das suas comorbilidades”, afirma Sara Gonçalves.
Com um registo, em 2016, de 540 consultas, 200 doentes em seguimento e 140 internamentos por IC no Serviço de Cardiologia, a médica não tem dúvidas em afirmar que “este número está muito subdiagnosticado, bastante abaixo daquilo que é a realidade”, até porque, sublinha, “é uma doença que atinge 2% da população”.
Para além disso, “é um dos principais motivos de ida à Urgência e de internamento, quer como diagnóstico primário, quer secundário, e certamente existem muitos doentes que não estão a ter o acompanhamento adequado, tanto a nível hospitalar como dos CSP”.
Doente valorizado e privilegiado
Sublinhando que muitos dos doentes com IC chegavam a ter consultas duplicadas, em Medicina e em Cardiologia, Pedro Carreira, 34 anos, assistente hospitalar de medicina interna e co-coordenador da UNIICA, afirma que um dos objetivos do projeto que agora arrancou é que “o doente saia sempre valorizado e privilegiado”.

Ermelinda Pedroso (coordenadora do internamento do Serviço de Medicina Interna) e Pedro Carreira
E sublinha que o trabalho que vai ser feito em conjunto com a Cardiologia permitirá lidar melhor com um tipo de doente que obriga a uma reavaliação 10 dias depois de ter alta.
“Queremos rapidamente começar a receber referenciações dos CSP, para que estes doentes não acabem por ser apanhados apenas na Urgência e quando começam a ter internamentos de repetição. A existência de um elemento de ligação em cada USF vai facilitar toda esta articulação”, garante.
O reforço do apoio da enfermagem no Hospital de Dia é outro aspeto fundamental em todo este processo, no entender de Pedro Carreira. Não só no que diz respeito à avaliação dos parâmetros vitais como também “na componente da educação, em que os enfermeiros são fundamentais, por exemplo, para garantir que o esquema terapêutico está a ser cumprido e que a família do doente esteja envolvida na doença e saiba o que está a acontecer”.
Clínica de IC
Rui Caria, diretor do Serviço de Cardiologia, diz que se deve apostar cada vez mais no conceito de clínica de IC, que é o que, no fundo, se está a fazer no Centro Hospitalar de Setúbal, onde se agrega “a consulta de IC à consulta de seguimento e ao internamento de curta duração ou em hospital de dia”.
O cardiologista, de 53 anos, salienta que, “sendo a IC o endpoint da maior parte das doenças cardíacas, ao tratarmos bem os nossos doentes vamos aumentar a sua sobrevida, significando que, a médio prazo, vamos ter mais casos de IC”. Isso acontecerá sobretudo na patologia coronária, mas também um pouco na valvular.
“Manter o doente na sua comunidade o mais tempo que se puder e com a maior qualidade possível” é, pois, no entender de Rui Caria, a estratégia a seguir, sendo apologista desta aliança entre a Medicina Interna e a Cardiologia para lidar com uma doença com as características da IC.

A reportagem completa pode ser lida na edição de janeiro do Hospital Público.


