Intervir no abuso sexual infantil: «Os cuidados de saúde primários são fundamentais»

"O abuso sexual infantil é claramente um problema de saúde, tendo em conta a sua extensão e impacto", sublinha Paulo Pelixo, da Associação para o Planeamento da Família (APF).

O psicólogo foi um dos oradores da 3.ª edição das Tertúlias FM, um evento organizado há dias pela APF Centro e por médicos internos e ex-internos do Centro de Saúde Fernão de Magalhães (FM), que integra a UCSP Fernão de Magalhães e a USF Coimbra.
 


Em declarações à Just News, Paulo Pelixo relembra que “vivenciar uma situação de abuso sexual infantil aumenta a probabilidade de se desenvolver sintomatologia que evidencia mal-estar psíquico”. E, como especifica, as vítimas tendem a apresentar “sintomas clínicos significativos, dificuldades no relacionamento interpessoal, assim como na aprendizagem”.

Na vida adulta, a situação pode até piorar. “As sequelas resultantes da vivência de abuso sexual podem afetar e comprometer o desenvolvimento futuro das crianças e jovens e, em adultos, têm maior probabilidade de manifestar sintomas de ansiedade e depressão, além de disfunções sexuais”, aponta. Segundo o psicólogo, a dor crónica é também um dos problemas de saúde física que afeta estas pessoas.

E alerta: “Também tem repercussões junto da família que, não sendo vítima direta, sofre com tudo o que se passa.”

Manipulação da vítima "para garantir o seu silêncio"

Questionado sobre os números deste crime, Paulo Pelixo menciona que a realidade portuguesa deverá ser similar à de outros países europeus e recorda um estudo transnacional, publicado em 2009, "que indica que, na Europa, 19,7% das meninas/raparigas e 7,9% dos meninos/rapazes são vítimas de abuso sexual infantil".


Paulo Pelixo

Apesar de não existir um perfil específico dos abusadores e dos pedófilos, na maioria dos casos o crime é cometido por pessoa próxima à criança ou jovem. “Em 46,8% das situações foram familiares, já que envolve quase sempre um processo de grooming, ou seja, a preparação/manipulação da vítima por parte do agressor para garantir o seu silêncio, podendo ser utilizadas várias estratégias para o efeito, o que implica o estabelecimento de uma relação.”



“É fundamental ter profissionais com formação específica”

Para Paulo Pelixo, não há qualquer dúvida de que “o abuso sexual infantil é um problema de e da saúde”. E não hesita em considerar “os cuidados de saúde primários (CSP) fundamentais na deteção precoce e no apoio que podem dar às vítimas".  
 
Na sua opinião, “a atuação dos profissionais deste setor é essencial, quer na deteção precoce de situações, como no desenho e implementação de respostas terapêuticas para as crianças e jovens e para a sua família.”


Paulo Pelixo e Joana Aguiar, presidente da Comissão Organizadora das Tertúlias FM3

O especialista da APF salienta que, “por serem serviços próximos das populações, os cuidados primários dispõem de informação que poderá ser muito relevante para a avaliação e investigação, estando muitas vezes na linha da frente da sinalização, referenciação e encaminhamento. Por vezes, é-lhes também solicitada a intervenção clínica junto das vítimas e das famílias".

Para o psicólogo, podem também ter um papel fundamental a nível da prevenção. Contudo, sublinha, “relativamente aos recursos, é fundamental ter profissionais com formação específica e com disponibilidade para intervir nesta área”.



"É muito importante desenvolver um trabalho de educação sexual"

Fazendo uma avaliação do acompanhamento psicológico das vítimas, Paulo Pelixo faz questão de frisar que a intervenção em abuso sexual infantil não se deve limitar à componente psicológica, que é apenas uma das modalidades terapêuticas.

“Nem todas as vítimas necessitam de intervenção terapêutica, mas quase todas necessitam da educativa, que lhes permita contextualizar os comportamentos abusivos, reenquadrando as suas perceções sobre a sexualidade, ou seja, é muito importante desenvolver um trabalho de educação sexual junto das crianças/jovens vítimas.”

A atenção também não se deve cingir apenas a este grupo. “Existe uma família que também sofre com o impacto destas situações e que precisa de intervenção para se reorganizar. Muitas vezes é necessário mobilizar os recursos da comunidade e, sobretudo, perceber que a intervenção em abuso sexual infantil é, necessariamente, multissetorial e que os serviços com competência para intervir devem estar concertados.”



“Esta edição superou as nossas expectativas”

Joana Aguiar, médica interna na USF Coimbra Centro e presidente da Comissão Organizadora das Tertúlias FM3, partilha da mesma perceção de Paulo Pelixo quanto ao papel e potencial de intervenção dos médicos de família e de outros profissionais dos cuidados primários:

“O abuso sexual infantil é claramente um problema de saúde. Nós somos, muitas vezes, os primeiros a lançar a suspeita, pela proximidade que temos com as famílias e, claro, com as crianças.”


Joana Aguiar

No seu entender, “como somos o primeiro contacto do doente quando precisa de cuidados de saúde, encontramo-nos numa posição privilegiada, que nos permite não só a identificação precoce, como a sua orientação”. Em suma, "somos um elo de ligação com outras entidades”.

"Um fator diferenciador a nível nacional"

As Tertúlias FM promovem o debate de variados temas, mas o que verdadeiramente distingue a reunião é a sua estreita ligação com a APF, o que permite que, desde a primeira edição, exista uma "transmissão mais intensa de conhecimentos" em questões relacionadas com o planeamento familiar e sexualidade.

Joana Aguiar  sublinha mesmo que "a parceria com a APF é claramente um fator diferenciador do nosso evento a nível nacional" e recorda que "o projeto foi idealizado pelo Dr. Luís Paixão (na altura interno da UCSP Fernão de Magalhães), juntamente com a Dr.ª Maria João Trindade, especialista na mesma unidade, membro da APF e grande impulsionadora de formações em contraceção na região Centro".

Esta parceria, "que a APF prontamente aceitou", tem sido ainda mais oportuna dada a realidade do Centro de Saúde Fernão Magalhães, que "abrange uma população mais carenciada da cidade de Coimbra, e também um grande número de população imigrante (maioritariamente de países africanos, sul americanos e asiáticos)".


Paulo Pelixo com elementos da Comissão Organizadora: Tiago Marques, Vera Carnapete, Joana Aguiar, Ana Luísa Mendes, Raquel Sousa, Diogo Abreu e Luís paixão

"Diariamente somos confrontados nas nossas consultas com situações que não têm uma abordagem linear, bem definida. Assim tornou-se clara a necessidade de formação para profissionais de saúde em temas menos abordados em outros congressos e jornadas nacionais", explica a presidente da Comissão Organizadora das Tertúlias FM3.

Um evento que mantém o "ambiente tertuliano"

Apesar desta ter sido apenas a terceira edição, as Tertúlias FM reuniram quase duas centenas de participantes. Contudo, não parte dos planos da Comissão Organizadora alterar o conceito ou a designação do evento, conforme explica a médica:

"O nome Tertúlias surgiu de facto pela ideia de criar um espaço intimista que permitisse a interação fácil entre plateia e oradores e pretendemos que isso continue a ser um factor constante em todas as edições. De facto, esta edição superou as nossas expectativas tendo atingido um número bastante superior de participantes, no entanto, ainda assim, pretendemos que se mantenha o ambiente tertuliano”.

E acrescenta: "Este é já um nome que nos identifica, pelo menos na região Centro."


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