Lançamento do livro «Doenças da Boca e das Glândulas Salivares»

Concluído há um ano, foi lançado no início de maio um manual centrado na boca, parte do corpo humano que atrai as atenções de uma série de especialidades, mas que nem sempre é observada com o devido cuidado. José Saraiva é um dos três coordenadores da obra, que agrega textos de quatro dezenas de autores, ao longo de 27 capítulos, e que foi patrocinado pela Minisom, uma marca Amplifon.  

A sessão de lançamento do livro, que esteve para acontecer várias vezes ao longo do último ano, só agora ocorreu, obviamente, por culpa da pandemia. Em conversa com a Just News, José Saraiva, diretor do Centro de Otorrinolaringologia do Hospital CUF Descobertas, começa por deixar esse esclarecimento.




E acrescenta que a ideia do projeto nasceu há uma meia dúzia de anos, na sequência de um curso de patologia da boca que coordenou, de uma outra ação de formação na área da cirurgia da boca, promovida por Francisco Salvado, diretor do Serviço de Estomatologia do CHU Lisboa Norte, e numa altura em que o otorrino Alberto Santos preparava a sua tese de doutoramento sobre endoscopia de contacto na mucosa oral. Estavam encontrados os três coordenadores da obra!

José Saraiva afirma que "o livro aborda uma área da Medicina de grande importância para várias especialidades, mas que até agora tem sido muito pouco explorada de uma forma sistematizada em edições impressas”.


José Saraiva

"A boca é de todos e não é de ninguém”

Releva, por outro lado, “a forma multidisciplinar como os temas são abordados ao longo dos vários capítulos, contando principalmente com a participação de colegas de ORL e de Estomatologia, mas envolvendo também outras especialidades”. Isso “torna o livro mais interessante, pois, permite observar as várias patologias de diferentes ângulos”.


Segundo José Saraiva, “há pouca coisa publicada de uma forma sistematizada, escrita em português, sobre esta área porque a boca é de todos e não é de ninguém”. E, no entanto, “a boca é o que a maioria de nós observa sistematicamente, do médico de família ao internista, não é só o otorrino que o faz”.


“Eu observo um doente e uma das primeiras coisas que vejo é a boca, que, por ser um bocadinho de todos, acaba por ser apenas, por vezes, uma passagem para ir observar os dentes, a faringe ou a laringe. Mas o estado da boca pode ser sinal de muita coisa, até de problemas noutros territórios”, refere, aproveitando para lembrar que um dos capítulos é dedicado às repercussões das doenças sistémicas na boca.


Convidado a prefaciar o livro, o otorrinolaringologista Nuno Santiago considera que “vai ajudar a esclarecer muitas dúvidas sobre o diagnóstico e tratamento das patologias associadas à cavidade bucal graças à estreita colaboração entre a Estomatologia e a Otorrinolaringologia, sendo certamente de leitura obrigatória para todos os profissionais de saúde que com elas se deparam”.

A obra conta com o apoio científico da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cabeça e Pescoço e da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Oral.



A história da capa…

José Saraiva reconhece que se iria sentir “um pouco incomodado” se a capa do livro Doenças da Boca e das Glândulas Salivares fosse dominada pelas habituais fotos de patologias, demasiado “agressivas”, pelo menos para o fim em causa.

Foi assim que surgiu a ideia de pedir a Susana Sousa, enfermeira coordenadora do Centro de Dermatologia do Hospital CUF Descobertas, que usasse as suas competências ao nível do desenho e da pintura para produzir uma aguarela que dominasse a capa e em que a boca estivesse presente. O resultado está à vista!


Alguns dos autores do livro

A importância da multidisciplinaridade

Francisco Salvado, 64 anos, é diretor do Serviço de Estomatologia do CHUL e docente da FMUL desde 2007. Natural de Nampula, Moçambique, em Portugal foi Trancoso que o adotou. Especialista há 32 anos, está habituado a tratar doentes com patologias da boca e das glândulas salivares.


“A Estomatologia é uma especialidade central neste tipo de doenças, mas o trabalho multidisciplinar é fundamental, permitindo dar a melhor resposta aos doentes. Mantemos uma colaboração muito activa com as especialidades de ORL, Cirurgia Plástica e Dermatologia, como é demonstrado neste livro”, afirma.

Considerando que esta é uma “área muitas vezes esquecida pela classe médica”, vê no manual uma oportunidade para ajudar os colegas, inclusive da Medicina Geral e Familiar, no diagnóstico precoce deste problema de saúde. Francisco Salvado explica que “o objetivo sempre foi ter uma obra que pudesse ajudar na prática clínica, sem ser necessário um grande aprofundamento complexo de cada uma das patologias”.


Francisco Salvado, Alberto Santos e José Saraiva 

Consulta de Doenças da Boca


Alberto Santos, 55 anos, criou uma Consulta de Doenças da Boca no Hospital CUF Descobertas há uns 3 anos, mas há uma década que coordena uma consulta com o mesmo nome no Hospital Beatriz Ângelo, basicamente, desde a sua abertura. Foi no Hospital de Santa Maria que fez a especialidade de ORL e por lá se manteve um total de 18 anos, antes de se mudar para Loures.

“O trabalho que desenvolvemos na Consulta das Doenças da Boca é uma consequência natural do estudo e da reflexão que fazemos da nossa investigação e daquilo que lemos sobre o que vai sendo realizado por outras equipas. Estamos perante uma área de fronteira, multidisciplinar, envolvendo especialidades como a estomatologia ou a dermatologia, por exemplo”, diz o médico.

Sublinhando que a boca tem dois tipos de doenças, “as que incomodam, que são muito frequentes, e as que podem ser mortais”, Alberto Santos considera que “temos muito para progredir numa área em que é mais fácil fazer o rastreio da boca do que da mama ou do melanoma. Qualquer um de nós se olha ao espelho e uma vez por mês consegue fazer essa revisão”.

Um médico que podia ser arquiteto


Natural de Lisboa, onde nasceu a 25 de maio de 1951, José Saraiva recorda que o teste vocacional que nessa época os seus pais quiseram que fizesse indicou que apresentava mais propensão para Medicina ou Arquitetura. Optou pela primeira hipótese, mas reconhece que se sentiria com certeza “confortável” se fosse, hoje em dia, arquiteto.


Quando acabou o curso tinha uma certeza: sentia-se atraído por uma especialidade médico-cirúrgica. Acabou por escolher Otorrinolaringologia. Depois de uma passagem por Évora, onde fez o denominado Serviço Médico à Periferia, iniciou a especialidade em Santa Maria, onde se manteve até 2000 e de onde saiu para a CUF Descobertas.

Fez muita cirurgia de cabeça e pescoço enquanto esteve naquele hospital público, mas depois começou a dedicar-se mais à cirurgia otológica, pela qual se sente bastante atraído.

Ao longo destes anos, têm sido várias as transformações que a especialidade tem tido: desde o crescente peso das mulheres numa especialidade que era quase totalmente masculina até à grande evolução a  que se tem assistido em termos de tratamento médico e cirúrgico.

José Saraiva destaca os avanços registados na cirurgia endoscópica nasal e mais recentemente na otológica, os implantes cocleares, a subespecialização, ou a evolução dos protocolos em Oncologia da Cabeça e Pescoço.



Também o serviço que dirige há 20 anos, desde a abertura da CUF Descobertas, em 2001, é bem diferente do que era então: uma pequena unidade com 4 médicos, um audiologista e um gabinete de consulta. Promovido a Centro de Otorrinolaringologia desde há pouco mais de um ano, tem neste momento 15 médicos otorrinos, 3 audiologistas, uma terapeuta da fala, num espaço com 6 gabinetes de consulta, 2 de audiologia, outros 2 de vertigem e um de enfermagem.

Paralelamente à sua atividade profissional, José Saraiva tem tido uma participação ativa na Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cabeça e Pescoço (SPORL-CCP), tendo integrado várias direções, nomeadamente como secretário-geral em dois mandatos e também como presidente do Conselho Fiscal.



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