Luta contra a tuberculose em Penafiel: interligação entre responsáveis de saúde e da comunidade

Um total de 36,35 novos casos por 100 mil habitantes foi a taxa de incidência de tuberculose registada em 2016 na área de influência do ACES Vale do Sousa Sul, sendo Penafiel o concelho mais afetado, atingindo o valor de 63,59, segundo Fátima Marques, coordenadora da Unidade de Saúde Pública daquele ACES.

A incidência da doença naquela zona do país e, em particular, no concelho de Penafiel, é substancialmente mais elevada do que a média nacional, que em 2015 foi, pela primeira vez, inferior a 20, considerado o limiar de baixa incidência. De qualquer forma, Portugal continua a ser o país da Europa Ocidental com a taxa mais elevada.

Fátima Marques, que é a interlocutora do Programa Nacional para a Infeção VIH, SIDA e Tuberculose naquela região, falou à Just News a propósito da manhã formativa que aquele ACES vai promover esta terça-feira, intitulada “Tuberculose – Saúde e Comunidade”, no Auditório do Museu Municipal de Penafiel.



Prioridade: "reduzir o risco de transmissão da doença na comunidade"

A iniciativa é justificada pelo facto de uma das cinco prioridades do Plano Local de Saúde do ACES Vale do Sousa Sul consistir na diminuição do período de tempo entre o aparecimento de sintomas e o diagnóstico da doença, "reduzindo o risco de transmissão da doença na comunidade".

Nesse sentido, é "necessária formação e treino dos profissionais de saúde, mas também de outros agentes da comunidade".

De acordo com a pneumologista, a distribuição de casos de tuberculose não é homogénea em todo o concelho, havendo 5 freguesias que são as consideradas de risco. “Geralmente, as infeções surgem em trabalhadores de pedreiras, pois, aqui predomina a indústria de extração de pedra”, explicou.

Para a responsável, esta classe profissional é a que apresenta mais casos devido “à falta de condições de trabalho e de higiene, à baixa escolaridade e por muitos deles serem doentes com silicose”. 


Desenvolver esforços em conjunto com a comunidade

Fátima Marques realça que se tem apostado na interligação entre os vários responsáveis de saúde e da comunidade, chegando a realizar-se ações de sensibilização e informação nas juntas de freguesia. Neste processo tem sido importante o papel do Conselho da Comunidade do ACES Vale do Sousa Sul.

E sublinhou terem já sido detetadas situações envolvendo alguns cafés, frequentados habitualmente por estes trabalhadores, "em que basta um estar doente para que, no espaço de um ano, surjam mais casos de infeção entre os clientes" daqueles estabelecimentos.



Um problema de saúde que é também "uma questão social e cultural"

Fátima Marques faz questão de referir que “temos sentido melhorias, não se veem tantos casos avançados de tuberculose, apesar de ainda haver muito trabalho a fazer, nomeadamente, junto dos trabalhadores das pedreiras e das suas famílias.”


O facto de as freguesias de risco terem um número de habitantes baixo leva a que o surgir de apenas mais um caso de tuberculose seja suficiente para fazer aumentar, se forma visível, a taxa de incidência. “Esta é uma realidade que também deve ser tida em atenção, embora, obviamente, seja necessário continuar a apostar na informação e na sensibilização, na prevenção primária, no diagnóstico precoce e na adesão à terapêutica”, observou Fátima Marques.

E acrescentou: “Estamos perante um problema de saúde pública, mas também se trata de uma questão social e cultural, porque a população mais afetada tem pouca escolaridade, problemas económico-financeiros e hábitos tabágicos e alcoólicos muito enraizados", salientando a importância do Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) de Penafiel.



Adesão à terapêutica "vai diminuindo"

Fátima Marques chama a atenção para as dificuldades que existem na adesão à terapêutica, "porque ela se prolonga no tempo". Se, numa fase inicial, devido ao estado de fragilidade dos doentes, existe melhor adesão, "esta vai diminuindo ao longo dos seis meses ou mais de tratamento".

“Enquanto estão de baixa, é fácil tomar os medicamentos no CDP ou na sua unidade de saúde, depois coloca-se o problema de faltarem ao trabalho, a dificuldade em suportar o custo dos transportes para irem fazer a toma observada direta (TOD), etc.” Refira-se que, no ACES Vale do Sousa Sul, enquanto os doentes estão em fase de transmissibilidade da doença, a TOD é feita pela enfermeira no domicílio do doente.

Todas as crianças da região são vacinadas

Assumindo que a luta contra a tuberculose "não é fácil", Fátima Marques destaca o empenho da equipa, afirmando que vão continuar "a informar cada vez mais, para se evitar o contágio e para que, aos primeiros sintomas, se procure o médico e se consiga prevenir a existência de mais fontes de transmissão”.

Indica ainda que, no âmbito de um esforço concertado para reduzir o contágio, todas as crianças que residem nas freguesias de Penafiel onde se registam mais casos de tuberculose recebem a vacina BCG.

Encontrar soluções "em conjunto"

No encontro programado para esta terça-feira, iniciativa que antecede o Dia Mundial da Tuberculose (24 de março), serão debatidos essencialmente casos clínicos, para que “todos os participantes possam atualizar e colocar em prática novos conhecimentos”, como referiu à Just News a enfermeira Iolanda Couto, vogal de Enfermagem do ACES do Vale do Sousa Sul.

Iolanda Couto.

Esta responsável sublinhou ainda a importância destas ações formativas, “como forma de os profissionais de saúde e os restantes membros da comunidade poderem trocar experiências, esclarecer dúvidas e encontrar, em conjunto, soluções”.

Para Iolanda Couto, é fundamental o papel da interligação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, para que se dê “o melhor acompanhamento aos doentes e se consiga controlar cada vez mais este problema de saúde, que é uma responsabilidade de todos”.

A sessão de abertura do evento estará a cargo de Sandra Rita e Susana Oliveira, respetivamente, diretora executiva e presidente do Conselho da Comunidade do ACES Vale do Sousa Sul.

O painel de oradores inclui a coordenadora regional do Programa Nacional para a Infeção VIH, SIDA e Tuberculose, Ana Maria Correia, da ARS Norte, e também a pneumologista Raquel Duarte, que integra aquele Programa.

Elementos da equipa do CDP de Penafiel: Fátima Marques (médica), Oksana Zadorozhnya (médica), Tânia Guimarães (médica), Goreti Silva (secretária clínica), Sandra Vitória (enfermeira), Iolanda Couto (enfermeira), Olga Mendes (técnica) e Filipa Bessa (enfermeira).

 



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