Maioria dos doentes com anemia e insuficiência cardíaca tem falta de ferro

“A grande maioria dos doentes com anemia e insuficiência cardíaca apresenta deficiência de ferro”, adiantou António Robalo Nunes, presidente do Anemia Working Group Portugal (AWGP), no âmbito da primeira sessão de um ciclo de reuniões monotemáticas, organizadas pelo AWGP, intituladas "Conversas de fim de tarde", que se centrou no tema: “Anemia em Cardiologia”.



“Numa percentagem importante de casos ocorre deficiência de ferro sem anemia, cenário este que afeta a qualidade de vida dos doentes e constitui um fator de prognóstico negativo”, mencionou, acrescentando que, por esta razão, o paradigma de abordagem está a mudar, considerando-se atualmente a necessidade de tratar a deficiência de ferro mesmo sem anemia.

António Robalo Nunes explicou que a anemia condiciona a diminuição do transporte de oxigénio aos tecidos e, como tal, constitui um fator de precipitação ou agravamento de insuficiência cardíaca, pelo facto de reclamar “esforço acrescido do coração”, traduzindo-se isso em “intolerância agravada ao exercício, fadiga e dispneia”.

O presidente do AWGP referiu que a real dimensão da anemia é bem maior do que aquela que se conhece, facto que faz com que possa ser considerada uma “epidemia oculta”.

Durante a cerimónia de abertura da reunião, que contou com a presença de Cândida Fonseca, vice-presidente da AWGP, o presidente do Grupo adiantou que dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que cerca de 25% da população planetária apresenta alguma forma de anemia, com distribuições assimétricas em função de diversas faixas etárias, condições fisiológicas e no plano geográfico.



No contexto da insuficiência cardíaca, António Robalo Nunes disse existir um conjunto de fatores que contribuem para a etiologia multifatorial da anemia, como malnutrição, compromisso hematopoiético da medula óssea, hemorragia, inflamação, entre outros.

O estudo epidemiológico, EMPIRE, levado a cabo pelo AWGP, liderado por Cândida Fonseca, encontrou uma prevalência de anemia na população portuguesa de 19,9%, com uma percentagem um pouco mais grave na mulher. Este trabalho, que teve por base os CENSOS 2011, com uma amostra de 8 mil pessoas, concluiu que a perceção e consciência da existência da própria anemia são muito baixas, o que está a motivar o AWGP para um outro tipo de iniciativas relativamente a esta matéria no plano da sensibilização.

Verificou-se, ainda, que apenas cerca de 2% dos indivíduos com anemia estavam a tomar algum agente hematínico para o tratamento destas situações, o que significa que, a somar aos 19,9%, o valor sobre para cerca de 20-21%.

O estudo concluiu que existem dois picos de prevalência na anemia: dos 18 aos 34 anos (inclui as mulheres em idade fértil e as grávidas) e o grupo do idoso, em particular acima dos 75 anos.

Além disso, parece haver um efeito protetor da anemia pelo facto de viver na Região Centro, sendo que a região de Lisboa e Vale do Tejo e no Sul têm prevalências muito acima da média global (19,9%).



António Robalo Nunes sublinhou a importância de se suspeitar do assunto no plano clínico, sendo que um bom tratamento da anemia pode ter um impacto positivo e, ao invés, a ausência de tratamento pode ter um impacto negativo.

E afirmou que é possível considerar a anemia uma doença nalguns quadros, sobretudo de anemias hereditárias, mas é sobretudo uma condição. E frisou que “a anemia não é de certeza um diagnóstico final”.

Por outro lado, não há anemias idiopáticas. “Como condição, a anemia é extremamente democrática, porque afeta todo o percurso de vida, desde o recém-nascido até ao epílogo, fase em que se exprime em forma de comorbilidade muitas vezes relevante e que agrava as situações de base e, muitas vezes, condiciona a resposta a terapêuticas”, indicou.

O responsável sublinhou que é necessária uma atitude proativa na busca da suspeição de quadros de anemia. “Está em causa o metabolismo aeróbio porque o que está comprometido, de uma forma global, é a capacidade de transporte de O2 aos tecidos, independentemente da definição aritmética da anemia que nos é dada pela OMS e em cuja base funcionam todos os estudos de natureza epidemiológica”, explicou.

A reunião teve como palestrantes José Cortez, que centrou a sua palestra no tema “Anemia e laboratório: velhos problemas, novos conceitos”; Ana Farinha, que falou sobre “ Anemia e Rim: o papel principal será meu?”; e Pedro Morais Sarmento, que abordou a temática “Anemia e risco cardiovascular”.

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