Modelo de gestão do SNS «deve ter prémios à instituição e incentivos aos profissionais»

“The money follows the patient” deveria ser, de acordo com Carlos das Neves Martins, o princípio base do modelo de gestão do SNS, que hoje em dia faz “aumentar a ineficiência da oferta pública, a desmotivação dos profissionais e a pressão dos cidadãos”. O ex-administrador hospitalar foi um dos oradores da sessão de apresentação do livro “Da Gestão, em Saúde”, que prefaciou.


Carlos Martins

A apresentação da obra decorreu há já várias semanas, mas a eficiência da gestão em saúde é um tema cada vez mais crítico, como de resto sublinha Carlos das Neves Martins, que presidiu ao Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte. Na sua opinião, o modelo atual de gestão do SNS “está completamente ultrapassado e dissociado da realidade que é hoje o sistema nacional de saúde”.

E afirma serem precisos “objetivos de gestão plurianuais, com avaliação independente, prémios à instituição e incentivos aos profissionais, penalizações ao gestor e à equipa de gestão, com autonomia contratual dentro do business plan aprovado e planos de investimento inovadores, com abertura para partilhas de risco”.



Apresentado como um livro de testemunhos de casos de sucesso na primeira pessoa, o seu lançamento aconteceu no âmbito de uma sessão promovida pela Alumni Association Católica-Lisboa – cuja presidente, Leonor Machado, se encarregou de abrir -- e por Edições Sílabo, tendo como palco o Auditório Cardeal de Medeiros, da Universidade Católica Portuguesa.

“A ideia deste projeto é dizer que na saúde há muito a melhorar em termos de gestão, mas a verdade é que, nesta matéria, já existem excelentes organizações. O que se pretende é precisamente dar a conhecer um conjunto de casos práticos, organizações que, do nosso ponto de vista, são bem geridas”, afirmou João Ralha, gestor, professor do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e coordenador do livro “Da Gestão, em Saúde”.


João Ralha

Ao longo de uma dezena de capítulos, surgem depoimentos de representantes de entidades como o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (Fernando Regateiro), a Administração Regional de Saúde do Centro (João Rodrigues) ou o Hospital da Ordem Terceira (Luís Alvito).

Carlos das Neves Martins sublinhou “a importância objetiva que este livro tem nos dias de hoje, ao demonstrar o quanto é possível fazer com liderança estratégica, com autonomia real, com participação informada, com controlo de gestão e planeamento dinâmico, desde o setor social ao setor público”.



“A importância da gestão estratégica”, ou a procura de “um planeamento cada vez mais dinâmico, mais sistematizado e mais informado” são aspetos que, segundo Carlos das Neves Martins, se distinguem ao longo das páginas de “Da Gestão, em Saúde”. “Tal como visualizamos o profícuo modelo de gestão participativa”, frisa.

Classificando de “irresponsabilidade preocupante” o não assumir que, “sem colocar em causa a importância e o papel do SNS, os fantásticos indicadores de que nos orgulhamos no presente em muito se devem também aos setores social e privado”, afirmaria, mais à frente: “O modelo atual do SNS condiciona o sucesso da gestão pública e potencia as oportunidades de sucesso da gestão social e privada.”



Voltando a referir-se ao modelo que defende (“The money follows the patient”), Carlos das Neves Martins sublinharia: “O gestor público deve ter autonomia para, respondendo pelas suas decisões com resultados operacionais e financeiros, contratualizar e protocolar com o setor social e com o setor privado respostas integradas e complementares, comprando mas vendendo serviços, logo tendo maior eficiência na produção e melhor eficácia na gestão.”

Na sessão de apresentação de “A Gestão, em Saúde”, intervieram também Stephen J. Spann (Faculdade de Medicina de Houston), Francisco Salvado (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa) e Francisco Velez Roxo, coordenador dos programas na área da Saúde da Católica Lisbon e ex-presidente do Conselho de Administração do Hospital Fernando Fonseca. Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, encerrou a conferência.


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