Nem mesmo a tempestade Kristin abalou a equipa motivada e empenhada da USF Pombal Oeste
O inquérito anónimo realizado internamente no final de 2025 permitiu concluir que todos os profissionais da USF Pombal Oeste não só confirmam o bom ambiente que ali existe como afirmam que é com gosto que vão trabalhar todos os dias. Isso mesmo se conclui, aliás, das declarações que se reproduzem nas páginas seguintes, envolvendo elementos dos três grupos profissionais. Seis microequipas garantem o acompanhamento de quase 9900 utentes, em instalações localizadas na vila da Guia. Estas seriam ampliadas em 2015, com o objetivo de concentrar aí os elementos que estavam dispersos por várias extensões de saúde da zona oeste do concelho de Pombal, nessa altura já fazendo parte da UCSP que dois anos depois daria lugar à USF com o mesmo nome. Mariana Pinho Pereira, 36 anos, que assumiu a coordenação em setembro de 2024, lamenta o facto de a Unidade não ter neste momento qualquer interno de MGF, mas sugeriu que se recolhesse o depoimento da recém-especialista Sofia Teotónio, que ali fez a sua formação.
Mariana Pinho Pereira chegou a esta USF da ULS da Região de Leiria em janeiro de 2021 para ocupar a vaga deixada pela médica Helena Santos, que se aposentara, sendo que esta já acompanhava boa parte dos seus utentes há uns 30 anos. Herdou uma lista com perto de 1600 nomes, número que é hoje ligeiramente superior: 1680.
Mariana Pinho Pereira
“Por acaso, não é uma lista assim tão envelhecida, pois, tenho bastantes pessoas entre os 50 e os 70 anos, embora com um número significativo de casos de diabetes, de hipertensão… e também de obesidade, que está na origem de muita apneia do sono”, refere, acrescentando:
“O facto de muitos dos utentes estarem ainda numa fase ativa da vida dá-nos uma oportunidade muito importante de intervir precocemente e contribuir para uma melhor qualidade de vida no futuro."
A coordenadora da USF Pombal Oeste, que tem um ficheiro em que a maior parte dos utentes reside a apenas 5 ou 10 km do Hospital da Figueira da Foz, diz que, quando necessário, acaba por referenciar muitas situações para aquela unidade hospitalar, embora ela pertença à ULS do Baixo Mondego. Até porque, como alguns doentes argumentam, é lá que têm os seus processos há muitos anos e é à respetiva Urgência que recorrem quando precisam.
A diabetes é uma das áreas de que Mariana Pinho Pereira diz gostar particularmente, sendo que doentes não lhe faltam. Ela própria acompanha neste momento cerca de 170 diabéticos (10% da sua lista) e há um diagnóstico regular de novos casos na sua USF.
“A alimentação praticada nesta região, que é tipicamente rural, inclui um grande consumo de carnes gordas e de álcool. E, apesar de a população ingerir muitos legumes, há o hábito de fazer aquelas sopas à moda antiga, cheias de carne, feijão, batata, arroz… A maior parte das pessoas não apresenta sintomas, mas a certa altura as análises começam a indicar um aumento da glicemia e surge o alerta”, comenta a médica.
Recentemente, ao participar numa reunião científica da área da diabetes, Mariana Pinho Pereira chamava a atenção para um aspeto relevante: “Sabemos que a doença afeta múltiplos sistemas, mas raramente integramos a função sexual na avaliação clínica de rotina, apesar de sabermos que é uma complicação frequente. Calcula-se que até 80% dos homens com diabetes experienciem disfunção erétil em algum momento da vida e que 60 a 70% das mulheres com essa patologia refiram alterações do desejo e da lubrificação ou dor.”
“Os doentes sentem vergonha e medo de julgamento, para além de terem a perceção de que a sexualidade não é um assunto médico”, sublinha.
As anteriores coordenadoras, Carina Osório e Ana Paula Marques, com Mariana Pinho Pereira
O interesse pelo tema da sexualidade
A coordenadora da USF Pombal Oeste refere que a sexualidade constitui uma temática pela qual se tem interessado cada vez mais, admitindo que para isso tenha contribuído também o facto de se vir assistindo, nos últimos anos, a uma crescente abertura da sociedade para que se fale do assunto.
“A sexualidade faz parte da vida e contribui de forma muito importante para o bem-estar individual. Contudo, há ainda um grande constrangimento em abordar o tema, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, não só por parte dos utentes mas também dos profissionais. Inclusive, estes interrogam-se sobre como introduzir este tema na consulta e receiam a reação do utente. Ora, importa dizer que, na maioria dos casos, irá reagir muito bem, desde que nós estejamos confortáveis e ele perceba que está à vontade para falar sobre o que o preocupa. No fundo, é isso que procuramos na nossa Unidade, que cada utente encontre aqui um espaço seguro para falar sobre aquilo que o perturba”, refere Mariana Pinho Pereira, prosseguindo:
“Uma conclusão a que já cheguei, conversando com colegas meus, é que o utente do sexo masculino coloca muito mais facilmente alguma dúvida que queira ver esclarecida se o fizer a um médico homem. No meu caso, depois de, por exemplo, prescrever uma estatina a um utente, provavelmente, terei que ser eu a perguntar-lhe se notou alguma dificuldade na ejaculação ou na ereção para ele sentir que pode falar no assunto.”
Esclarecendo que o tema da sexualidade nunca foi abordado nos seus tempos de faculdade e de internato, Mariana Pinho Pereira fez uma especialização avançada em Sexologia Clínica, que terminou no início de 2025, e diz querer prosseguir a sua formação na área, com um especial enfoque na componente prática.
Não hesita em reconhecer que antes de fazer esta pós-graduação não tomava a iniciativa de falar sobre a questão da sexualidade nas suas consultas com a mesma facilidade com que o faz atualmente. E não era por vergonha! “As minhas grandes dúvidas eram ‘Como é que vou poder fazer determinada pergunta sem causar algum desconforto?’ e ‘O que faço depois de ouvir a resposta?’, recorda, acrescentando:
“A verdade é que nós não precisamos de saber responder a tudo, mas sim de ter noção para onde orientar a pessoa, se for esse o caso. Nunca posso achar que é mais confortável simplesmente não perguntar a um utente que queixas tem depois de, por exemplo, lhe prescrever um antidepressivo.”

A equipa de enfermagem completa
Sem luz, sem comunicações e… sem internos!
O início do ano de 2026 não foi nada fácil para a USF Pombal Oeste, concretamente, quando a tempestade Kristin se abateu sobre a região nos últimos dias de janeiro. “Ficámos duas semanas sem eletricidade e ainda mais uma sem comunicações e, portanto, com o sistema informático inoperacional”, recorda a coordenadora.
“Estávamos abertos só até o sol se pôr, que era mais ou menos entre as quatro e meia e as cinco da tarde, porque sem luz não se via rigorosamente nada. Fazíamos as consultas como conseguíamos! Era muito complicado desenvolver a atividade programada normal, renovar o receituário crónico e emitir pedidos de exames. Isso não dava para fazer aqui! Garantíamos o atendimento à doença aguda e passávamos receitas à mão. Entretanto, nesse período, eu e uma colega deslocámo-nos muitas vezes a Pombal porque lá havia luz e podíamos tratar de vários assuntos”, conta, prosseguindo:
“Não sabíamos nunca como ia ser o dia seguinte e, sem comunicações, tínhamos que nos deslocar alguns quilómetros até uma zona onde já houvesse rede de telemóvel para poder contactar, por exemplo, a nossa ULS ou a Câmara de Pombal. Foi duro mas também, ao mesmo tempo, importante para nós percebermos que a equipa está unida e que nas alturas de maior dificuldade temos todos o mesmo objetivo, servir os nossos utentes.”
A vivência desses tempos mais complicados também terá certamente contribuído para que Mariana Pinho Pereira decidisse que valia a pena assinalar este ano o aniversário do início de atividade da USF Pombal Oeste, exatamente no dia 29 de maio, tarefa que ficou a cargo de uma denominada Comissão Faz Festa.
“Eu acho que é importante nós mostrarmos que continuamos a crescer e que temos muito orgulho nesta casa que estamos a construir. E envolvendo os utentes, para eles sentirem que também fazem parte integrante do projeto. Afinal, nós somos 16, mas depois há mais 9900 utentes. Daí considerarmos ser fundamental incluir a comunidade neste tipo de iniciativas”, afirma.
A circunstância de a Unidade não ter agora qualquer médico a fazer o internato não ajuda a que se concretizem mais iniciativas de promoção da literacia em saúde, algo em que, afinal, toda a equipa acredita. “Enquanto tivemos a Dr.ª Sofia Teotónio aqui connosco a fazer o seu internato, que terminou recentemente, realizámos caminhadas e sessões de formação dirigidas aos nossos utentes, porque isso ajuda muito as pessoas a perceberem as doenças e o que podem fazer por elas mesmas para as prevenirem ou para melhor lidarem com elas”, observa Mariana Pinho Pereira.
A coordenadora aproveita, aliás, para comentar: “Gostávamos muito de voltar a ter médicos internos. É algo que nos faz muito bem, desde logo porque nos obriga também a aprender e a procurar estar atualizados. A componente formativa é realmente algo que prezamos bastante, mas este ano nenhuma unidade de Pombal recebeu qualquer interno!”
A reportagem completa à USF Pombal Oeste pode ser lida na edição de julho 2026 do Jornal Médico.


