“Nenhuma técnica cirúrgica terá interesse se não servir o doente”

Ao intervir na sessão de abertura do 5.º Congresso Nacional de Cirurgia do Hospital da Luz (HLL), que se realizou nos dias 25 e 26 de setembro, o cirurgião Rui Maio sublinhou que, ao ser submetido a uma intervenção, “o doente não quer apenas sobreviver, quer viver com a maior qualidade de vida possível”.


Rui Maio


Frisando que “nenhuma tecnologia terá interesse se não servir o doente”, o diretor clínico do HLL deixou claro o seguinte: “Hoje, não basta saber escolher a técnica para retirar o tumor e saber preservar as margens de segurança durante a cirurgia, é preciso operar tendo em conta as diferentes variáveis que estão em jogo, como as possibilidades de preservação do órgão, os tratamentos que o doente fará e a qualidade de vida pós-operatória.”

“No nosso hospital, ninguém com cancro é tratado sem o seu caso ser avaliado e discutido em consulta multidisciplinar, com a participação de médicos das várias especialidades que vão ter de intervir”, afirmou Rui Maio, adiantando, a propósito, que o peso do cancro gastrointestinal no total destas consultas é de cerca de 24%.

Este modelo de tratamento do cancro “beneficia não só os doentes como também o trabalho dos profissionais de saúde”, testemunhou Anisabel Soares, enfermeira diretora.

Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, que também interveio na sessão de abertura, referiu-se a um tema da atualidade, o dos limites dos avanços da tecnologia, para dizer: “Estamos atualmente confrontados com o desafio de definir o que é competência do cirurgião e o que cabe à máquina, mas os limites são os que nós quisermos impor.”


Isabel Vaz

“Neste desafio, temos de nos agarrar aos valores fundacionais da Medicina e o papel da gestão é estar ao lado dos médicos para que, juntos, tenhamos sempre o doente no centro da nossa atividade. Porque há uma coisa que a tecnologia garantidamente não trata: o coração e a alma do ser humano”, referiu, salientando que o doente oncológico “é hoje um doente crónico complexo” e, por isso, “a cirurgia vai muito além dos resultados imediatos”.

Os debates promovidos no 5.º Congresso Nacional de Cirurgia -- em mesas-redondas temáticas constituídas não apenas por cirurgiões gerais, mas também por gastrenterologistas, radiologistas e anatemopatologistas -- foram dinamizados a partir da apresentação de casos clínicos de doentes do Hospital da Luz Lisboa.


Além de uma reflexão sobre as opções seguidas a nível de terapias e de técnicas cirúrgicas, estiveram em destaque temas como as vantagens da cirurgia robótica e minimamente invasiva e o programa ERAS (Enhanced Recovery After Surgery).

De abordagem multidisciplinar a doentes cirúrgicos, em que o HLL é referência internacional, o ERAS permite melhorar os cuidados perioperatórios (antes, durante, depois da cirurgia e a alta hospitalar), conseguindo-se assim uma melhor recuperação do doente.

As mais recentes mudanças e avanços no tratamento do cancro gástrico e esofágico, cólon e reto, fígado, pâncreas e vias biliares foram alvo de abordagem nas conferências proferidas por Maria Bencivenga (Hospital-Universidade de Verona, Itália), Rita Barroca (Hospital Lusíadas), Nelson J. Silva (coordenador da Unidade de Cancro Colorretal do Hospital Cuf Tejo), Thilo Welsch (Hospital Universitário de Frankfurt), um dos cirurgiões mais conceituados da Alemanha na atualidade, e Benedetto Ielpo (Unidade Hepatobiliopancreática do Hospital del Mar, Barcelona), uma das grandes referências europeias em inovação cirúrgica.


Elementos das comissões Organizadora e Científica: João Correia, Constança Marques, Carlota Branco, Rui Maio, Catarina Palma e Joana Soares

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