No «hospital mais pequeno do SNS» a família faz parte integrante do processo de reabilitação

O Hospital Arcebispo João Crisóstomo (HAJC) fica em Cantanhede, a menos de 30 km de Coimbra, presta cuidados de saúde diferenciados e é, assegura a presidente do seu Conselho Diretivo, Diana Breda, “o mais pequeno do SNS”.

Na sua opinião, isso não deixa de ser uma grande vantagem, aproximando-o muito mais da população. O grande problema, diz aquela responsável, prende-se com o facto de estar integrado no setor público administrativo (há outros quatro hospitais na mesma situação), sujeito a um regime jurídico que “não se coaduna com os desafios de gestão diários que são colocados”.

 
Diana Breda: “Queremos um hospital promotor do envelhecimento saudável e da longevidade”

Com menos de 150 funcionários, o objetivo é crescer. Para já, até ao final do ano, o HAJC deverá ver o seu quadro de pessoal aumentado em 10%. Que significado tem? Seria o mesmo que os CHUC contratarem, nas próximas semanas, aí umas 700 pessoas! Ou seja, até ao final do ano, o HAJC deverá ter mais 16 funcionários, de enfermeiros a assistentes operacionais, passando por fisioterapeutas, terapeutas da fala e técnicos de Cardiopneumologia, Radiologia e Laboratório.


Equipa da Unidade de Cuidados Paliativos 

"O respeito pela família é algo que privilegiamos"

“Precisamos de um modelo de gestão verdadeiramente centrado no doente e na sua família e que nos permita pensar no seu percurso e não nas instituições.” Quando Diana Breda diz isto está a referir-se exclusivamente ao hospital que lhe deram para gerir, fez no passado dia 14 de abril um ano. 

"O respeito pela família é algo que privilegiamos", sublinha a responsável. Uma afirmação que é sustentada por diversas iniciativas e procedimentos que têm vindo a ser implementados e por outras boas práticas a que se tem dado continuidade. 



Diana Breda esclarece, por exemplo, que "48 horas depois de o utente aqui dar entrada (nos cuidados paliativos) há uma reunião com a família para que seja informada sobre qual a sua situação e o que é expectável que venha a acontecer. Verdadeiramente, a família faz parte integrante do processo de reabilitação, é mesmo essencial."

E aproveita para recordar uma distinção muito especial que o seu hospital conquistou devido à forma inovadora como preservou a dignidade do doente e da sua família: "Temos muito orgulho no prémio que nos foi atribuído pela International Hospital Federation -- Beyond The Call of Duty Covid-19 --, porque este hospital nunca interrompeu completamente as visitas aos doentes durante o período mais ativo da pandemia."

Fazendo questão de ressalvar que, "obviamente, tivemos que nos adaptar na forma de o fazer", dá um exemplo: "Criámos a figura do gestor de caso, a quem a família telefonava sempre que necessário. Inclusive, promovemos, num espaço ao ar livre, as condições necessárias para que o doente pudesse receber vários familiares em simultâneo, integrando-os no seu processo de reabilitação."


Diana Breda com Artur Carvalhinho (enfermeiro diretor) e Teresa Vaio (diretora clínica) 


Jardim terapêutico para doentes, familiares, profissionais... comunidade

É também nesta lógica de inclusão que o Hospital de Cantanhede está a preparar a construção de um Jardim Terapêutico, num espaço hoje desaproveitado do HAJC.

"O contexto covid deu-nos ideias para fazer coisas diferentes. Essa lógica de utilização do espaço exterior foi realmente prioritária. Começou com as visitas e depois expandiu-se", começa por explicar Diana Breda.

A Administração chegou então a uma conclusão: "Porque não utilizar esta área tão agradável que temos disponível em frente ao edifício, dando às pessoas a oportunidade de continuar o regime terapêutico de reabilitação no exterior do espaço fechado do hospital, até porque elas querem voltar para a terra, para a sua realidade. E estamos a falar de um projeto pensado também para usufruto dos próprios profissionais."

E acrescenta ainda: "Por exemplo, por que razão uma troca de turno tem que ser feita numa sala fechada e não num espaço agradável, ao ar livre? O projeto do jardim terapêutico está a ser desenvolvido conjuntamente com a Câmara de Cantanhede, com as nossas terapeutas sintonizadas com a equipa de engenheiros e de arquitetos municipais."



"Os doentes só vestem o pijama quando vão dormir"

O foco em centrar os cuidados no doente e na sua família pode passar por medidas menos evidentes, como refere: "O HAJC já tinha uma Unidade de Paliativos, aliás, uma unidade reputadíssima, fantástica, com todas as boas práticas e que até já recebeu vários prémios, e uma Unidade de Convalescença, que funciona numa lógica muito interessante. Os doentes só vestem o pijama quando vão dormir."

E no resto do tempo? "Andam com a sua própria roupa, porque a ideia é, após o internamento num hospital de agudos, virem convalescer, mas irem ao ginásio todos os dias, almoçarem no refeitório, etc."

Diana Breda salienta que esta "é uma lógica muito diferente". Por outro lado, a criação da Unidade de Medicina Interna traz outra mais-valias: "Eu acho muito virtuoso que os internistas tenham esta experiência da convalescença, porque eles encaram os doentes da própria Medicina Interna, que são agudos, numa outra perspetiva. Mas nós temos conseguido resultados que entusiasmam os nossos médicos."

Equipa da Unidade de Convalescença


"Um hospital que fosse próximo das pessoas"


Diana Breda deixou para trás um dos maiores centros hospitalares do país, em Coimbra, mas garante que aceitou o desafio sem hesitar. E como surgiu o convite para liderar o HJAC? "Recordo-me que não estava nada à espera. Quem me lançou o desafio sabia que era muito difícil para mim dizer não. E o repto que me foi lançado foi criar, até em termos de modelo conceptual, um hospital que fosse próximo das pessoas."

Diana Breda é administradora hospitalar de carreira, com praticamente 20 anos passados no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, a primeira metade desse período ainda como Hospitais da Universidade de Coimbra.

Valorizando a relação que existe com a Câmara Municipal de Cantanhede, com a ARS Centro e com o ACES Baixo Mondego, afirma querer estreitar ainda mais a ligação às unidades de Cuidados de Saúde Primários da zona. Com ligações ao CHUC e parcerias com o IPO de Coimbra, o HAJC recebe agora estudantes da FMUC para estágios voluntários e já foram concretizados dois projetos EIT Health em ligação com o Biocant (Centro de Inovação em Tecnologia).

A transformação digital, no âmbito de uma estratégia de mudança, também está em curso, envolvendo o investimento de quase 800 mil euros em desmaterialização clínica e não clínica, graças ao SAMA (Sistema de Apoio à Desmaterialização Administrativa).



O Hospital de Cantanhede passou a designar-se Hospital Arcebispo João Crisóstomo a partir de fevereiro de 1994, em homenagem a João Crisóstomo de Amorim Pessoa, arcebispo de Braga e par do Reino que, sendo natural de Cantanhede, legou todos os seus bens à Santa Casa da Misericórdia local, com o compromisso de construção de um hospital.



A entrevista, que inclui também declarações da diretora clínica, Teresa Vaio, e de Artur Carvalhinho, enfermeiro diretor, pode ser lida na edição 30 do jornal Hospital Público.

Dirigida a profissionais de saúde e distribuída em serviços e departamentos de todos os hospitais do SNS, esta publicação da Just News tem como missão a partilha de boas práticas, de boas ideias e de projetos de excelência desenvolvidos no âmbito do SNS, facilitando a sua replicação.

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