«O médico de família tem vindo a ganhar cada vez mais sensibilidade para a doença músculo-esquelética»
Esta é a história de um projeto que arrancou há 10 anos, quando o fisiatra Rui Vaz se encheu de coragem e decidiu avançar para a edição de um livro dedicado à patologia músculo-esquelética e especialmente dirigido à Medicina Geral e Familiar. Depois desse, seguiram-se outros três volumes… E um 5.º está para chegar!
Desde que em 2013 chegou ao Hospital Senhora da Oliveira, como especialista em Medicina Física e de Reabilitação, que Rui Vaz começou a dedicar muito do seu tempo à patologia músculo-esquelética.
Contrariamente ao que tinha experienciado no Hospital de Santo António, onde permaneceu mais de um ano após concluir o internato, o interesse pelo estágio opcional em MFR dos internos de MGF cresceu, em Guimarães, de forma evidente e em muito pouco tempo.
“Começámos a ter, entre 2013 e 2014, muitos internos de MGF a quererem realizar o estágio opcional de MFR no nosso Serviço. Eu fazia muita consulta de patologia músculo-esquelética, que, de facto, apresenta uma grande prevalência e incidência nos cuidados de saúde primários, e eles questionavam-se. Como se faz um exame físico? Como se avalia? Como se orienta o doente? Para quem? Como? De que maneira?”, recorda Rui Vaz, acrescentando:
“Senti que havia ali uma grande curiosidade por parte dos internos relativamente à patologia que me é mais querida, com vontade de saberem como lidar com ela, como diagnosticar e como dar resposta aos doentes. E era compreensível que isso acontecesse porque, realmente, na faculdade, nós não tínhamos muita formação a nível do exame físico no âmbito da patologia músculo-esquelética. E o médico de família acaba por se dedicar muito à hipertensão, à obesidade, à diabetes... apesar de as lombalgias, as dores no ombro e as dores no joelho serem tão frequentes.”
Rui Vaz reconhece que, algures em 2014, começou a sentir a necessidade de “fazer qualquer coisa” que contrariasse essa realidade, e isso mesmo lhe foi sendo sugerido por uma e outra
pessoa, nomeadamente, a médica Carla Pereira, que também fez o estágio opcional de MFR como interna de MGF em Guimarães e que hoje é coordenadora da USF Fafe-Sentinela. 
Rui Vaz
Foi assim que, com o apoio da Tecnifar, surgiram as “Tertúlias em Medicina Física e de Reabilitação”, formalmente organizadas pelo Serviço de MFR do então CH do Alto Ave, com coordenação de Rui Vaz e tendo como alvo internos de MGF. As seis sessões programadas realizaram-se entre março e novembro de 2015, sempre a uma quarta-feira, e no próprio Hospital Senhora da Oliveira. De referir que as inscrições disponíveis esgotaram numa hora!
A mesma médica interna referida dois parágrafos atrás, que obviamente participou nas Tertúlias, destaca-se novamente na forma como incentiva o fisiatra a compilar num manual toda a
informação que foi sendo partilhada no âmbito dessa iniciativa formativa e que faria todo o sentido que chegasse a um conjunto de médicos muito superior aos que nela tinham participado.
Na prática, o projeto do livro Patologia Músculo-Esquelética para Médicos de Família nasce no início de 2016, com Rui Vaz convencido de que se trata de uma obra que iria ser “de toda a utilidade para internos de MGF mas também para os próprios recém-especialistas”. O apoio da Tecnifar ao projeto foi concedido sem hesitações por parte daquela companhia farmacêutica.
A importância da interação dos cuidados de saúde hospitalares com os CSP
A maioria dos capítulos do que viria a ser o 1.º volume do livro refletia aqueles que tinham sido os temas das “Tertúlias em MFR”: “Osteoartrose”, “Osteoporose”, “Ráquis”, “Anca”, “Ombro”, “Cotovelo, punho e mão”, “Joelho”, “Tornozelo e pé”. No entanto, Rui Vaz decidiu adicionar mais um capítulo: “Paralisia facial periférica”, de que foi autora, aliás, a então ainda médica interna Carla Pereira. Mas o conteúdo não ficou por aí!
Consciente de que os médicos de família “têm que perceber alguma coisa sobre exercício físico para o prescrever aos seus utentes”, o fisiatria adicionou o capítulo “Prescrição de exercício físico e fortalecimento muscular na população geriátrica”. E um último intitulado “Medicina Desportiva”. Praticamente todas as três dezenas de autores deste 1.º volume – cujo lançamento oficial aconteceu dia 2 de março de 2017, em Guimarães – eram internos, dois terços dos quais de MGF e os restantes de MFR e de Ortopedia.
“Eu sempre considerei ser muito importante que o conteúdo de um livro deste género fosse feito por médicos de família para médicos da família – mais precisamente internos em formação –, de forma até a evitar o uso daqueles vocábulos técnicos que nós, nomeadamente fisiatras e ortopedistas, temos tendência a empregar. A ideia sempre foi que o discurso fosse o mais prático possível, embora com a nossa ajuda e coordenação”, explica o mentor do projeto.
Na Nota Introdutória do volume de 2017 – de que Rui Vaz só tem um exemplar, tendo a edição esgotado rapidamente –, o fisiatra fez questão de sublinhar que “a interação dos cuidados de saúde hospitalares com os CSP é de extrema importância para uma melhor capacidade diagnóstica e terapêutica no âmbito do doente com patologia músculo-esquelética”.
No Prefácio assinado por José Novais de Carvalho, o então presidente do Conselho Clínico e de Saúde do ACeS Alto Ave também deixa expresso que “a integração dos CSP neste projeto é fundamental e oportuna para uma articulação que necessariamente se deseja, como base para uma melhor prestação de cuidados numa área que se pretende bem regulada, em benefício dos serviços e dos doentes”.
A notícia completa pode ser lida na edição de abril do Jornal Médico.


