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«O objetivo é termos uma Consulta de Sexualidade aberta à comunidade do ACES Cascais»

Foi no decorrer deste ano que foi constituída a Consulta de Sexualidade na USF Artemisa, no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Cascais. À frente do projeto está a recém-especialista médica de família Jéssica Martins.

Na sua opinião, “enquanto médicos de família, faz todo o sentido que a primeira abordagem seja feita por nós”, ressalvando que “sempre que se trate de uma questão mais específica procede-se ao encaminhamento do caso para os profissionais com maior competência”.

Jéssica Martins afirma que, “muitas vezes, os utentes têm apenas dúvidas e medos e basta-nos abordar essas questões e normalizar”. Nota ainda que “muitos receios e informações erradas veiculadas resultam do acesso clássico à pornografia, que dá muito ênfase ao prazer masculino e muito pouco ao prazer feminino, dando à população uma noção da sexualidade muito redutora, que, frequentemente, só com a educação para a saúde deixa de existir”.

Jéssica Martins

"Queremos alargar esta dinâmica a todos os colegas do ACES"

Por esse motivo, após realizar a formação prática de Sexologia Clínica, que deverá acontecer em 2024, com um colega do Hospital Egas Moniz, e adquirir a competência, o objetivo será criar uma Consulta de Sexualidade aberta à comunidade do ACES Cascais.

“Enquanto internamente, quando os colegas têm dúvidas, procuram falar comigo, o intuito será alargar essa dinâmica a todos os do ACES, à semelhança do que acontece com a Consulta de Apoio Intensivo à Cessação Tabágica", afirma.

Por ter sido das últimas especialistas a integrar esta USF, Jéssica Martins herdou parte da lista de uma médica de outra unidade do ACES, que foi completada com utentes vindos da UCSP Parede que não tinham equipa de saúde familiar. Por esse motivo, grande parte da sua lista é constituída por estrangeiros, maioritariamente dos PALOP e do Brasil, e também da Ucrânia, Moldávia, Rússia e China.

“Muitos vêm para Portugal em idade jovem e acabam por integrar o mercado de trabalho e constituir família cá”, revela, notando tratar-se de “uma população com um contexto cultural diferente e um nível educacional muito díspar, desde doutorados a analfabetos, o que é desafiante e exige que a comunicação seja adaptada”.



"Tem de ser o médico de família a abrir a caixa de Pandora"

No âmbito da sexualidade, a médica distingue a diferença na forma como a população oriunda do Brasil, por exemplo, encara o tema: “Os utentes brasileiros mostram muito mais abertura e tranquilidade, enquanto os portugueses são mais reservados e abordam menos essas questões.”

Jéssica Martins encontra uma possível explicação no facto de “sermos um povo culturalmente católico”, o que leva a que “tenha de ser o médico de família a abrir a caixa de Pandora, pedindo sempre autorização para falar sobre esse campo, que é tão íntimo, como aliás revelam os estudos”.

A nossa interlocutora refere ser frequente “haver utentes a viver com queixas há vários anos e que, por vergonha, nunca se sentiram à vontade para partilhar, e o profissional de saúde também nunca questionou, e que podiam ser atendidas em consulta”. No caso dos homens, refere-se, por exemplo, à disfunção erétil e à ejaculação precoce, “assuntos que raramente são abordados pelos próprios, mas sim pelas mulheres”.

"A sexualidade é muito pouco abordada durante o curso de Medicina"

Natural da Madeira, foi nessa ilha que Jéssica Martins fez o internato de Formação Geral e de MGF, após estudar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Contudo, tinha bem presente o desejo de regressar ao continente, para integrar uma USF. “Era algo que me entusiasmava muito e que na Madeira ainda não existe”, refere. Foi o que acabou por acontecer. Três meses após concluir o internato, finalizado em março de 2023, começou a trabalhar na USF Artemisa.

A médica adianta que foi durante o internato de MGF que despertou o seu interesse pela área da sexualidade, “uma temática muito pouco abordada durante o curso de Medicina, mas frequentemente trazida pelos utentes à consulta”. Sentia, por isso, que “não tinha preparação suficiente para desenvolver certos aspetos em consulta”, o que a levou a fazer duas pós-graduações, em Terapia de Casal e em Sexologia Clínica.

“Para mim, foi uma surpresa descobrir que a sexualidade é uma parte muito importante da saúde global dos utentes e que existem algumas queixas que surgem anos antes de um enfarte ou de um AVC, por exemplo. Tal leva-nos a conseguir atuar na prevenção, algo de que não tinha noção”, destaca.

Entretanto, integrou o Grupo de Estudos da Sexualidade da APMGF, o que lhe tem dado a oportunidade de participar no desenvolvimento de alguns projetos de educação para a saúde e de capacitação dos colegas para esta área, “incentivando-os a questionar os utentes e partilhando ferramentas que os ajudem a orientá-los”.



A entrevista com Jéssica Martins pode ser lida na edição de novembro do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários, no âmbito de uma reportagem à USF Artemisa, unidade coordenada por Margarida Caetano, e onde se fica a conhecer alguns dos projetos desenvolvidos pelos profissionais.

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