Portugal está «ainda muito atrasado» na ligação entre médicos de família e internistas

Já está a ser preparado o Congresso Nacional de Medicina Interna do próximo ano, que terá como presidente da Comissão Organizadora João Araújo Correia, diretor do Serviço de Medicina do Hospital Geral de Santo António, Centro Hospitalar do Porto. O evento, que decorrerá no Centro de Congressos da Alfândega do Porto entre os dias 25 e 28 de maio de 2017, tem como lema “Porto de Confluências” e o programa terá algumas novidades.

Além dos internistas, o Congresso destina-se a outros profissionais de saúde, tais como os especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF). Segundo o presidente da Comissão Organizadora, a maioria dos doentes chega ao internista através do Serviço de Urgência, o que significa que não existe diálogo entre o médico hospitalar e o médico de família, que permita o internamento direto do doente a partir do ambulatório.


95% dos doentes chegam ao internista através do Serviço de Urgência

Em entrevista à Just News, publicada no Jornal Médico de setembro, João Araújo Correia afirma que Portugal está ainda muito atrasado no que respeita à ligação entre os médicos de família e os internistas. É, por isso, um objetivo do Congresso chamar à participação neste evento especialistas em MGF para tentar que esta realidade melhore.

Segundo o nosso entrevistado, “os internistas recebem 95% dos doentes através do Serviço de Urgência, o que significa que, por um lado, a MGF não dá resposta à doença aguda e, por outro, não há diálogo entre o médico hospitalar e o médico de família”.

“Sabemos que grande parte dos reinternamentos hospitalares ocorre porque os internistas não conseguem falar com os especialistas de MGF”, levando a que o acompanhamento do doente após a alta não seja o mais eficaz, acrescenta.

Para que a Medicina Interna possa crescer mais, João Araújo Correia defende, também, a existência de uma parceria real entre médico e enfermeiro, como acontece em algumas áreas do Serviço que dirige. Para isso, é importante que se caminhe para a especialização dos enfermeiros.

“É muito diferente tratar diabéticos e pé diabético e estar a tratar doença reumatológica ou insuficiência cardíaca”, comenta. Pretende-se criar no Congresso sessões que abordem temas em que os enfermeiros possam ser chamados, como é o caso dos cuidados paliativos, onde o trabalho dos enfermeiros é tão importante como o dos médicos.

Hospitalização domiciliária “é a melhor maneira de ter mais camas"

Entre outros temas abordados na entrevista, João Araújo Correia considera a hospitalização domiciliária outra das áreas em que se deveria investir num futuro próximo. Na sua opinião, esta “é a melhor maneira de ter mais camas, sem que isso custe mais ao erário público”. Além disso, é a melhor forma de obter resultados, desde que sejam cumpridos os itens necessários, porque os doentes não saem da sua própria casa para efetuar o tratamento.

No entanto, refere, “para que a hospitalização domiciliária possa acontecer, são necessárias equipas de médicos e enfermeiros, com capacidade técnica, meios de transporte e ligação ao hospital por via informática”.

Diretor do Serviço de Medicina do CHP desde julho de 2010

João Araújo Correia tem 56 anos e nasceu em Peso da Régua. Foi pela influência do seu avô, que também era médico (tal como o seu pai), que optou pela Medicina, apesar de ter ainda hesitado entre esta e o Direito. 

É licenciado no Curso Médico do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS/Hospital de Santo António), em 1983, tendo feito a sua Formação Específica de Medicina Interna no Hospital de Santo António, sendo titulado como especialista, em janeiro de 1993. Exerceu funções como internista no Hospital Distrital de Lamego e no Hospital de Santa Maria Maior, em Barcelos, antes de ter reingressado no Hospital de Santo António, em janeiro de 1995.

Exerce funções como diretor do Serviço de Medicina do Centro Hospitalar do Porto desde julho de 2010, sendo também professor auxiliar convidado de Clínica Médica II do Curso de Medicina ICBAS/CHP. De 2006 a 2009, exerceu funções como presidente do Colégio de Especialidade de Medicina Interna da Ordem dos Médicos. É, atualmente, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. 

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