Prémios Santa Casa Neurociências «privilegiam, em 2016, projetos de investigação com componente clínica»

Termina já no próximo dia 12 de setembro o prazo para a submissão de candidaturas aos Prémios Santa Casa Neurociências. Segundo Rita Chaves, responsável pela iniciativa, o objetivo é distinguir projetos de investigação que descubram soluções clínicas para a cura de doenças neurodegenerativas, associadas ao envelhecimento, e de lesões vertebromedulares, tendo estas forte impacto pessoal e familiar, nos casos de paraplegia ou tetraplegia.

“A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) dá especial atenção às doenças de Alzheimer e de Parkinson, atendendo ao facto de apoiar cerca de 11 mil idosos. Por outro lado, dedica-se diariamente a acompanhar casos de lesões vertebromedulares, até porque integra o Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão (CMRA), uma referência hospitalar de excelência neste âmbito”, afirma à Just News.

A SCML atribui, assim, anualmente, dois prémios, no valor de 200 mil euros cada. “O Prémio Mantero Belard distingue o melhor projeto de investigação na área das doenças neurodegenerativas, enquanto o Prémio Melo e Castro financia a investigação que mais se destacar, no âmbito das lesões vertebromedulares”, explica Rita Chaves.



Projetos com componente clínica

Rita Chaves sublinha que, em 2016, "são privilegiados os projetos de investigação com componente clínica que contribuam para recuperar e melhorar a qualidade de vida das pessoas afetadas".

Para submeterem a sua candidatura, os participantes devem aceder ao portal www.candidaturasneurociencias.scml.pt,  preencher o formulário de inscrição e anexar o projeto de investigação e os documentos solicitados.

Os Prémios Santa Casa Neurociências estão abertos a portugueses ou profissionais de outras nacionalidades, com residência em Portugal, que sejam professores ou investigadores em instituições portuguesas de ensino superior, de saúde ou centros de investigação públicos ou privados.

De acordo com Rita Chaves, são aceites parcerias ou colaborações com instituições, universidades e investigadores de outras nacionalidades, desde que não representem mais de 50% do grupo de pessoas ou de instituições.

Os regulamentos dos Prémios podem ser consultados aqui.


Produção científica portuguesa triplicou entre 2003 e 2013


Rita Chaves afirma “ter-se vindo a verificar uma diminuição progressiva do investimento do Produto Interno Bruto em Investigação & Desenvolvimento, desde 2009 – (2009 – 1,58%, 2010 - 1,53%, 2011 – 1,46%, 2012 – 1,37%, 2013 – 1,33%, 2014 – 1,29%)”.

E acrescenta: “Este constrangimento, aliado ao facto do PIB português ser claramente mais baixo, no contexto dos países desenvolvidos, provoca a diminuição do valor financiado a cada investigador.”

Ainda assim, segundo acrescenta, e aludindo a dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), o crescimento da produção científica portuguesa triplicou entre 2003 e 2013, colocando Portugal a meio da tabela dos países europeus.

Tal como refere, em termos mundiais, as Neurociências têm usufruído de grandes avanços em domínios tais como o comportamental, o molecular, o celular, o sistémico e o cognitivo.
“Podemos dizer que entramos na ‘era dourada das Neurociências’, o que foi potenciado pelo Human Brain Project, um projeto cofinanciado pela União Europeia, no valor de 1,2 biliões de euros, disponibilizado durante dez anos (2013-2023), contando com a colaboração de 116 parceiros de diversas organizações europeias”, menciona.

É de referir que o Human Brain Project tem como objetivo desenvolver pesquisas inovadoras que possam permitir aos investigadores científicos e industriais o avanço no conhecimento em campos tais como as Neurociências, a computação e a medicina relacionada com o cérebro.



Avanços das investigações apoiadas

Quanto aos Prémios Santa Casa Neurociências – criados no final de 2012, na sequência de um desafio do provedor Pedro Santana Lopes --, são de destacar os avanços feitos pelas
investigações das equipas lideradas pelos vencedores da edição de 2014 -- Rodrigo Cunha (Prémio Mantero Belard), e Moisés Mallo (Prémio Melo e Castro).

Recentemente, a equipa de Rodrigo Cunha, da Universidade de Coimbra, descobriu como eliminar os primeiros sintomas da doença de Alzheimer em modelos animais, descoberta feita em colaboração com uma equipa de investigadores franceses.

“O hipocampo, estrutura que desempenha um papel fundamental na ‘gestão de informação’ no cérebro, é responsável pela seleção e validação da informação relevante, assim como da eliminação da inútil. Quando ocorrem falhas, o hipocampo assume que toda a informação é irrelevante”, explica Rita Chaves.

E continua: “A equipa de investigadores descobriu que a origem destas falhas se encontrava no funcionamento excessivo de recetores A2A para a adenosina, envolvidos na comunicação cerebral, que impediam a capacidade do hipocampo separar a informação relevante da não relevante. Os investigadores produziram então um ‘vírus’ que, ao interferir com o funcionamento dos recetores A2A, possibilitou a eliminação dos primeiros sintomas da doença de Alzheimer em modelos animais.”

Por outro lado, o laboratório de Moisés Mallo, do Instituto Gulbenkian de Ciência, que tem investigado o código genético que controla o desenvolvimento do tronco e da cauda em vertebrados, fez experiências com ratos que têm troncos particularmente longos ou especialmente curtos. “Concluíram que o principal controlador do desenvolvimento do tronco era o gene Oct4, um dos reguladores essenciais das células estaminais, o que pode contribuir para a regeneração da medula”, indica.

De referir que, que além dos Prémios Santa Casa Neurociências, a SCML criou, também, em 2015, o Programa de Investigação em Esclerose Lateral Amiotrófica, com o intuito de dinamizar a investigação científica no âmbito desta patologia.

“Ainda no que às Neurociências diz respeito, e na continuidade do pioneirismo do provedor Melo e Castro, que inaugurou o CMRA, em 1966, Pedro Santana Lopes anunciou, nos 50 anos do mesmo, a construção do Centro de Investigação Científica em Alcoitão, dedicado à investigação em lesões vertebromedulares”, conclui.

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