"A vontade de desestigmatizar a doença mental grave conduziu, em alguns contextos, a uma perda do valor da Psiquiatria no tratamento"

Em entrevista à Just News, Luís Madeira, 44 anos, presidente da SPPSM, defende a necessidade de reforçar a Psiquiatria enquanto disciplina médica e alerta para os desafios que atualmente condicionam a resposta às pessoas com doença mental grave.

“Existe uma distribuição muito desigual de psiquiatras em Portugal, com maior concentração no Norte e importantes dificuldades em regiões como o Algarve”, resume Luís Madeira. Para o presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), esta assimetria exige medidas estruturais e políticas de fixação de especialistas, recordando que, noutros países, como o Reino Unido, foram criados incentivos específicos para atrair médicos para zonas com menor cobertura assistencial.

Na sua perspetiva, contudo, o problema ultrapassa a mera distribuição de profissionais: “A vontade legítima de combater o estigma associado à doença mental acabou, em alguns contextos, por contribuir para uma devalorização da Psiquiatria e da própria expressão social da doença mental. De facto, o discurso social, político e legislativo tem passado, muitas vezes, a privilegiar exclusivamente a expressão ‘saúde mental’, relegando para segundo plano a doença mental e a Psiquiatria.”



Luís Madeira considera importante reconhecer que a promoção da saúde mental e o combate ao estigma constituem objetivos essenciais, mas não devem fazer desaparecer o reconhecimento da doença mental enquanto realidade clínica:

"O resultado é uma indiferenciação entre sofrimentos de natureza e gravidade muito distintas. Surgem dois movimentos em simultâneo: psiquiatriza-se o sofrimento normal da vida e, ao mesmo tempo, perde-se de vista a doença mental propriamente dita. Isto gera confusão sobre quem necessita efetivamente de cuidados especializados, a quem deve recorrer e que tipo de tratamento é adequado."

“Ao mesmo tempo, assistiu-se a uma expansão muito relevante da Psicologia e de outras áreas da saúde mental, o que representa um desenvolvimento positivo. O desafio é garantir que esse progresso não conduza à desvalorização da especificidade da Psiquiatria”, afirma.

A escassez de especialistas constitui, contudo, apenas parte do problema: “À insuficiência de psiquiatras junta-se a falta de recursos para constituir equipas multidisciplinares completas. Em muitos serviços, a atividade acaba inevitavelmente concentrada na urgência e no internamento. Ora, os doentes com doença mental grave necessitam de acompanhamento continuado na comunidade, sem o qual aumentam significativamente a morbilidade e as suas consequências pessoais, familiares e sociais.”

O problema de sempre: o estigma

Apesar da crescente atenção dedicada à saúde mental, Luís Madeira considera que continua a existir um desafio importante: garantir que a valorização do sofrimento psicológico não conduza à desvalorização da doença mental enquanto realidade clínica:

“Existe o risco de a doença mental ser progressivamente diluída num conceito muito abrangente de sofrimento mental. São dimensões relacionadas, mas não equivalentes. A primeira exige frequentemente intervenção médica especializada; a segunda inclui muitas experiências humanas que não correspondem necessariamente a uma doença.”

Na sua perspetiva, “parte do estigma historicamente associado à Psiquiatria resulta de um contexto em que existiam poucas opções terapêuticas eficazes, criando a perceção de que a doença mental era inevitavelmente incapacitante ou intratável”.

Entretanto, “nas últimas décadas, assistimos a uma evolução muito significativa. Hoje, dispomos de tratamentos farmacológicos, de neuromodulação, psicoterapêuticos e psicossociais que permitem melhorar substancialmente a qualidade de vida de muitos doentes. Esse progresso não deve fazer esquecer que continuam a existir doenças mentais graves, que necessitam de diagnóstico e de tratamento especializados”.



No entender de Luís Madeira, importa igualmente evitar uma tendência crescente para interpretar todas as formas de sofrimento exclusivamente através de explicações psicológicas ou sociais:

“É importante reconhecer o contexto biográfico, social e relacional de cada pessoa. Mas isso não significa que toda a experiência de sofrimento possa ser compreendida apenas dessa forma. Se perdermos a capacidade de reconhecer a doença mental enquanto entidade clínica, corremos o risco de dificultar o acesso das pessoas aos cuidados de que efetivamente necessitam.”

Outro aspeto que o preocupa prende-se com o atraso no acesso aos cuidados especializados:

“A falta de psiquiatras em algumas regiões do país constitui um obstáculo importante, mas não é o único. O estigma continua a levar muitas pessoas a adiar a procura de ajuda. Acresce que nem sempre a doença mental é facilmente reconhecida por profissionais de outras áreas da saúde, sobretudo quando se apresenta de forma menos evidente.”

Curiosamente, os casos mais graves nem sempre são aqueles que suscitam maior atenção:

“Na prática clínica, verifica-se frequentemente que as situações mais expressivas do ponto de vista emocional não correspondem necessariamente às mais graves. Um doente com depressão major grave pode apresentar-se profundamente inibido, falar muito pouco e ter enorme dificuldade em pedir ajuda. Pelo contrário, situações clinicamente menos graves podem ser muito mais visíveis. Esta diferença obriga a uma avaliação clínica cuidadosa e não apenas à valorização da intensidade aparente das queixas.”

É por isso que muitos doentes acabam por ser referenciados por familiares ou outras pessoas próximas, salienta Luís Madeira:

“Em diversas doenças mentais graves, a própria capacidade para reconhecer que existe doença pode ficar comprometida. Nessas circunstâncias, a intervenção da família ou de outros cuidadores torna-se frequentemente determinante para que o doente chegue aos cuidados de saúde.”

Diferente é o caso das perturbações de adaptação ou das situações de burnout, pois, “nestes quadros, a pessoa mantém habitualmente consciência das alterações que está a experienciar e procura ajuda precisamente porque reconhece que o seu funcionamento habitual se alterou”.

O psiquiatra chama ainda a atenção para a necessidade de um diagnóstico diferencial rigoroso perante alguns quadros de síndrome de burnout:

“Existem apresentações clínicas, nomeadamente formas marcadas por irritabilidade, insónia, aceleração e aumento de energia, que podem aproximar-se fenotipicamente de episódios afetivos. É essencial estabelecer corretamente o diagnóstico, porque estratégias terapêuticas adequadas para uma síndrome de burnout ou um episódio depressivo unipolar ou bipolar são bastante distintas.”







A entrevista completa com Luís Madeira pode ser lida na edição de setembro 2026 do Jornal Médico:

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