Doença mental: «Não podemos descurar quem já estava a ser acompanhado»

Lembrando que existe atualmente "mais depressão, ansiedade e perturbação de stress pós-traumático", a presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), Maria João Heitor, alerta: "Não podemos perder de vista os doentes não covid!".

Em entrevista à Just News, a médica diz-se preocupada “com o risco de subvalorização daquilo que não esteja diretamente ligado à pandemia”.

A psiquiatra recorda o impacto das mudanças ocorridas "a nível individual, em termos de conciliação trabalho-família e económico", acrescentando:

"A morbilidade psiquiátrica aumentou, quer através do efeito direto do vírus no sistema nervoso central e na ativação da resposta imunológica e inflamatória, quer pelas consequências psicológicas de adaptação a uma situação que é indutora de stress."


Maria João Heitor

Maria João Heitor menciona também que "existe uma maior probabilidade de recorrência ou exacerbação de situações preexistentes", explicando que "as adições – por exemplo, com álcool, drogas e videojogos –, a violência doméstica, os abusos e os maus-tratos requerem mais atenção da Saúde Mental".

E sublinha: "Não podemos perder de vista esta outra face que é a dos doentes sem covid." 

Manter o apoio às pessoas "com doença mental mais grave"

Para a diretora do Serviço de Psiquiatria e do próprio Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Beatriz Ângelo, "os serviços de Saúde Mental do SNS, dos setores social e privado da Saúde e das IPSS têm de estar atentos e preparados para responder às perturbações neuropsiquiátricas que surjam".

Contudo, adverte que, simultaneamente, "não podemos descurar os indivíduos que já estavam a ser acompanhados, em particular aqueles com doença mental mais grave ou com deficiência intelectual". Segundo a especialista, "apesar de todo o empenho dos profissionais, a acessibilidade aos serviços ficou afetada no confinamento. Há atrasos de diagnóstico e no acesso aos tratamentos e consequente descompensação clínica, geralmente, com pior evolução da doença."

Descompensação de doentes e "necessidade de reinternamento"

Segundo Maria João Heitor, "nos hospitais, houve necessidade de cancelamento de muitas sessões de eletroconvulsivoterapia, tratamento utilizado em pessoas com determinadas patologias mentais graves e refratárias à terapêutica farmacológica".

Uma situação que "comprometeu a boa evolução de doentes internados, com o aumento das demoras médias no internamento, assim como a descompensação de doentes que faziam ECT de manutenção em ambulatório, com a consequente necessidade de reinternamento".



A presidente da SPPSM refere, no entanto, dois aspetos positivos: "A interajuda dos serviços com o apoio das coordenações regionais de saúde mental junto das ARS; e o enquadramento normativo da DGS, com especificidades para a saúde mental, através do Programa Nacional para a Saúde Mental. Isto tem permitido identificar problemas e encontrar soluções ao longo destes meses."

"Planear intervenções num contexto global"

De acordo com Maria João Heitor, face ao "aumento de morbilidade neuropsiquiátrica, o conhecimento, quer de fatores de risco, quer de fatores de proteção, deve ser usado para planear intervenções num contexto global".

A especialista destaca, assim, a importância de uma abordagem inclusiva e do "psiquiatra ter conhecimentos e atuar, sempre que possível, como agente promotor da saúde, em particular da saúde mental, e como peça fundamental integrante de equipas multidisciplinares”. Nesse sentido, salienta, “não chega saber diagnosticar, tratar e reabilitar as pessoas com perturbações psiquiátricas".

Esta é precisamente uma das "linhas mestras" do seu mandato à frente da SPPSM, conforme explica: "A capacidade de diálogo em múltiplas frentes é essencial. Esta publicação (LIVE Psiquiatria e Saúde Mental) é disso um exemplo. Há que divulgar os serviços de Saúde Mental, as boas práticas e conhecermo-nos melhor uns aos outros".

Por outro lado, "pecisamos ouvir mais vozes e fazermo-nos ouvir e comunicar através de múltiplos canais, bem como dialogar com os serviços e as organizações não governamentais, de uma forma inclusiva e transparente".



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