Só uma grande dose de resiliência possibilitou a sobrevivência da USF Cartaxo Terra Viva

Quando Carlos Mestre chegou à USF Cartaxo Terra Viva encontrou uma Unidade de Saúde Familiar que, por aquilo que lhe contaram, não terá tido propriamente origem no facto de um grupo de profissionais se ter juntado com o objetivo da sua criação. “Terão sido juntados!”, diz. O que, desde logo, terá fragilizado o projeto, condicionando, consequentemente, a sua atividade, que teve início oficial a 14 de setembro de 2009.


Carlos Mestre

“Quando aqui entrei, em agosto de 2016, havia uma manifesta carência de elementos, essencialmente ao nível da equipa médica. Era uma USF modelo A rodeada por modelos B, sendo que, na prática, esta funcionava como um local de passagem para os médicos que entravam aqui já com o objetivo de transitar para outra unidade. A instabilidade era realmente muito grande”, recorda Carlos Mestre.

Para além disso, a Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados Cartaxo, instalada no mesmo edifício, encontrava-se dentro do espaço da própria USF, ou seja, a entrada era a mesma e a circulação dos utentes também:

“As pessoas não faziam a mínima ideia de que se tratava de duas unidades diferentes, o que originava problemas. Não era bom para nós nem para a UCSP, e também não era conveniente para os próprios utentes. Não entendiam, por exemplo, que alguém chegasse aqui pelas 18h e tivesse consulta por ser da USF, mas isso já não fosse possível para quem pertencesse à UCSP. Esta questão foi posteriormente resolvida, com a sua transferência para a ala esquerda do edifício do Centro de Saúde do Cartaxo, com a colaboração da Câmara Municipal do Cartaxo.”



Avançando uns anos no tempo – sem que a situação melhorasse, antes pelo contrário –, em janeiro de 2022, a coordenadora anunciou que tinha acabado de lhe ser atribuída a  reforma e saiu “em 2 ou 3 dias”, uma segunda médica informou ter aceite o convite para transitar para uma USF modelo B e uma terceira disse que ia viver para outra zona do país. “Basicamente, de repente, fiquei apenas eu e outros dois médicos”, esclarece Carlos Mestre, que, entretanto, seria nomeado coordenador no dia 9 de fevereiro. E o que fez foi transmitir imediatamente à equipa a sua convicção de que “a única maneira de darmos a volta a isto é candidatarmo-nos a modelo B”.

“Pelo menos aparentemente, não era algo que parecesse concretizável, tendo em conta que a equipa estava completamente desfalcada. Para além de que havia antecedentes de outras USF que já tinham tentado por várias vezes a passagem a B e não haviam conseguido, apesar de possuírem equipas completas. Mas era a única opção!”, afirma o coordenador, sublinhando:

“Foi bom para nós porque iniciámos um processo de reestruturação que conduziu à criação de um espírito de equipa, de um propósito, de um objetivo! Mas deu muito trabalho. Eu próprio, vivi apenas para isto durante 18 meses, sem fins de semana, feriados ou férias! Foi um processo bastante difícil, sendo que muita gente não acreditava mesmo que nós conseguíssemos.”




A confirmação de que, de facto, a USF Cartaxo Terra Viva ascendia a modelo B aconteceu oficialmente a 9 de agosto de 2023, com a publicação em Diário da República do Despacho
do Ministério da Saúde aprovando essa mudança.

“Fizemos um pacto em equipa, para garantir que o grupo se mantinha coeso e com toda a gente a trabalhar”, diz Carlos Mestre, revelando os termos do mesmo: “Ninguém sai, aconteça o que acontecer, sejamos poucos ou muitos, não há nenhum enfermeiro ou administrativo a abandonar a Unidade!”


Elementos do Conselho Técnico: José Silva (Enf.), Cláudia Claudino (SC) e Rita Nascimento (MF)

“Criou-se uma certa confiança entre nós, o que permitiu atingir o fim a que nos tínhamos proposto. Durante esse período, houve vários médicos que foram passando por aqui, mas não ficaram. A partir do momento em que a candidatura já estava orientada, começámos a fazer convites, tendo-se, entretanto, formado uma equipa médica completamente nova”, refere.


Dos oito especialistas atualmente em funções, o coordenador é o único que está na Unidade há mais de três anos, sendo de registar que a médica de família Bárbara Junqueira acompanhou, enquanto interna, todo o processo de candidatura a modelo B bem de perto, até porque o seu orientador de formação era precisamente Carlos Mestre.

“Antes, não podíamos crescer porque não tínhamos estabilidade em termos de recursos humanos médicos, o que nunca sucedeu relativamente à equipa de enfermagem, ou até em termos do secretariado clínico, embora não seja muito fácil arranjar profissionais nesta última área”, comenta.

A importância de a UCSP continuar a funcionar

Com oito microequipas de saúde familiar em plena atividade, o número de utentes acompanhados na USF Cartaxo Terra Viva é o maior de sempre: cerca de 14.250, sendo que muitos deles estiveram sem médico de família atribuído durante bastante tempo. E justifica-se a manutenção da UCSP Cartaxo, constituída por um médico reformado que integrava a USF D. Sancho I, que tem sede na freguesia de Pontével, dois profissionais de enfermagem e outros tantos secretários clínicos? Carlos Mestre diz que sim:

“É importante existir uma UCSP e por isso é que houve locais onde elas foram fechadas e depois tiveram que ser reabertas. As pessoas que não estejam inseridas numa lista de uma USF necessitam de um sítio onde se possam dirigir para recorrer a cuidados de saúde. Os profissionais que integram as UCSP fazem um trabalho muito importante para a sociedade, colmatam as lacunas deixadas pela lei das USF, e muitas vezes não têm o reconhecimento e a valorização devidos.”

Quanto aos utentes servidos pela USF, residentes na localidade do Cartaxo ou na freguesia de Vila Chã de Ourique, quais são as suas características? “Temos uma população tipicamente rural, mas também quem habite na cidade do Cartaxo, incluindo muita gente que trabalha fora, nomeadamente em Lisboa. E os novos ficheiros têm um número maior de imigrantes, numa primeira fase com destaque para ucranianos e brasileiros, agora com mais gente oriunda da Índia e do Nepal.”




Referindo que a sua lista, com cerca de 1750 nomes, é das mais envelhecidas, desde logo por ser a mesma desde que chegou ao Cartaxo, em 2016, Carlos Mestre observa que a última a ser criada, e que foi atribuída à médica Raquel Rosa, já tem 1900 utentes, para obedecer ao número adequado de unidades ponderadas.

Prossegue agora a contagem decrescente para a inauguração do novo edifício do Centro de Saúde do Cartaxo, que fica junto da esquadra da PSP, na periferia da cidade oposta àquela em que agora se localiza. Em data ainda não definida, pois, a sua construção ainda está a decorrer, para lá serão transferidas a USF Cartaxo Terra Viva e a UCSP Cartaxo, mas também a UCC Cartaxo, o polo da USP Lezíria e as valências do polo do Cartaxo dos Serviços Assistenciais Partilhados da ULS da Lezíria.


A reportagem completa pode ser lida no Jornal Médico de junho.

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