Miocardiopatias: «Somos um dos maiores centros de doença de Fabry a nível mundial»

"A área das miocardiopatias é especial para mim!", reconhece a cardiologista Olga Azevedo. A sua dedicação nos últimos anos contribuiu decisivamente para o Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães, ser hoje em dia uma referência mundial no diagnóstico e acompanhamento de pessoas com doença de Fabry., uma patologia rara, tratável, que corresponde a cerca de 1% dos casos de miocardiopatia hipertrófica.

Em entrevista à Just News, a médica manifesta sentir "paixão por todas as doenças cardiovasculares". Contudo, afirma que gosta das doenças do miocárdio "porque há um desafio maior nessa área, tanto no diagnóstico como no tratamento".


Olga Azevedo

Na sua opinião, "muitas destas doenças estão subdiagnosticadas e, mesmo depois de feito o diagnóstico, não é fácil chegar à verdadeira causa da miocardiopatia". Por outro lado, explica que sempre gostou de desafios e acabou por se sentir atraída por essa área: "Também gosto de investigação e, no que respeita às miocardiopatias, não há ainda muito conhecimento, o que me levou a sentir mais interesse."

"Mais-valia no diagnóstico e no tratamento"

Em 2013, foi criado no Hospital da Senhora da Oliveira o Centro de Excelência de Doenças Lisossomais de Sobrecarga, que, em 2016, passou a Centro de Referência de Doenças Lisossomais de Sobrecarga. "Atualmente, seguimos cerca de 300 doentes de Fabry e somos um dos maiores centros de doença de Fabry a nível mundial", sublinha a médica.
 
Olga Azevedo recorda que, já durante o seu Internato de Cardiologia, "tinha interesse pelas doenças do miocárdio e exerci muita atividade nesta área. Apesar de fazer uma consulta de Cardiologia geral, acumulei muitos doentes com estas patologias."

Desta forma, após especializar-se em Cardiologia no início de 2011, pensou que seria interessante criar uma consulta específica de doenças do miocárdio e pericárdio, algo que veio a concretizar-se no início de 2012. "A área das doenças do miocárdio está muito ligada à da Imagem cardíaca e, durante o meu internato, especializei-me em ecocardiografia avançada. Fiz um estágio de diferenciação na Unidade de Imagem Cardiovascular do Hospital Clínico de San Carlos, em Madrid."



Olga Azevedo passou então a ter um horário específico dedicado à ecocardiografia, coordenando, mais tarde, este laboratório. "É uma posição muito privilegiada no que respeita às doenças do miocárdio, porque tenho acesso preferencial a todos os doentes da Cardiologia", refere, explicando que "estas patologias estão muitas vezes subdiagnosticadas e são detetadas aquando do ecocardiograma".

E acrescenta: "A partir daí, faz-se logo referenciação direta para consulta de miocardiopatias, para podermos continuar a seguir esses doentes. Isto constitui uma mais-valia no diagnóstico e no tratamento dos doentes." Ou seja, "é um casamento feliz".

Um sucesso partilhado: "Pessoas com quem gosto de estar e trabalhar"

Além de coordenadora do Centro de Referência Nacional e Europeu de Doenças de Sobrecarga do Lisossoma, Olga Azevedo é diretora do Laboratório de Ecocardiografia e responsável pela Consulta de Doenças do Miocárdio e Pericárdio do Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães. É ainda investigadora no Registo Fabry Outcome Survey.

Como é que se organiza com tantos cargos de responsabilidade? "Pois… Não é fácil!", reconhece. "Há uma grande carga de trabalho, quer do ponto de vista assistencial, quer de investigação, e ainda de organização e coordenação."

Segundo Olga Azevedo, os processos que levam à melhoria da qualidade dos cuidados de saúde aos doentes são muito interessantes, "mas não são fáceis". Porém, acrescenta, "tudo é simplificado se for feito em equipa e eu tenho a sorte e o privilégio de trabalhar com pessoas que constituem comigo equipas de excelência, muito qualificadas."

Faz ainda questão de especificar que o Centro de Referência de Doenças Lisossomais de Sobrecarga tem uma equipa multidisciplinar composta por mais de 20 profissionais de saúde – "médicos de todas as especialidades, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais".

"Tanto aqui, como noutras áreas da Cardiologia, nomeadamente, no Laboratório de Ecocardiografia, trabalho com pessoas muito competentes do ponto de vista profissional, mas que são também muito humanas e minhas amigas. Pessoas com quem gosto de estar e trabalhar." E sublinha: "Quando é assim, tudo se torna muito mais fácil."


Formação a outros profissionais: sessão dinamizada no Hospital de Guimarães, precisamente sobre “Um Dia Dedicado às Doenças do Miocárdio”

"A relação médico-doente é do mais gratificante que pode haver"

A forma como Olga Azevedo encara a Medicina é muito clarividente: "Não é apenas uma profissão. É uma forma de ser e de estar. Faz parte intrínseca da minha personalidade. Não me imagino a ser outra coisa que não médica."

Questionada sobre a relação que estabelece com os doentes, assume ser "muito maternal, sou um pouco mãezinha de todos eles! Gosto muito da relação médico-doente, é do mais gratificante que pode haver".

Apesar de considerar que o mais importante "é ver o doente melhorar com os nossos cuidados de saúde", refere também: "Perceber que gostam de vir à consulta, de interagir comigo, também o é. Tenho muito boa relação com os meus doentes, acho que eles sentem que sou mesmo um bocadinho ´mãezinha` deles. Preocupo-me e acho que percebem isso."



Questionada sobre como consegue deixar essas preocupações fora de casa, a resposta é imediata: "Não consigo! E é exatamente isso que quero dizer, quando me refiro à Medicina como uma forma de ser e de estar e não apenas uma profissão. Não me consigo desligar, chegar ao fim do dia de trabalho, ir-me embora e deixar tudo no hospital."

Reconhece que essa realidade lhe pode trazer maiores doses de preocupação "e talvez possa não ser bom para mim, no sentido em que não esqueço o trabalho e quando nunca desligamos verdadeiramente…". Mas acrescenta: "Isso faz parte da minha vida e eu assumo com naturalidade."

"Continuar a expandir a consulta"

No que respeita ao Centro de Referência das Doenças Lisossomais de Sobrecarga, Olga Azevedo afirma que "é um desafio constante conseguirmos manter a excelência dos cuidados que oferecemos aos doentes, assim como a melhoria contínua da sua qualidade e mantermos a investigação sempre ativa."

E acrescenta: "Temos um potencial muito grande por termos uma amostra de doentes única e vasta e, por isso, sinto que temos, para com a comunidade científica, o dever de manter uma investigação de excelência e de contribuir para o conhecimento destas doenças."



Quanto às doenças do miocárdio e pericárdio, um dos objetivos da cardiologista "é continuar a expandir a consulta, que cresceu muito desde a sua formação" e destaca os bons resultados que têm obtido e as necessidades prementes:

"Terminámos 2018 com 978 consultas, num total de cerca de 570 doentes, um volume muito grande. Há muitas miocardiopatias na zona de Guimarães, pelo que se justifica evoluirmos no sentido de criar uma equipa também nesta área. Tenho assumido sozinha a consulta. Contudo, considero que já atingiu uma dimensão que, para mantermos a qualidade dos cuidados, precisamos de trabalhar em equipa. Gostava de atrair mais alguém para esta área e é algo que estou a tentar fazer."

Do ponto de vista do Laboratório de Ecocardiografia, Olga Azevedo adianta que terá também de ser feito um reforço dos recursos humanos": Tenho esperança de que brevemente tenhamos mais colegas médicos."

"A ecocardiografia é um exame transversal a todas as patologias cardíacas e fundamental para todos os doentes. Precisamos de ter mais recursos humanos para podermos continuar a fazer ecocardiografia como temos feito até à data: com qualidade e com boa resposta em tempo útil. Em termos de resposta em tempo útil, não estamos mal, mas gostaria que estivéssemos melhor."

 

A entrevista completa, publicada na LIVE Cardiovascular 20, pode ser lida na íntegra:

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