ULS Guarda: Medicina Física e de Reabilitação quer otimizar a ligação aos cuidados primários

Susana Abreu e Francisco Tavares são os dois únicos médicos do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Sousa Martins, ULS da Guarda. Além da remodelação das instalações antigas, ambos acreditam na importância da diferenciação clínica, que é possível explorar, sobretudo, com a chegada de novos profissionais, mesmo que a tempo parcial.


Atualmente, o grupo de trabalho inclui 11 fisioterapeutas, um dos quais se encontra em Seia, e duas terapeutas da fala (uma em Seia). “Uma delas foi contratada nos últimos dias, sendo que anteriormente pertencia ao Contrato Emprego-Inserção +. Isto porque os concursos são muito demorados e eu já estava à espera de um técnico há 14 anos…”, observa.


Uma equipa empenhada em desenvolver projetos e soluções que facilitem a vida dos utentes

Em entrevista à Just News, no âmbito de uma reportagem publicada na LIVE Medicina Física e de Reabilitação, Susana Abreu explica que o Serviço que dirige serve uma região que abrange 43 regiões, algumas deles situadas a uma distância considervável da sede do distrito, e salienta:

"Há bastantes idosos que vivem sozinhos ou com pessoas da mesma idade, com graves problemas financeiros, alguns residindo em localidades muito remotas…”

Especificidades que contribuem, segundo a nossa interlocutora, para que ocorra “algum esquecimento” por parte das autoridades. “Infelizmente, no interior do País, ainda não se dá o devido valor à MFR, mas espero que as coisas mudem e que venham jovens para o Serviço, nem que seja a tempo parcial, para desenvolver projetos novos”, desabafa.



Novos projetos para melhor servir a população

A ansiedade demonstrada por Susana Abreu relativamente à necessidade de “mais atenção” para esta região de Portugal é facilmente compreensível. Não se trata apenas de atrair novos profissionais, mas também de criar as condições necessárias num Serviço que recebe doentes com limitações físicas, frequentemente nos membros inferiores. 

Por exemplo, quem precisa de fazer fisioterapia e está preso a uma cadeira de rodas, ou necessita de ser transportado em maca, vê o acesso à cave do edifício dificultado pela porta estreita e pelas poças de água que se formam quando chove. Aliás, a água da chuva também chega a invadir o interior das instalações, fazendo do longo corredor um local húmido, com o estuque a cair das paredes.




Susana Abreu espera que o projeto de remodelação previsto há já uns anos possa agora avançar com a tomada de posse do novo Conselho de Administração, no início de maio. “Já nos disseram para apresentarmos as nossas ideias. Espero que, aos poucos, se consiga proporcionar outro ambiente aos doentes”, comenta Susana Abreu.

"Otimização da ligação aos fisioterapeutas dos cuidados de saúde primários"

E são várias as ideias que existem. Um dos projetos em mente prende-se com a otimização da ligação aos fisioterapeutas dos cuidados de saúde primários. “Podiam ser uma mais-valia para os utentes que têm dificuldade em deslocar-se ao hospital, se tivessem equipamentos adequados nestas unidades de proximidade”, indica. O objetivo seria, assim, proporcionar outros meios a esses profissionais, integrados no Serviço de MFR, para que os cuidados pudessem ser prestados de forma organizada e partilhada.


Em suma, “ganhariam os médicos e os técnicos e, sobretudo, os utentes, porque com apoio de proximidade também é mais fácil conhecer as situações sociais mais graves e as adaptações que são necessárias nas suas habitações, face às limitações provocadas pela doença ou pela lesão”.



Terapeutas ocupacionais: "são técnicos importantes"

Outro desejo da diretora do Serviço de MFR da ULS da Guarda é conseguir contratar terapeutas ocupacionais. “São técnicos importantes, porque há bastantes casos de lesões, quer por acidente – há muitas pessoas a trabalhar na construção civil, na agricultura, em lares… – como em resultado de AVC. Temos também as crianças com paralisia cerebral e outras doenças limitativas que precisam deste tipo de apoio”, justifica.

Há depois as situações de cancro, com cada vez mais sobreviventes, o que obriga “a gerir as sequelas que ficam após os tratamentos de quimioterapia e de radioterapia, como linfedemas, problemas motores e neurológicos”.

Reabilitação: "um processo integrado e holístico"

Susana Abreu defende, assim, uma maior diferenciação do Serviço: “Já temos duas fisioterapeutas especializadas em reabilitação respiratória e o Dr. Francisco Tavares tem uma pós-graduação em reabilitação cardíaca, mas também gostaria de apostar na reabilitação esfincteriana e na área da disfagia, sem esquecer a reabilitação pediátrica.”



“A reabilitação não é algo que se faça apenas no ginásio, trata-se antes de um processo integrado e holístico que exige outras condições, que permitam, inclusive, um maior envolvimento da família”, acrescenta.

Relativamente à reabilitação respiratória, refere que as duas fisioterapeutas com formação específica nesta área precisam de outras instalações e de material novo, uma vez que “o atual está a ficar obsoleto”.

No caso das crianças, torna-se ainda mais premente apostar nesta valência, porque a resposta aos seus problemas não é, neste momento, a melhor. “Infelizmente, nesta região, deparamo-nos com alguma desorganização nos serviços sociais e escolares e depois o SNS é que tem de encontrar uma solução…”, observa.

Susana Abreu reconhece, aliás, que alimenta o “sonho” de se criar um Centro de Desenvolvimento da Criança, que funcionaria agregado ao Serviço de MFR.


Francisco Tavares e Susana Abreu

"É melhor começar com menos e não parar"

A área da investigação é outra vertente que a equipa está determinada a desenvolver nos próximos tempos. “Somos um hospital universitário e recebemos alunos da Universidade da Beira Interior e, por isso, seria importante a nossa participação em projetos”, diz, esclarecendo que já existe, inclusive, uma proposta:

“A UBI gostaria de contar com os nossos utentes para estudar a estimulação magnética transcraniana, que pode ter um enorme impacto na reabilitação.”

A médica admite que todos estes projetos não têm que acontecer ao mesmo tempo: “É preciso ser realista, é melhor começar com menos e não parar do que querer fazer tudo ao mesmo tempo e ficar sem nada.”

E insiste: “Precisamos de jovens que nos ajudem, que desenvolvam áreas diferentes, que tragam ideias novas. A  mudança do Serviço também tem de passar por aí.”



A vantagem de poder "desenvolver projetos novos"

Francisco Tavares, com 36 anos, está na Guarda há 6. Considera que “a grande vantagem de se vir para o Interior, nomeadamente, para hospitais onde as condições não são as melhores, é que podemos fazer um pouco de tudo, mas também desenvolver projetos novos”.

No seu entender, a fórmula para atrair os colegas passa por “mostrar que também há vantagens em iniciar um projeto que vamos ver evoluir. Mesmo exigindo muito trabalho, faz-nos crescer profissionalmente e obriga a uma permanente atualização”.

"Reabilitação cardíaca ainda não é de todo aceite"

Quando Francisco Tavares ingressou na ULS da Guarda, havia planos para a remodelação das instalações e preparavam-se novos projetos, nomeadamente na área da reabilitação cardíaca. No entanto, “com a Troika, as coisas ficaram paradas, agora, espero que com a entrada em funções do novo Conselho de Administração a situação possa mudar”.



“Atualmente, temos consolidada a ligação ao Serviço de Pneumologia na reabilitação respiratória e aguardo ainda uma interface idêntica com o Serviço de Cardiologia”, diz.

Esta última, admite, “pode ser mais difícil”, desde logo porque “a ideia da reabilitação cardíaca ainda não é de todo aceite, mesmo existindo muitos estudos e experiências que comprovam uma melhoria significativa na qualidade de vida e até na sobrevida dos doentes a quem ela é proporcionada após um enfarte agudo do miocárdio”.

Enfermeiros alocados ao Serviço "seria reforço importante"

Francisco Tavares menciona ainda que “a reabilitação cardíaca e a reabilitação respiratória podiam estar num mesmo espaço físico, porque as duas estão muito interligadas e, assim, haveria uma rentabilização dos recursos humanos”. Os doentes com doença pulmonar obstrutiva crónica, por exemplo, são dos que mais podem beneficiar com as duas intervenções.

Este projeto ainda não avançou, mas a chegada de Francisco Tavares ao Serviço permitiu a introdução de determinadas terapêuticas e técnicas, como a mesoterapia ou o uso da toxina botulínica na espasticidade e na distonia, além de se ter aumentado o número de infiltrações. Para isso muito contribuiu, segundo o médico, o apoio da Unidade de Tratamento da Dor.


O fisiatra faz questão de sublinhar que, com o propósito de prestar melhores cuidados aos utentes,  “a existência de enfermeiros alocados ao Serviço de MFR seria um reforço importante.”

 



A reportagem completa pode ser lida na última edição de LIVE Medicina Física e de Reabilitação.

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