Consulta dedicada ao idoso frágil é «ainda mais necessária» com a pandemia e a solidão

“Há cada vez mais idosos e cada vez com mais problemas”, sublinha Manuel Viana, que sabe bem do que fala. É médico de família na USF São João, situada no centro histórico do Porto, zona da cidade onde abundam as situações de pessoas com mais idade que vivem sozinhas.


Em declarações à Just News, o especialista, que tem a competência em Geriatria atribuída pela Ordem dos Médicos, manifesta-se "extremamente preocupado" com as consequências do confinamento na população mais velha, defendendo "agora ainda mais o conceito de consulta dedicada ao idoso frágil". No seu entender, a resposta adequada ao envelhecimento da população tarda, nomeadamente nos CSP.


Manuel Viana

Covid agravou "terrivelmente a epidemia da solidão"

“Costumo dizer que a pandemia da covid veio agravar a epidemia da solidão, que já era muito prevalente. Mas veio agravá-la terrivelmente! Os idosos passaram a não ter a visita dos seus familiares, dos filhos, dos netos… Deixaram de ir para os centros de dia, para a ginástica de manutenção, para a hidroginástica, atividades complementares de muitas terapêuticas, nomeadamente na depressão, que se trata com psicofármacos mas também com medidas adjuvantes potenciadoras do resultado desejado”, alerta o médico, que é um dos três presidentes das III Jornadas Multidisciplinares de MGF, que se realizarão no final de setembro.

A mesa-redonda subordinada ao tema Geriatria abre, aliás, o segundo dia da reunião, que este ano decorrerá em formato híbrido, com presenças físicas e transmissão online. A avaliação geriátrica, os sintomas comportamentais e psicológicos da demência e a questão da desmedicalização constituirão os pontos base das intervenções de Manuel Viana e da psiquiatra Susana Almeida.

A situação é “muito mais grave com os idosos urbanos". Compreende-se porquê: “A falta de sol e de exercício físico são dois coadjuvantes da depressão, que acarreta agravamento da função cognitiva e acelera a demência.”



Intervenção de Manuel Viana na última edição das Jornadas Multidisciplinares de MGF, onde o tema da Geriatria está sempre em foco

Falta tempo de consulta

Manuel Viana continua a perseguir um objetivo que considera ser cada vez mais premente: a criação de uma consulta dedicada ao idoso frágil, que integra “uma fatia progressivamente crescente da população, tomando bastante tempo de consulta e recorrendo muitas vezes a ela, muito mais de que um adulto saudável”.

“A forma de avaliar um idoso frágil ou dependente é muito diferente de termos à nossa frente um idoso robusto, ou um adulto de meia-idade, carecendo de bastante mais tempo. E para fazer uma avaliação geriátrica geral temos que envolver uma equipa interdisciplinar, incluindo um enfermeiro, um nutricionista, um fisioterapeuta, um psicólogo, etc., que nem sequer temos…”, explica o nosso entrevistado, acrescentando:

“Dessa avaliação resulta um plano de intervenção adaptado às condições desse idoso, priorizando a qualidade de vida e a funcionalidade e não tratando a doença pela doença.”

“É sempre uma atuação individualizada”, sublinha Manuel Viana, considerando que, se a medicina é uma ciência nos indivíduos de meia-idade -- a quem se aplicam as guidelines no tratamento de uma determinada doença --, quando se trata de um idoso frágil, transforma-se numa arte, “procurando-se não medicar a mais, nem a menos”.

“Temos de evitar o excesso de medicação num corpo que já apresenta alterações próprias do envelhecimento, em que o fígado e os rins já não metabolizam tão bem, podendo originar efeitos adversos graves que acabam, eventualmente, por ser causa de internamento”, refere.

Manuel Viana lembra que uma pequena infeção urinária pode fazer com que um idoso frágil entre em delírio por a sua reserva homeostática – neste caso, no cérebro -- estar diminuída. “Daí que não possa ser avaliado numa consulta de 10 ou 15 minutos!”, conclui.


Manuel Viana: “Um idoso frágil tem que ser avaliado de uma forma global, o que não é possível fazer numa consulta de 10 ou 15 minutos”


Teleconsulta “não substitui” a consulta presencial

Manuel Viana diz que os seus doentes estiveram recetivos à teleconsulta durante o último ano, nalguns casos, utilizando mesmo a câmara do telemóvel. “Até me lembro de um casal que fez questão em mostrar-me a sua casa!”, recorda.

“A teleconsulta não é uma coisa má, mas não há como ver, não há como tocar. Não substitui a consulta presencial, de maneira alguma”, garante. O médico argumenta que “é preciso a comunicação não verbal, o toque…” E lamenta que “agora nem podemos acompanhar o doente à porta e pôr-lhe a mão sobre o ombro. Tudo isso faz parte, perde-se muito na teleconsulta”.

De qualquer forma, admite ter sido a solução possível, tendo em conta a situação que se viveu durante os meses mais críticos da pandemia. Reconhece até que “foi muito gratificante, porque conseguimos, por exemplo, fazer psicoterapia, dar uma palavra amiga, escutar, criar empatia, mostrar compaixão. Conseguiu-se fazer isso pelo telefone, mas claro que não há nada como ter o doente à nossa frente, cara a cara”.

Competência em Geriatria pela OM

Com uma pós-graduação em Geriatria e a competência nessa área atribuída pela Ordem dos Médicos, Manuel Viana comemorou esta terça-feira 63 anos. Até podia ter seguido Cardiologia (era esse o seu desejo inicial), mas diz-se rendido à especialidade que abraçou, “pela visão holística, continuidade de cuidados e empatia com os doentes”.

Começou a trabalhar no Centro de Saúde da Carvalhosa em 1986 e foi sucessivamente assistente de Bioquímica (durante 8 anos) e de Medicina Comunitária na FMUP. Em 1999, é um dos médicos convidados para “um projeto inovador de fazer clínica, ensino e investigação”, surgindo assim o Centro de Saúde de São João.

Diz que faz aquilo de que gosta: ser professor, formador, investigador e ver doentes no público e no privado. A mais velha das suas duas filhas é interna do 4.º ano de MGF.

Entretanto, em 2019, partilha com os seus amigos Paulo Pessanha e Rui Costa o lançamento do "ambicioso projeto" das Jornadas Multidisciplinares de MGF, organizado por médicos de família e dirigido a médicos de família, cuja terceira edição decorrerá no final de setembro.


Manuel Viana com Paulo Pessanha e Rui Costa


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