Taxa de vacinação de 99% na USF Ramada é resultado da estratégia de proximidade

A pandemia da covid-19 mudou por completo o dia-a-dia dos profissionais da unidade de saúde familiar (USF) Ramada, em Odivelas, à semelhança das outras unidades espalhadas pelo país. Controlo de entradas, viseiras, máscaras, acrílicos ou turnos alternados fazem agora parte da rotina de quem trabalha nesta unidade.


“Procurámos sempre manter um contacto próximo com os utentes"

Mas se o cenário é diferente do habitual desde que foi anunciado o plano de emergência em Portugal, em 18 março, há coisas que se mantêm. “Apesar do receio que a maioria da população tem em vir a uma unidade de saúde, mantivemos uma taxa de vacinação de 99%”, diz Luís Martins, coordenador da USF Ramada.



O feito é inevitavelmente um orgulho para a equipa, que continua a ver os pais a deslocarem-se à USF para vacinar os filhos, mesmo quando são bebés. A explicação para o sucesso está na estratégia de proximidade que estabeleceu com os utentes logo desde que abriu, a 1 de janeiro de 2013, e que conseguiu assegurar mesmo em tempo de pandemia.

“Procurámos sempre manter um contacto próximo com os utentes, nomeadamente na área da vacinação, o que torna mais fácil, neste momento de medo e dúvidas, convencer os pais a trazerem os filhos”, afirma o médico.



Nalguns casos nem é preciso contactá-los: “Eles próprios ligam a perguntar se podem vir, se é seguro trazer os filhos, sobretudo os mais bebés, à unidade. Depois de lhes explicarmos que está tudo sob controlo, aceitam sem qualquer problema.”


Luís Martins

Maior literacia em saúde contribui "para a adesão à vacinação"

Na Ramada está-se, assim, a conseguir evitar outros problemas de saúde para além da pandemia. “Já basta a covid-19. Não se pode adiar a vacinação, correndo-se o risco de surgirem outros surtos, quer em crianças como em adultos”, exclama o coordenador.

E como a vida continua mesmo em plano de emergência e como as outras doenças não deixam de ser uma realidade, o médico de família realça as medidas de segurança e higiene adotadas na USF Ramada e que, quando explicadas aos pais, "contribuem para a adesão à vacinação".



Partilhando o mesmo edifício com a USF Colina de Odivelas, criaram-se escalas de 2 horas para médicos e enfermeiros de cada uma das unidades para ficarem à entrada a fazer uma pré-triagem aos doentes.

Quando estes chegam com sintomas de tosse, febre ou dificuldades respiratórias nem sequer entram e são encaminhados para a Área Dedicada Covid-19 Comunidade (ADC-C) Loures-Odivelas (Póvoa de Santo Adrião) e os que são doentes de risco ou que apresentam sintomatologia mais grave são referenciados para a ADC Serviço de Urgência (ADC-SU) Hospital Beatriz Ângelo.

Quem está na triagem durante essas 2 horas tem, inevitavelmente, que utilizar equipamento de proteção individual (EPI), além de estar atrás de um acrílico e a mais de dois metros de distância do utente, o que é garantido com a colocação de cadeiras que impedem aquele de se aproximar do profissional de saúde.



Os cuidados mantêm-se quando se trata de consultas programadas ou de casos de doença aguda não covid-19. “A maioria das consultas presenciais foi desmarcada ou passou a realizar-se por telefone, quer as médicas como as de enfermagem, mas há casos que necessitam mesmo de vir, como as grávidas ou os recém-nascidos”, refere Luís Martins.

Estes últimos nem sequer passam pelo secretariado clínico para fazer a confirmação da consulta. O segurança leva-os imediatamente para a Sala de Movimentos – onde se faziam os cursos pré e pós-parto – e, a posteriori, o enfermeiro, ou o médico, dá indicação à secretária clínica para confirmar a consulta.



"Temos que proteger os doentes mais vulneráveis"

No seu gabinete, Luís Martins divide-se entre várias tarefas, como médico e coordenador, mas nesta fase de mitigação passa mais tempo ao telefone. Explica porquê: “Além da teleconsulta, contactamos os doentes crónicos, muitos deles idosos e de maior risco, para percebermos se precisam de algum reajuste na medicação ou de qualquer outro tipo de cuidados.”

As visitas ao domicílio são feitas apenas quando não existe outra opção e, nesse caso, levam o EPI. Além da proximidade com os utentes, o médico realça que também se procura manter contacto com os familiares.



“É essencial em qualquer fase”, regista. O telefone é, assim, cada vez mais um aliado nos CSP, mas não é suficiente e, por isso, o ACES Loures-Odivelas vai iniciar, em breve, um projeto de telemedicina. “Ao telefone não se vê a pessoa. Falta a linguagem não-verbal. Mas vamos ter, em todas as unidades, uma webcam para podermos fazer essas consultas”, informa Luís Martins, acrescentando:


“Vão ser cada vez mais necessárias daqui para a frente, mesmo quando já não se viver em pandemia. Temos que proteger os doentes mais vulneráveis e, sempre que possível, deve-se optar por este tipo de intervenção.”



"Maior procura de ajuda para crises depressivas e de ansiedade"

Para já, recorre-se ao telefone para monitorizar a saúde do corpo mas também a da mente. “Como não nos limitamos a aguardar uma chamada do doente, quando ouvem a nossa voz, ficam muito contentes. Sentem que nos interessamos por eles, que são importantes. Não podemos esquecer que as pessoas estão há muitas semanas isoladas, sem saírem de casa, sem poderem, inclusive, estar com os seus familiares e amigos, e isso acaba por criar estados de ansiedade graves e também de depressão.”


É uma situação que preocupa Luís Martins: “Verifica-se uma maior procura de ajuda para crises depressivas e de ansiedade, algumas muito intensas, de quase ataque de pânico. As pessoas sentem-se perdidas e com medo de serem infetadas ou de transmitirem o vírus a quem convive com elas, e também as aflige a incerteza económico-social.” Acrescem as “mil e uma” tarefas de quem tem filhos, sobretudo pequenos.

Há quem esteja em teletrabalho – apenas um dos elementos ou mesmo o casal – e precisa de ir ajudando as crianças com a escola. Tudo isto e o convívio permanente no mesmo espaço "acabam por criar conflitos e causar imenso stress".

Nos casos mais graves, os utentes são encaminhados para um contacto, mais uma vez telefónico, com a psicóloga da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP) do ACES Loures/Odivelas. Este apoio também pode ser aproveitado pelos próprios profissionais de saúde: “Sempre que necessário, pede-se ajuda, porque não é fácil viver na atual situação, sobretudo pelo stress que provoca a ideia de se poder infetar a nossa família.”

“Ter-se-á que alterar circuitos e a organização das salas de espera"

Mas, como em (quase) tudo, existe sempre um lado positivo, Luís Martins diz que a pandemia também permite algumas aprendizagens: “Percebeu-se que é possível, e desejável, fazer contactos à distância em determinadas situações, como forma de proteger os utentes e os próprios profissionais de saúde. Esta não é a primeira pandemia de sempre nem será com certeza a última.” 




Continuando: “Ter-se-á que alterar circuitos e a organização das salas de espera, para se evitarem grandes ajuntamentos, porque este vírus veio para ficar e, enquanto não houver uma vacina, vamos ter que manter os cuidados e proteger os mais vulneráveis.”

O médico enaltece ainda a partilha de conhecimento entre profissionais dos mais variados países, o que permitiu a alguns, como Portugal, “tomar medidas antes de o sistema de saúde entrar em colapso”, e a relevância da Saúde Pública, “uma especialidade esquecida, mas que deverá ser mais valorizada daqui para a frente”.



Na USF Ramada vai, assim, continuar-se a usufruir dessa troca de evidência científica entre especialistas do mundo inteiro, mas "nunca se deixando a proximidade com os utentes", a peça-chave para que a vacinação não tenha sido um problema nesta unidade em tempo de medo.




A reportagem completa pode ser lida na edição de maio do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários - publicação distribuída todos os meses nas unidades de cuidados de saúde primários do SNS.
Partilhar projetos e boas práticas, aproximar os profissionais, valorizar as equipas e o SNS.

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