VIH/SIDA: especialistas querem definir indicadores de qualidade

A necessidade de produzir um documento de consenso que estabeleça quais os critérios que permitam avaliar a qualidade dos cuidados de saúde prestados às pessoas que vivem com infeção por VIH não oferece dúvidas nem será difícil de concretizar. “O grande problema está na sua futura implementação e monitorização”, afirma António Diniz, ex-diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA.

Para o coordenador da Unidade de Imunodeficiência do Hospital Pulido Valente, que integra o Centro Hospitalar Lisboa Norte, “a grande interrogação e o grande obstáculo” que se coloca relativamente a esta matéria tem que ver precisamente com a aplicabilidade prática dos indicadores de qualidade que forem estabelecidos.

“Como é que vamos fazer para que os documentos que produzirmos sejam efetivamente implementados e monitorizados e nós possamos saber periodicamente em que ponto estamos?” Esta é a grande questão colocada por António Diniz e que partilhou há dias com os seus colegas médicos e outros participantes na última reunião promovida pela Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA (APECS).



O especialista em Pneumologia foi o primeiro palestrante da sessão que a APECS organizou em Condeixa, nos arredores de Coimbra, e que reuniu umas dezenas de sócios daquela associação para um debate em torno da questão da qualidade dos cuidados de saúde prestados às pessoas com VIH. António Diniz debruçou-se sobre o que é e como se avalia a qualidade, abordando a temática dos componentes essenciais e indicadores de qualidade aplicados à infeção por VIH.

Percurso do doente cheio de obstáculos

Joaquim Oliveira, o presidente da APCS, que nesse mesmo dia haveria de terminar o seu segundo mandato à frente da Associação, abriu a reunião frisando: “Estamos aqui para debater um tema que deve estar sempre presente nas nossas preocupações.” Deixando claro que, para si, o conceito de qualidade começa logo no primeiro contacto do doente com o hospital, afirmou:

“Um exercício que deveríamos fazer era cumprir o percurso do doente. Mesmo fazendo-o de forma informal, é fácil perceber que há, de facto, muitos obstáculos nesse caminho, e a qualidade também começa por aí.”



Segundo António Diniz, de acordo com a OMS, “para atingir os objetivos de qualidade em saúde, é preciso que os cuidados prestados preencham os seguintes critérios: serem seguros, efetivos, proporcionados no tempo necessário, eficientes, equitativos e estarem centrados nas próprias pessoas a quem se destinam”.

Relativamente a este assunto, apresentou duas posições distintas e que envolvem os grupos homólogos da APECS em Espanha (GeSIDA) e no Reino Unido (BHIVA). “Uma das maiores diferenças que existe prende-se com o facto de os ingleses considerarem que quem vive com VIH é parte interveniente e ativa no processo de definição da prestação de cuidados de qualidade”, explicou António Diniz.

“Eu sinto-me mais próximo da abordagem que a BHIVA faz. Penso que as pessoas infetadas devem estar envolvidas no processo de elaboração do consenso sobre a qualidade dos cuidados de saúde”, admitiu, opinião partilhada, por exemplo, pela nova presidente da APECS, Teresa Branco.

“Ouvir falar estas pessoas é, se calhar, o primeiro passo para se poder ir ao encontro das suas necessidades, que nós, por vezes, não conseguimos avaliar”, afirmou a especialista de Medicina Interna do Hospital Fernando Fonseca.

Falta visão global e integradora

“Se formos a ver, nós procuramos aplicar diariamente, na nossa própria atividade, alguns critérios de qualidade. Mas o que falta depois é o seu enquadramento e sistematização, entre outras coisas”, considerou António Diniz.

“Temos de perceber que domínio de intervenção é que queremos, se apenas do diagnóstico ao tratamento, ou se o pretendemos alargar mais. Na definição dos indicadores parece ser consensual que tem de haver sempre um racional, a obtenção de resultados com a criação de metas mensuráveis, tem que haver monitorização, fundamentação científica e técnica”, frisou.



António Diniz não deixou de apresentar alguns exemplos daquilo que classificou como “esforços individuais” que vão acontecendo, mas que, por serem isso mesmo, “não permitem que tenhamos uma visão global e integradora, ou que se faça a monitorização, por exemplo”.

O despacho que estabelece que a todas as pessoas com idade compreendida entre os 18 e os 74 anos deve ser disponibilizado, pelo menos uma vez na vida, o teste de VIH pode ser considerado um critério de qualidade. “Quando se diz que a terapêutica antirretrovírica deve ser dispensada numa base trimestral também pode ser um critério, na medida em que facilita o acesso”, justificou o médico, continuando:

“Quando se diz que quem faz o teste através de organizações de base comunitária tem que ter acesso preferencial e direto a cuidados de saúde, isso pode ser igualmente um critério de qualidade. As próprias recomendações nacionais para o tratamento do VIH também estabelecem bases de qualidade para esse mesmo tratamento.”


Participantes da reunião

Criação de um grupo de trabalho

É consensual a necessidade de criar um grupo de trabalho para a elaboração de um documento que estabeleça quais os indicadores de qualidade a aplicar no âmbito da infeção por VIH. “A representação pode ser mais ou menos alargada, pode envolver ou não membros da sociedade civil ou elementos de outros grupos profissionais”, referiu António Diniz.

“Uma das vantagens da criação de documentos é que podemos ancorar-nos neles. Não só as pessoas na sua prática diária, mas também as organizações, para reivindicarem a aplicação desses documentos e constituírem uma força de pressão para que sejam respeitados”, sublinhou.

A opinião de todos quantos participaram na reunião da APECS é que a criação de um documento de consenso é um passo fundamental para que os indicadores de qualidade fiquem definidos e mais facilmente seja reivindicada a sua aplicação. António Diniz resumiu bem quais as quatro fases do processo: após definir o objetivo, há que criar o documento, assegurar a seguir a sua implementação e, finalmente, proceder à sua monitorização.



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