Visão holística do internista «é fundamental para enfrentar o novo perfil de doente hospitalar»

Doentes com múltiplas patologias obrigam à intervenção de médicos que consigam ter uma visão holística, a característica por excelência do internista, considera o professor e investigador Rui Victorino, que é presidente do Conselho Científico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e também diretor do Serviço de Medicina II do Hospital de Santa Maria. Na sua ótica, é preciso continuar a valorizar a Medicina Interna no ensino e a estimular a investigação.

Em entrevista à Just News, Rui Victorino começa por afirmar que não encontra uma "grande diferença" no que diz respeito ao ensino da Medicina nos dias de hoje e de como era no passado: "Tentamos que seja cada vez mais prático e acho que temos conseguido, particularmente na área da Medicina Interna, no 5.º ano, com a exposição do aluno à parte prática a rondar os 65% do tempo letivo. Os desafios que se colocam hoje é que são diferentes, na medida em que há uma expansão avassaladora de conhecimento e de informação disponível."

Salienta que é, por isso, necessário "atingir um equilíbrio muito grande entre essa capacidade de aceder a nova informação e de a integrar na prática. É aí que a Medicina Interna pode ter um papel muito importante."

"convocar o conhecimento e integrá-lo no doente"

Rui Victorino recorda que, "há cerca de 30 anos, houve quem pensasse que a Medicina Interna iria tendencialmente desaparecer. A expansão do conhecimento em cada uma das componentes da Medicina Interna era tão grande que o que parecia restar era um somatório de especializações. Basicamente, nada sobraria para o internista."

Contudo, hoje em dia, a nível mundial, salienta "já se reconheça que, cada vez mais, é necessário ter alguém capaz de assumir o papel de integrador de todo esse conhecimento. Não quer dizer que não sejam importantes as subespecialidades e as especialidades dos vários ramos da Medicina Interna, mas essa necessidade de ter integradores é cada vez maior. E a grande capacidade do internista deve ser essa: convocar o conhecimento e integrá-lo no doente."



"O padrão de doente hospitalar evoluiu muito"

Rui Victorino participou numa mesa redonda do XXI Congresso Nacional de Medicina Interna, que decorreu em Vilamoura, no final de maio, onde se falou sobre a educação médica e a Medicina Interna. A este propósito, e questionado sobre como é que se pode valorizar a Medicina Interna no ensino, refere que "a questão preliminar que se deve colocar é a seguinte: é ou não relevante acentuar o papel da Medicina Interna no ensino? A resposta é sim."

Na sua opinião, o papel da Medicina Interna no ensino "é absolutamente fundamental" e explica os motivos:

"Uma das razões está relacionada com o facto de a maioria dos doentes assistidos nos hospitais, tanto em Portugal como na Europa, apresentar múltiplas doenças e patologias. Não há muito tempo, um dos nossos colaboradores, o Dr. Luís Pinheiro, fez uma análise da evolução do número de diagnósticos por doente no Serviço de Medicina Interna. Há 15 anos, era cerca de quatro o número de diagnósticos por doente. Hoje, são oito problemas clínicos diferentes por doente! Ou seja, o padrão de doente hospitalar evoluiu muito e a Medicina tem que saber lidar com estes doentes."

E acrescenta que, "se houver vários médicos a contribuir para o diagnóstico de um doente, é muito importante que haja alguém capaz de fazer uma boa gestão de todas essas contribuições. Portanto, a primeira razão para reforçar o papel da Medicina Interna na Universidade e na Academia é a necessidade. É preciso preparar os médicos para este perfil de doente que é predominante. Mas a Academia tem também, além das funções de educação, a função de gerar conhecimento, de fazer investigação."



A entrevista completa com Rui Victorino foi publicada na 3ª edição diária do Jornal do XXI Congresso Nacional de Medicina Interna, distribuído a todos os participantes da reunião.

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