Opinião
Bronquite aguda nos adultos
Filipe Froes
Assist. graduado de Pneumologia e Medicina Intensiva Coord. da UCIMC, Depart. do Tórax, Hospital Pulido Valente, ULSSM. Professor da FMUC
A bronquite aguda é uma infeção do aparelho respiratório inferior, envolvendo as vias aéreas de maior diâmetro, os brônquios, sem evidência de pneumonia e na ausência de patologia prévia traqueobrônquica (por exemplo, DPOC ou doença pulmonar obstrutiva crónica), instrumentação na via aérea ou imunocompromisso.
É uma das condições mais frequentes na prática clínica, estimando-se que todos os anos possa representar até 10% das consultas por doenças respiratórias em ambulatório. A sua incidência é maior nos meses mais frios, em particular no final do Outono e durante o Inverno, coincidindo com a circulação dos vírus respiratórios.
A bronquite aguda é habitualmente autolimitada e as queixas resolvem após uma a três semanas. Os sintomas resultam da inflamação dos brônquios, que, na quase totalidade dos casos, é devida a infeção viral. A queixa dominante é a tosse, persistente e muito incómoda para o doente e familiares mais próximos, geralmente com eliminação de expetoração, sobretudo nas fases iniciais. Apesar da expetoração poder ser purulenta, esta característica não é indicadora de infeção bacteriana ou de resposta a antibióticos.
Os vírus mais frequentemente envolvidos são o influenza A e B, o parainfluenza, os coronavírus comuns (HCoV-OC43, HCoV-NL63, HCoV-HKU1, HCoV-229E), os rinovírus, o metapneumovírus humano, o vírus sincicial respiratório e o SARS-CoV-2.
Filipe Froes
As bactérias são causas incomuns de bronquite aguda e as mais frequentemente isoladas são Bordetella pertussis, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae. Não há evidência convincente que sustente o conceito de “bronquite bacteriana aguda”, causada por patógenos como Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis ou outros bacilos gram-negativos em adultos sem instrumentação das vias aéreas (por exemplo, traqueostomia, intubação endotraqueal) ou DPOC.
O diagnóstico é clínico e pressupõe a exclusão de infeção das vias aéreas superiores (supraglóticas), que podem condicionar rinorreia posterior, asma brônquica, exacerbação aguda da DPOC, doença do refluxo gastroesofágico, insuficiência cardíaca, medicamentação associada a tosse (por exemplo, os inibidores da enzima de conversão da angiotensina e mais recentemente o sacubitril) e a pneumonia.
A pneumonia é pouco provável na ausência de sinais focais à auscultação torácica, se a frequência cardíaca for inferior a 100 bpm, se a frequência respiratória for inferior a 24 com e se a temperatura corporal inferior a 38º C, sem antipiréticos. Um valor de oximetria de pulso superior a 95% bem como uma procalcitonina inferior a 0,25 ng/mL também contribuem para excluir a pneumonia.
O tratamento é sintomático, deve abordar as expectativas do doente, para maior adesão, e representa sempre uma oportunidade de literacia e educação do doente, relativamente à utilização indevida da antibioterapia e os seus efeitos indesejáveis, tais como o desenvolvimento de resistência antimicrobiana, que representa uma ameaça de saúde pública.
Artigo originalmente publicado no Jornal do Allergy & Respiratory Summit (fev 2026).


