Opinião

Caráter não é profilaxia


Guilherme Teles

Estudante de Medicina na Univ. de Coimbra. Presid. do Núcleo Univ. de Voluntariado de Estud. de Medicina (NUVEM). Autor do projeto Ensaios Soltos



Uma cruz desenhada apressadamente num quadrado branco. Um bisturi que corta exatamente onde devia. Um monitor que apita de forma ritmada. O primeiro choro de uma criança. O último suspiro de alguém.

À primeira vista, parecem momentos sem qualquer relação. Uns cabem numa folha de exame, outros num bloco operatório e outros tantos numa enfermaria. Mas todos eles acabam, inevitavelmente, por fazer parte da mesma casa.

Durante anos, a Medicina parece resumir-se a um quadrado branco. Uma escolha múltipla. Uma resposta certa entre cinco erradas. Saber ou não saber. Passar ou não passar. Depois, deixam de existir quadrados.

Num ano, a preocupação é decorar nomes de recetores ou compreender reações químicas. No seguinte, dominar fórmulas e algoritmos. Mais tarde, conhecer cada músculo, cada nervo, cada artéria do corpo humano. E, quase sem nos apercebermos, estamos sentados à cabeceira de alguém que lentamente se despede do corpo que habitou durante toda uma vida.

Há qualquer coisa de violentamente abrupto nesta transição. Passamos anos a aprender como funciona o corpo humano e, de repente, espera-se que saibamos o que fazer quando ele deixa de querer funcionar. Não apenas tecnicamente (isso virá com o tempo); espera-se que saibamos permanecer. Olhar. Escutar. Continuar. Mas quem nos ensina isso? Será mais difícil aprender a lidar com o sofrimento dos outros do que com o nosso? Ou será que apenas acreditamos conhecer o nosso porque nunca tivemos oportunidade de o enfrentar verdadeiramente?

Nascerá a impotência da morte ou da ignorância perante ela?

Porque custa aceitar que alguém possa morrer quando sabemos que, daqui a dois anos, aprenderemos exatamente qual o fármaco indicado. Ou quando já o sabemos, mas ainda nos faltam dois anos para que um autocolante na bata nos autorize a utilizá-lo. Mas nem toda a impotência vem dos livros. Às vezes, a pessoa morre porque decidiu abandonar o corpo precisamente quando o especialista foi devorar o seu rissol de leitão. Ou porque os internos já estão ocupados com outros três doentes igualmente azarados; no fundo, não existem mãos suficientes para todos.

E, então, repetimos a frase que tanto conforta quem a diz quanto pouco consola quem a ouve. "Fizemos o melhor que podíamos." Mas será que fizemos? Ou fizemos apenas o melhor que o sistema nos permitiu fazer?

Não culpo a faculdade por não conseguir acelerar a aprendizagem. Há coisas que exigem tempo. Nenhum médico nasce antes de o poder ser. Mas há outra aprendizagem que continua quase totalmente entregue ao acaso.

Ninguém nos ensina a entrar numa enfermaria depois de termos assistido à morte de alguém. Ninguém nos explica como se regressa a casa depois de ouvir um diagnóstico devastador pela primeira vez. Ninguém nos mostra como se transporta o sofrimento alheio sem que ele, aos poucos, se transforme em sofrimento próprio.

Talvez porque continuemos a fingir que isso faz parte da profissão. Que se aprende. Que endurece. Que constrói caráter.

E como é que a estrutura reage a este choque com a mortalidade? Como é que nos ajuda a processar o peso de uma urgência caótica? A resposta roça a ironia burocrática. Admiramo-nos quando um psicólogo para milhares de estudantes é apresentado como resposta suficiente. Quando um cheque ocasional substitui uma política séria. Quando a saúde mental passa a depender da disponibilidade de uma consulta que dificilmente chega a tempo.

Há uma curiosa obsessão em preparar-nos para “salvar vidas”. Muito menos em preparar-nos para continuar a viver depois de não o conseguirmos (ou de vermos os outros não o conseguirem).

Talvez seja essa a maior lacuna da formação médica. Não a falta de conhecimento. Mas a ilusão de que conhecer basta.

Até lá, continuaremos a celebrar as campanhas sazonais da vacina da gripe para os estudantes. Afinal, prevenir infeções parece ser uma prioridade consensual. Já para prevenir o desgaste psicológico, continuamos à espera da primeira vacina suficientemente barata para caber no orçamento. Ou as duas consultas de avaliação do “chequezinho” cumprem o mínimo?

Até lá, dizem-nos para construir caráter. Pena que ainda não exista uma vacina para isso.

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