A abordagem das doenças crónicas «não se compadece com o modelo de resposta avulso»

“Se não formos capazes de preservar um modelo de organização hospitalar de resposta personalizada à pessoa portadora de doença crónica algo vai muito mal no sistema de saúde”, afirmou o secretário de Estado da Saúde, ao dirigir-se aos participantes na 3.ª Conferência de Valor da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que decorreu, no último fim de semana, em Évora.

Manuel Delgado, que já presidiu à Associação agora dirigida por Alexandre Lourenço, sublinhou que “o envelhecimento, a multipatologia e a fortíssima dependência das pessoas dos serviços de saúde” constituem um novo problema das sociedades modernas.



Na sua intervenção, durante o jantar de trabalho, o governante defendeu que “a doença crónica não se compadece com o modelo de resposta avulso”, reclamando um "follow-up e uma monitorização do doente constantes". 

Para Manuel Delgado, isso implica “uma abordagem integrada, em que o médico de família vai continuar a ser o pivot do doente, mas tem de interagir diariamente com os médicos dos hospitais, os enfermeiros, os fisioterapeutas, ou os assistentes sociais, entre outros profissionais de saúde”.

Também o administrador hospitalar Francisco Guerreiro, presidente da 3.ª Conferência de Valor APAH, já se tinha referido, na abertura da reunião, ao envelhecimento da população e consequente aumento da prevalência das doenças crónicas. 

Segundo disse, este facto “coloca novos e acrescidos desafios ao bom funcionamento e articulação do setor da saúde e especialmente a toda a estrutura e rede do SNS – centros de saúde, hospitais, unidades e cuidados continuados”.


Francisco Guerreiro, Nick Goodwin, Manuel Delgado e Alexandre Lourenço

Recorrendo a dados concretos, Francisco Guerreiro referiu que em 1979, ano em que foi criado o SNS, 11% da população tinha 65 ou mais anos, uma percentagem que, até 2016, haveria de duplicar (21%).

Neste período de 37 anos, em Portugal, o índice de envelhecimento aumentou substancialmente. Conforme mencionou Francisco Guerreiro, em 1979, era de 42 idosos por cada 100 jovens, passando, em 2016, para 149 por cada 100 jovens.

Cuidados continuados: um “benefício para o sistema”

Manuel Delgado sublinhou que os cuidados continuados foram uma inovação importante que surgiu em Portugal em 2007, representando um “benefício para o sistema”, sendo uma área em que o Governo "continua a apostar, incluindo nos cuidados continuados em saúde mental".

No entanto, por vezes, as altas para cuidados continuados são dadas “sem grande consistência” e os doentes não estão preparados, acabando por regressar aos hospitais.

No seu discurso, o secretário de Estado da Saúde abordou outras questões, como o facto de Portugal ter demoras médias de internamento relativamente elevadas no contexto europeu, de o internamento ser muito oriundo das urgências (98% na área da medicina e especialidades médicas e 40% na área das cirurgias) e muito baseado nas especialidades – médicas e cirúrgicas.

Homenagem a quatro “patrimónios da Administração Hospitalar de Évora”

Entretanto, a APAH decidiu homenagear quatro administradores hospitalares de Évora: José Cosinha, Manuel Fialho, António Paulino e o próprio presidente do evento, Francisco Guerreiro.

Manuel Delgado, Manuel Fialho, Francisco Guerreiro, José Cosinha, António Paulino e Alexandre Lourenço 


Fazendo um paralelismo com o facto de aquela cidade ser classificada pela UNESCO Património da Humanidade, o presidente da APAH, Alexandre Lourenço, apresentou-os como “patrimónios da Administração Hospitalar de Évora”.

“A integração de cuidados, um desafio partilhado”

Antes do jantar de trabalho, teve lugar a palestra APAH TALKS “A integração de cuidados, um desafio partilhado”, proferida por Nick Goodwin, CEO da International Foundation for Integrated Care (Reino Unido).


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